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Comida

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Açaí, a fruta púrpura do Norte

Em Belém, 'Paladar' acompanha a produção do açaí desde o pé até o prato na melhor época da colheita, que vai até o próximo mês, e quando a oferta é maior no País; a demanda cresceu tanto que em dez anos o preço quadruplicou

09 novembro 2016 | 19:26 por Ana Paula Boni

De Belém

Nascido e criado na Ilha do Combu (PA), Anderson Nascimento da Silva tem 31 anos e cata açaí desde os 7. Corpos leves são melhores para o serviço, pois num dia de trabalho é preciso subir e descer o açaizeiro umas 25 vezes. O catador amarra no próprio pé um laço de folha de açaí (a pecônia) e sai pulando ao longo do tronco com o apoio das mãos. Tudo no intervalo das 6h às 9h, segundo Anderson, antes que o sol esquente e oxide os frutos. Às 9h os termômetros já chegam aos 30°C em cidades do Pará, Estado que responde por cerca de 80% da produção do País.

Dependendo do tamanho do cacho de açaí e da mão do catador, a cada vez ele desce com dois ou quatro ramos. Não adianta jogar lá de cima – frutos arrebentados não interessam ao comprador. O cuidado que o açaí demanda desde que sai do pé até ser processado é tamanho que o comércio no mercado Ver-o-Peso, em Belém, acontece de madrugada, sem sol. 

As rasas (cestos de palha) em geral são vendidas num intervalo de 24 horas desde que o açaí foi catado. Quanto mais velhos, mais secos eles estão e menos polpa têm, e assim vão sendo barateados. Vendedores espertos podem tentar enganar o consumidor colocando frutos congelados no miolo da rasa, para que eles aparentem frescor.

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A empresária paraense Antonia Padvaiskas, que em São Paulo comercializa produtos do Norte pelo seu Empório Poitara, tem primos trabalhando com açaí no Pará e conta como os comerciantes afiados escolhem os seus cestos – enfiando a mão bem no meio, para detectar possíveis congelamentos. “Se o açaí estiver suando, é porque está descongelando”, diz ela.

Nessa espécie de bolsa de valores do açaí que é o Ver-o-Peso, a lata de 14 quilos custa R$ 40 nesta época abundante do ano, mas pode chegar a R$ 140 na entressafra, principalmente de março a maio, conta o empresário Nazareno Alves, dono de fábricas e restaurantes Point do Açaí, em Belém.

De mercados como o Ver-o-Peso os frutos vão para processamento, onde os chamados batedores de açaí trituram-no com água, separam os caroços e vendem a polpa resfriada de acordo com a espessura: açaí grosso, médio e fino.

Ainda tem o especial, que alguns paraenses chamam de “papa” – é a primeira saída da máquina, com mínima adição de água. “É aquele em que a colher fica de pé”, conta Antonia. É o mais cobiçado na capital e também o mais caro – média de R$ 18 ou R$ 20 (o litro), enquanto o grosso gira em torno de R$ 10. (Para achar açaí em Belém, procure por uma placa vermelha em frente a pequenos estabelecimentos.)

O paraense Anderson Nascimento da Silva, que cata açaí desde os 7 anos

O paraense Anderson Nascimento da Silva, que cata açaí desde os 7 anos Foto: Felipe Rau|Estadão

Os valores cresceram demais, reclamam os paraenses, que são os maiores consumidores do País. Só a capital consome cerca de 300 mil toneladas do fruto por ano, quase 30% de toda a produção do Estado, segundo a Secretaria de Agricultura. A demanda no resto do País e no mundo (principalmente Japão e Estados Unidos) cresceu tanto que nos últimos dez anos a produção do fruto até dobrou, mas o preço quadruplicou, segundo dados do IBGE.

“Existe uma demanda ainda insatisfeita, que não é atendida com a atual produção”, conta o engenheiro agrônomo Geraldo Tavares, gerente de Fruticultura da Secretaria de Agricultura do Pará, segundo quem o programa PróAçaí do governo foi lançado neste ano para melhorar e aumentar a produção do fruto no Estado. “Realmente, subiu o preço, mas o produtor nativo está sendo mais bem remunerado também. Isso é positivo.” Uma parcela da produção do Estado é oriunda de extrativismo em florestas nativas, mas a maior parte é de terra manejada e plantada pelo homem, muitas em sistema de monocultura – que é estimulado pela alta demanda e é alvo de críticas de paraenses quanto ao uso da terra.

Prato típico do Pará, no Point do Açaí: peixes com tigela de açaí, farinha de tapioca e farinha de mandioca

Prato típico do Pará, no Point do Açaí: peixes com tigela de açaí, farinha de tapioca e farinha de mandioca Foto: Felipe Rau|Estadão

Lá, açaí vai com peixe e farinha

Ninguém sabe explicar como o açaí chegou ao Sudeste numa tigela com banana, guaraná e granola. O fato é que São Paulo, Rio e Minas respondem por quase 70% do que sai do Pará para outros Estados, mas os paraenses ainda torcem o nariz para essa forma nada tradicional de consumo. 

Começa pela textura da polpa, muito diluída. Depois, o costume é açaí ser companhia de charque (carne seca que os paraenses chamam de jabá) e peixe (fritos ou grelhados, como pirarucu, tucunaré, filhote e gó).

“Esse jeito do Sudeste não é um consumo real. Acaba tirando as características do jeito que a gente come lá, usa banana para engrossar. Daí tem gente que depois diz que não gosta de açaí, mas nem sabe como consumi-lo direito”, diz a paraense Antonia Padvaiskas, que mora em São Paulo.

Segundo Nazareno Alves, do Point do Açaí, em Belém, a refeição de peixe com açaí, parte da cultura popular, só encantou a elite paraense depois que caiu no gosto do Sudeste. “Agora açaí é legal.” Dono de restaurante, ele ensina aos turistas como comer: no prato estão peixes, carnes, salada e até batata frita; ao lado, a tigela de açaí, onde se mistura farinha de mandioca (d’água) e farinha de tapioca (aquela que parece uma pipoca).

Dê uma garfada no peixe do prato e, com ele na boca, tome uma colherada de açaí com as farinhas. A mistura só é feita na boca. Ah, sim, tem paraense, como o próprio Nazareno, que adoça esse açaí na tigela com açúcar.

Confira curta paraense que mostra o costume de se comer açaí com carne:

Um point que completou 10 anos

O pai de Nazareno Alves era batedor de açaí, o cara que transforma o fruto em polpa; em 2004 o filho resolveu entrar no ramo. Pediu R$ 1.500 emprestado no banco, montou uma máquina no pátio de casa, em Belém, e passou a vender o litro da polpa na porta. Em 2006, botou duas mesinhas na calçada para servir peixes e charque (carne seca que o paraense chama de jabá) com a tigela de açaí e farinha. Chamou o puxadinho de Point do Açaí.

No começo, comida ordinária que é essa combinação de peixe com açaí e farinha, ele precisou dar prato de graça aos amigos para atrair clientela. Dez anos depois, Nazareno hoje toca três restaurantes e três fábricas que processam o açaí que ele planta em Igarapé-Açu (PA) – uma parte vem de outros produtores. “Hoje minha produção em Igarapé é 40% do que consumo, mas a ideia é chegar a 100%.”

Quando ele fala em consumo está se referindo a 25 toneladas de açaí por mês que são batidos para seus restaurantes e para vendas avulsas que faz do litro do açaí na porta das fábricas.

Nazareno Alves, dono da rede Point do Açaí, em Belém

Nazareno Alves, dono da rede Point do Açaí, em Belém Foto: Felipe Rau|Estadão

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