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Tome um café – sem aula sobre café

Está escrito na portinha de vidro: Campeão Brasileiro 2013. Mas a informação se perde entre o nome do café e as opções da bebida à venda no local, um canto pacato da capital paranaense.

26 fevereiro 2014 | 20:01 por joseorenstein

“Não quero intimidar ninguém. Se o cara vier aqui para saber o que tem de mais moderno no mundo do café, vai saber. Mas se só quiser um cafezinho, tem também”, diz o carioca Leo Moço, que abriu há um mês o Barista Coffee Bar em Curitiba.

Leo venceu em setembro o Campeonato Brasileiro de Baristas, o que o credencia para o Campeonato Mundial, em junho na Itália – sim, paralelamente à Copa do Mundo (“Nem vou ver”, ri Leo). É minucioso com a técnica para se tirar o expresso perfeito e vidrado na temperatura exata para a torrefação ótima do grão. Mas não quer que essa ultraespecialização apareça na xícara de quem vai beber. “Nosso meio gourmetizou demais o café. Para mim, pode ser algo muito estudado e científico até. Para o cliente, não”, diz.

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Café de um homem só. O barista trabalha num espaço diminuto; ali, quem brilha é a bebida. Fotos: Fernando Sciarra/Estadão

No Barista Coffee Bar, a despretensão ganha forma evidente nos móveis, feitos de compensado, caixotes de papelão e caixas de feira, que servem também para estampar o cardápio, escrito na madeira simples com uma caneta preta indelével.

A prova de que Leo não ficou apenas no discurso são os preços. O expresso, feito com grãos orgânicos de um premiado pequeno produtor do sul de Minas e torrados pelo próprio Leo, custa R$ 3. O machiatto, R$ 3,75. Um café feito numa incrível máquina Clover (que em 2007 virou exclusiva da Starbucks), com grãos seletos, de torra especial, sai por R$ 6.

Leo tinha estudado nutrição, era técnico em informática com um bom salário e achava café um troço amargo demais. Mas a perda de um filho ainda antes de nascer deu uma chacoalhada na vida e ele resolveu abrir um café em Santa Teresa, no Rio, sua terra. “Eu pensei: vou botar um cafezinho aqui, os gringos gostam”. Viu uma entrevista da barista Isabela Raposeiras no Jô Soares e resolveu que iria entender daquele assunto: cafés especiais.

Estudou, passou um tempo em fazendas cafeeiras, se inscreveu no campeonato de barista – contrariando amigos que diziam: “Você é ruim!”. Não foi muito bem, mas acabou conhecendo todo mundo do meio.

No começo, Leo alugava o salão de festa do prédio e fazia eventos sobre café, com oficinas e degustação. “Eu tinha um pensamento técnico: se o café tiver tal moagem, com tal compactação do pó, vai ficar bom”, lembra. Mas quando conheceu grãos estrangeiros, do Panamá, da Etiópia, começou a se ligar mais no sabor, que segundo Leo, se revela na torra.

Prestou consultoria para cafés, trabalhou em Nova York – onde viu que era possível servir café de primeira sem salmaleques e a preço acessível –, abriu negócio em São Paulo. Até que decidiu simplificar a vida em Curitiba: gastou R$ 2 mil para abrir o Barista Coffee Bar, pintou as paredes, instalou tudo e é o próprio patrão. “Aqui não tem trânsito. E tem um cultura de café: é a única cidade em que você ser servido por três baristas campeões brasileiros”, diz. Ele se refere aos colegas Otávio Linhares, do Rause, e Gracielle Rodrigues, do Lucca, ambos em Curitiba (ler abaixo).

Em um mês de café, conquistou clientes do bairro, de operários a empresários. Durante nossas quase duas horas de conversa, alguns deles entram, chamam-no pelo nome, tomam um cremoso e aromático expresso – e não recebem uma palestra sobre a diferença entre o café especial torrado e moído sob medida, e o pó comum a que a maioria está acostumado.

Aos poucos, ele convence a clientela a dispensar o açúcar extra. É que o café que ele tira tem um doce natural: durante a entrevista, três abelhas camicases se afogaram no restinho que ficou nas xícaras sorvidas no Barista Coffee Bar.

SERVIÇO – Barista Coffee Bar

R. Moyses Marcondes, 357, Juvevê, Curitiba

Tel.: (41) 3501-746

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 27/2/2014

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