Um gole de vinho, dois de prosa
Luiz Horta
Colunista de vinhos do Paladar
1. Baú de Ossos
Autor: Pedro Nava
Editora: Companhia das Letras
(484 págs., RS 54,50)
Pedro Nava ficou sumido das prateleiras até ter memórias relançadas pela Companhia das Letras. Seria o Proust brasileiro, se Proust não fosse tão frágil e conseguisse descrever uma feijoada como Nava faz. Copio sempre sua expressão “torresminho totêmico”. É vasta literatura, mas se você conseguir entrar na música, não larga mais.
2. Consider the lobster
Autor: David Foster Wallace
Editora: Back Bay Books
(343 págs., US$ 9)
Escritor complicado, trágico, difícil de ler, Wallace também fazia ensaios para revistas e o título da coletânea descreve a festa da lagosta no Maine, uma mistura de realismo brutal e irônico, com a poesia beletrista de um cultor do idioma. Minha concessão ao que poderia ser a defesa maluca contra a matança de bichos comestíveis, salva pelo estilo.
3. Paris to the Moon
Autor: Adam Gopnik
Editora: Random House
(368 págs., US$ 10,88)
Eu deveria sugerir, do colaborador da revista The New Yorker, seu livro sobre comida, The Table Comes First, lançado em 2011. Entretanto, o livro que reúne os artigos que enviou para a revista no ano que passou como correspondente em Paris é muito melhor e tem diversos capítulos dedicados a comida, como a tentativa de salvar uma brasserie clássica, a visita de Alice Waters para abrir um restaurante no Carrousel do Louvre e as diferenças culturais entre americanos e franceses.
4. Os Sentidos do Vinho
Autor: Matt Kramer
Editora: Conrad
(240 págs., R$ 47)
Este é o melhor livro de ensaios inteligentes sobre vinhos, do colunista da Wine Spectator. Não há capítulo perdido aí, sempre nossas certezas vinícolas são sacudidas por ele, para pensar.
+ Veja todas as estantes da equipe do Paladar
5. Pars! Voyager Est un Sentiment
Autor: François Simon
Editora: Robert Laffont
(242 págs., 18,34 euros, na Amazon.fr)
O crítico de restaurantes do Le Figaro, cujo rosto nunca aparece, escreve muito bem. Seu último livro, de viagens (que inclui sua passagem por São Paulo, quando veio a convite do Paladar para o Paladar – Cozinha do Brasil) é delicioso. E recomendo também Comer é um Sentimento. Nos dois livros seu humor caustico, seus conselhos de como chatear sommeliers pedantes, suas críticas terríveis e mordazes, sua temida sinceridade, fazem rir e não estão pregadas ao conhecimento dos restaurantes que ele cita. São atemporais.
6. A Life Uncorked
Autor: Hugh Johnson
Editora: University of California Press
(384 págs., US$ 36)
Se eu tivesse de eleger o melhor livro sobre vinhos que já li, nem piscaria, é este. Hugh Johnson é um dos maiores conhecedores da bebida no mundo. Mas tem memorias de verdade e não só uma sucessão de epifanias envolvendo grandes garrafas e safras. Entrou no assunto por acaso, conheceu todo mundo e tem histórias engraçadíssimas. Pena nunca ter sido traduzido.
7. Adventures on the wine route
Autor: Kermit Lynch
Editora: North Point
(288 págs, US$ 12,92)
Lynch praticamente inventou a importação de vinhos na Califórnia, na mesma época em que acontecia o boom gastronômico no estado. Enquanto o pessoal de Berkeley e adjacências abria restaurantes (Keller e o French Laundry, Waters e o Chez Panisse) as garrafas de Kermit Lynch supriam suas cartas. O livro é a aventura de um americano dirigindo por uma França ainda profunda e rural na garimpagem de produtores desconhecidos (naquela época…) e sua briga, por vezes hilariante, para conseguir convence-los a venderem seus vinhos para um desconhecido californiano. As descrições dos vinicultores é preciosa, detalhista e parece mais feita por um bom jornalista que por um vendedor de bebidas. Um grande escritor.
8. Um alfabeto para gourmets
Autora: M. F. K. Fisher
Editora: Companhia das Letras
(264 págs., Esgotado)
Mary Frances Kennedy Fisher é a melhor escritora de comida de língua inglesa (ouço a turma pró-Elizabeth David esperneando, mas é minha opinião). O melhor livro dela, para mim, chama-se Consider the Oyster, e ninguém jamais conseguirá escrever sobre ostras da mesma maneira. Infelizmente, só dois de seus livros foram traduzidos, Como Cozinhar um Lobo e este alfabeto. Prefiro o alfabeto, que mostra mais sua verve. E um livro publicado originalmente em 1949 e que não envelheceu nada.
9. The raw and the cooked
Autor: Jim Harrison
Editora: Groove
(288 págs., US$ 10,40)
Harrison é um ogro. Quase um urso selvagem, comedor em volume, pantagruélico, audacioso, grosseiro. E refinado, engraçado, capaz de discussões elaboradas com chefs franceses estrelados. Um escritor singular, que alterna o excesso e a delicadeza. Nasceu no campo, ficou cego de um olho numa caçada, divide o tempo entre uma cabana em Montana, isolada de tudo, e hotéis estrelados da França. Ganhou dinheiro quando seu livro “Lendas da Paixão” virou filme com Brad Pitt, e gasta tudo em comida. Não é livro para os sensíveis.
>> Veja todos os textos publicados na edição de 27/12/12 do ‘Paladar’
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