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Bebida

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Um brinde aos 260 anos do Porto

A região está em festa para comemorar o aniversário da demarcação da região produtora do Douro. O 'Paladar' participou das comemorações e ainda experimentou o vinho fortificado de 1860

14 setembro 2016 | 19:58 por Isabelle Moreira Lima

Do Porto

A cidade do Porto, no norte de Portugal, está em festa, brindando – obviamente – com seu célebre vinho fortificado. O motivo são os 260 anos da demarcação e regulamentação da região produtora do Douro, comemorados no último sábado (10) com uma maratona de jantares, visitas a adegas, coquetéis e, no momento mais esperado, uma degustação com vinhos do Porto produzidos ao longo de três séculos. Sim, este fortificado é capaz de envelhecer por mais de cem anos. O Paladar foi à festa.

Estrela da degustação que incluiu 15 rótulos, o Bulas Very Old Port é um Tawny (veja sobre cada estilo abaixo) da segunda metade do século 19 engarrafado no ano passado. São apenas 200 garrafas. O palpite do diretor de certificação do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), Bento Amaral, um dos maiores especialistas de Porto do mundo, é que se trata da safra de 1860. Amaral, que prova cerca de 3 mil rótulos por ano, avaliou o vinho como “pronto para beber”, o que soa irônico (temos que esperar tanto para beber um bom Porto?). 

 

  Foto: Divulgação

Ficou com água na boca?

Na degustação do Port Wine Day, como foi chamado o aniversário da demarcação, o vinho dourado pálido mostrou boa acidez (7,6 para os mais técnicos), 286 gramas de açúcar por litro e notas de especiarias e mel. Bento Amaral destacava as características e nós, degustadores do mundo todo, dispostos em longas mesas com mais de 15 taças à frente, custávamos a acreditar que aquele líquido tão vivo havia sido feito há 156 anos. Para Amaral, a técnica aprimorada por séculos e a qualidade das uvas do Douro é que tornam a bebida tão longeva. 

A região produtora, que começa em Peso da Régua, a cerca de 100 km ao leste da cidade do Porto, e vai até a fronteira espanhola, é quente e seca. Sofridas com a insolação e o solo pobre, as uvas são fruto de uma agricultura extrema. Na semana em que muitas quintas iniciavam sua vindima, o Paladar arriscou-se por uma hora cortando uvas na geografia íngreme de socalcos do Douro, na Quinta do Crasto. A vista estonteante não ameniza o sol de 46°C.

Considerando que os trabalhadores encaram oito horas diárias ali, entende-se um dos motivos da evasão da mão-de-obra jovem, um problema para as vinícolas durienses.

O resultado, no entanto, são uvas de alta concentração, níveis de açúcar excelentes e acidez brilhante que, além do vinho do Porto, nos últimos 30 anos geram os DOC Douro, os vinhos tranquilos ou de mesa, como são chamados ali.

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Mas voltemos ao Porto, que é a grande estrela do aniversário do Douro como região demarcada – a mais antiga do mundo, nascida com os marcos autorizados pelo Marquês de Pombal. Hoje, ele quer retomar seu papel de embaixador de Portugal e superar a ideia de que é uma bebida cara e ultrapassada.

 

  Foto: Divulgação

No Port Wine Day, além da degustação dos vinhos antigos, de alta gama e alto preço, provamos o Porto Tônica, coquetel feito com Porto branco, água tônica, limão e hortelã. De tão refrescante, nem os estudiosos reclamam. “A experimentar”, sugere Bento Amaral.

 

A HISTÓRIA DO VINHO DO PORTO

A história do vinho do Porto começa no século 17, quando importações de vinhos franceses pela Inglaterra estavam proibidas e os ingleses precisavam continuar bebendo. Encontram na região do Douro uma bebida escura e adstringente que os agradou tão profundamente que quiseram, a qualquer custo, mantê-la intacta até o Reino Unido. Passaram a adicionar aguardente para estabilizá-la antes da viagem. Em 1678, o filho de um comerciante de Liverpool encontrou uma vinícola de frades cistercienses que adicionava a aguardente durante a fermentação, o que matava as leveduras ativas e dava o caráter doce. Na década de 1730, adições extras de açúcar e sucos de frutas colocaram em risco a reputação do Porto e levaram à demarcação em 1756 pelo Marquês de Pombal.

