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Após a maré vermelha, vêm ostras e mexilhões gordos e saborosos

Devido à proliferação de algas tóxicas no litoral sul do País, embargo à extração de moluscos em Santa Catarina durou mais de cinco semanas; agora estão maiores, do tempo que passaram engordando enquanto durava o embargo

13 julho 2016 | 18:50 por José Orenstein

Depois da tempestade, a bonança. Os efeitos da maré vermelha que avançou pelo litoral sul do País vão arrefecendo e, aos poucos, mexilhões e gordas ostras catarinenses voltam aos cardápios de restaurantes. E, o melhor, cada vez mais gordos.

Desde o fim de maio, e ao longo de todo o mês de junho, foi embargada a extração de moluscos das águas de Santa Catarina. O Estado responde por 95% da produção de ostra, mexilhão e vieira no Brasil, 24 mil toneladas por ano, mas se viu afetado por uma proliferação muito intensa de algas tóxicas.

O fenômeno é conhecido como maré vermelha: as algas se alastram pelo mar – e ostras, mexilhões e vieiras, filtradores, acabam absorvendo toxinas que a alga da vez, do gênero Dinophysis, libera. As toxinas podem provocar intoxicação alimentar e diarreia em humanos. Por isso, extração e consumo dos moluscos foram proibidos pelas autoridades sanitárias.

Ostras servidas no restaurante Rosso, do chef Alysson Müller, em Florianópolis

Ostras servidas no restaurante Rosso, do chef Alysson Müller, em Florianópolis Foto: Ricardo D'Angelo|Divulgação

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A maré vermelha não é inédita, mas a sua prolongada persistência é. “Normalmente, esses embargos duram duas semanas”, conta Gilberto Manzoni, do Centro Experimental de Maricultura da Univali, de Itajaí. 

Desta vez, o embargo durou mais de cinco semanas. Mas a maioria da produção de ostra catarinense já está restabelecida, e boa parte da de mexilhão (mais sensível) também. “Passamos junho sem retirar ostra. Por precaução, já que a região do nosso cultivo não foi afetada”, diz a chef Bella Masano, do restaurante Amadeus, que produz suas próprias ostras, já de volta ao cardápio. Também o Ici Bistrô recolocou no cardápio seu moules et frites, tradicional prato de mexilhões e batatas fritas e voltou a servir ostras frescas de Florianópolis.

A Casa da Ostra, no Mercado Municipal de São Paulo, recomeçou a receber ostras catarinenses nesta semana. “E elas vieram ainda mais gordas, mais saborosas”, conta Jéssica, atendente da casa. 

O fato de os moluscos estarem mais gordos está, de certa forma, associado à ocorrência da maré vermelha. Isso porque a água mais nutritiva que alimenta as algas engorda também ostras e mexilhões – além de peixes: “Este ano foi incrível! Pegamos muita tainha, muita sororoca gorda, boa”, diz o chef Cauê Tessuto, que tinha A Peixaria e agora abastece outras casas com pescado. 

Mexilhões na pedra preparadas pelo chef Fábio Vieira no Micaela

Mexilhões na pedra preparadas pelo chef Fábio Vieira no Micaela Foto: Wellington Nemeth|Divulgação

“Este ano vieram massas de águas frias do Sul com mais nutrientes. Aí foi como erva daninha num gramado bonito. Tivemos a floração da alga”, diz Mathias Schramm, professor do Laboratório de Resíduos e Contaminantes em Recursos Pesqueiros do Instituto Federal de Santa Catarina. Ele diz ser impossível prever eventos como esse, que poderiam estar relacionados às mudanças climáticas.

O que importa à mesa é que, liberados os embargos, determinados após exames laboratoriais constantes feitos pela Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca catarinense, as autoridades sanitárias dizem que é seguro comer os moluscos – o negócio é se certificar sobre a origem. É que ostras e mexilhões “se limpam” das toxinas. E, nesta temporada, acabaram se beneficiando das águas frias mais nutritivas e do maior tempo que passaram engordando. 

Olho vivo. Na semana passada, a Cetesb detectou a presença da alga tóxica no litoral paulista. Em Caraguatatuba, foi interditada preventivamente a extração e o consumo de mexilhão. Não há em São Paulo um sistema eficaz de monitoramento da criação de moluscos como em Santa Catarina. As ostras de Cananeia, a princípio, não foram afetadas.

 

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