 

OS QUATRO ESTILOS DE VINHO DO PORTO

Doce e alcoólico, o vinho do Porto nasce de fermentação rápida, de apenas dois ou três dias, antes da adição de aguardente de uvas. Como o mosto fica em contato com as cascas por menos tempo que em um vinho tranquilo, a extração deve ser mais vigorosa e eficiente. Nos rótulos de mais alta gama, ainda é utilizada a tradicional pisa pé, em que o pé o humano faz a mágica acontecer em lagares.

Depois que a aguardente é adicionada, a bebida segue para enormes balseiros de carvalho em frias adegas de Vila Nova de Gaia, município vizinho do Porto (uma Niterói portuense, separada pelo Douro). Elas vão para lá para evitar o “Douro bake”, em que as altas temperaturas do Douro “cozinham” o vinho. 

Mais de 80 cepas são autorizadas para a produção do Porto de acordo com a demarcação. As mais comuns são Touriga Nacional, Tinta Barroca, Touriga Franca e Tinto Cão nos tintos, e Gouveio, Malvasia Fina e Viosinho nos brancos.

 

  Foto: Divulgação

Branco

O vinho do Porto branco é produzido a partir de uvas brancas pelo mesmo processo usado nos tintos. A diferença é a maceração mais rápida ou inexistente. A maioria deles estagia por até 18 meses em tanques de aço ou cimento. Estes, geralmente, são transparentes. Nos que passam por madeira, a cor é ouro e o paladar mais seco. Os mais especiais podem ser engarrafados de acordo com a idade, como ocorre com os Tawny: 10, 20, 30 e 40 anos.

O Taylor’s Chip Dry (R$ 199 na Qualimpor) vai bem como aperitivo ou como Porto Tônica. 

Vão bem com amêndoas, salmão defumado e frutos do mar.

Rosé

Este aqui causou polêmica quando apareceu, em 2008, uma criação da Croft, que no Brasil vende seu Croft Pink (R$ 126 na La Pastina). Feito com uvas tintas em contato mínimo com as cascas, foi primeiro classificado como “light Ruby”. 

Hoje, muitas outras casas fabricantes de Porto adotaram o estilo, uma vez que é um queridinho das novas gerações. Sua principal característica aromática e no paladar é a presença marcante da cereja. 

Ideal para fazer coquetéis. No seu homônimo Porto Rosé, é misturado a água tônica, laranja, gelo e hortelã.

Ruby

Pense em uma explosão de fruta doce e madura, este é o Ruby, um vinho encorpado, rico e poderoso. Após estagiar em pipas enormes (nas caves da Casa Ferreira é possível encontrar uma de 72 mil litros) por dois ou três anos, ele envelhece mesmo é em garrafa, principal característica que o distingue do Tawny. 

As subcategorias do Ruby começam no Reserva, feito a partir de um corte de diferentes anos que criam um vinho jovem e poderoso.

O Porto Late Bottled Vintage, popularmente conhecido pela sigla LBV, é um Porto de um ano só, engarrafado depois de estagiar entre quatro e seis anos. É muito encorpado e rico na boca, como o LBV Quinta do Crasto (R$ 316 na Qualimpor).

O Porto Vintage é a joia da coroa do estilo: é editado em anos considerados excepcionais pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. É produzido com uvas de um único ano e evolui durante 10 a 50 anos em garrafa. À medida que envelhece, evolui para tons alourados e a fruta fica mais sutil. Após aberto, deve ser consumido em 24 horas.

Se uma quinta considera que teve um ano excepcional, pode editar o chamado Porto Vintage Single Quinta, feito com vinho de um único ano e de um único lugar.

Vão bem com rosbife, steak au poivre, carnes de caça e sobremesas com chocolate ou cheesecake, além de queijos de massa azul. 

Tawny

Para uma identificação rápida, pode-se dizer que o Tawny é o vinho do Porto acastanhado com notas de caramelo. Na teoria, ele envelhece em pipas de madeira por tanto tempo que perde sua cor e aromas de fruta. Na prática, muitos dos rótulos de entrada (os mais baratos e sem especificidades) são feitos com uvas menos concentradas da região de Baixo Corgo, a mais fresca do Douro. 

Quando são engarrafados estão prontos para serem consumidos e, quanto mais velhos, mais intensas as características. O estilo é subdividido em categorias de idade: 10, 20, 30 e 40 anos, que indicam o tempo de envelhecimento do vinho.

Os de 10 anos mostram aromas de frutas secas e especiarias e têm cor de tijolo. Os de 20 são âmbar e lembram baunilha. Os de 30 trazem notas de mel. E os de 40 são intensos, concentrados e complexos. 

Há ainda os Colheita, que, safrados e envelhecidos em cascos de sete a cem anos, trazem um mix de vinhos de um único ano; e os Reserva, que são um corte de vinhos com idade entre cinco a sete anos envelhecidos em carvalho.

Boas parcerias. Os vinhos de 10 anos, como o Wine and Soul Tawny 10 anos (R$ 370,60 na Adega Alentejana), vão bem com patês, nozes, foie gras, carnes recheadas de castanhas e sobremesas feitas de ovos, nozes e sorvete. Os de 20 anos vão bem com queijos maturados e sobremesas de fruta e amêndoas. 

 

COMO DEGUSTAR O VINHO DO PORTO

por Bento Amaral, diretor de certificação do IVDP

Prova. Amaral sugere passear pelos estilos

Prova. Amaral sugere passear pelos estilos Foto: Divulgação

Um dos maiores especialistas em vinho do Porto do mundo, o enólogo de formação e responsável pelas provas e certificação do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto dá dicas de como conhecer mais o fortificado.

Aos iniciantes: “Sugiro que experimentem vinhos dos estilos principais de vinho do Porto, branco, Tawny e Ruby. Para que seja mais fácil distinguir as diferenças, comece pelas categorias especiais, um Reserva branco, um Tawny 10 anos e um LBV. Assim, poderá concluir qual o seu estilo preferido e começar a explorá-lo mais profundamente.”

Aos veteranos: “Para os mais experientes, proponho que comprem diferentes marcas dos mesmos estilos e categorias, como por exemplo Tawny 20 anos, Colheita ou LBV. A ideia é analisar as nuances e os perfis de empresas diferentes.”

COMO CONSERVAR E SERVIR

Veja a recomendação do Instituto dos Vinhos do Porto e do Douro no que diz respeito à conservação das garrafas depois de abertas e à temperatura de serviço.

Conservação

Depois de aberta a garrafa de vinho do Porto, a sua conservação dependerá do estilo e da categoria a qual pertence, além do local onde será guardada.

Vintage: 1 a 2 dias

LBV: 4 a 5 dias

Crusted: 4 a 5 dias

Ruby / Ruby Reserva: 8 a 10 dias

Tawny / Tawny Reserva:  3 a 4 semanas

Tawny com Indicação de Idade (10/20/30/40): Entre 1 a 4 meses (os mais novos menos tempo, os mais velhos mais tempo)

Brancos com indicação de idade (10/20/30/40): Entre 1 a 4 meses (os mais novos menos tempo, os mais velhos mais tempo)

Colheita: Entre 1 a 4 meses (os mais novos menos tempo, os mais velhos mais tempo)

Brancos “standard” dependente do estilo: Moderno  (frescos e frutados): 8/10 dias; Tradicionais (estilo oxidativo): 15/20 dias

Temperaturas de serviço

Porto Rosé: 4ºC

Porto Branco: 6-10ºC

Porto estilo Ruby: 12-16ºC

Porto estilo Tawny: 10-14ºC

VIAGEM A CONVITE DO INSTITUTO DOS VINHOS DO DOURO E DO PORTO

Ficou com água na boca?