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Brasileira vence Bocuse D’Or no México e garante vaga para final na França

A alagoana Giovanna Grossi foi a primeira mulher a vencer a etapa brasileira. Agora, foi a melhor da América Latina na Copa do Mundo da gastronomia e vai para a final mundial em Lyon

12 fevereiro 2016 | 23:55 por Ana Paula Boni

Da Cidade do México

A torcida barulhenta que a alagoana Giovanna Grossi trouxe do Brasil para a Cidade do México - com vuvuzelas e camisetas verdes e amarelas - ficou minutos em silêncio antes do anúncio dos vencedores da etapa latino-americana do concurso Bocuse D’Or.

Pai, mãe, primos, tias, tio que veio da Alemanha - todo mundo tenso. Anunciado o terceiro colocado, da Guatemala. O segundo vai para uma uruguaia. E o primo de Giovanna confidencia, brincando em tom de prêmio de consolação: “Ah, tudo bem, a gente fica com o primeiro lugar, fazer o quê”.

Giovanna foi primeira mulher a vencer o Bocuse D'Or Brasil. Agora, venceu a etapa latino-americana do concurso e vai para a final na França

Giovanna foi primeira mulher a vencer o Bocuse D'Or Brasil. Agora, venceu a etapa latino-americana do concurso e vai para a final na França Foto: JF Diório|Estadão

A piada - que parecia feita para consolá-lo de uma possível derrota - logo deu lugar a uma gritaria ensurdecedora depois que a plateia ouviu da boca do peruano Gastón Acurio, presidente do júri: “Em primeiro, com um charmoso trabalho, Brasil”.

Até o discreto Laurent Suaudeau - francês radicado há 30 anos no Brasil e que foi o presidente da delegação brasileira - pulou de felicidade. Foi na escola de Laurent que Giovanna, 24 anos, treinou nos últimos meses para se preparar para o concurso, ao lado de seu cumim Nicholas Santos, 21 anos, e do treinador Victor Vasconcellos, que já trabalhou com Laurent.

Os vencedores da etapa latino-americana do Bocuse D'Or. Em primeiro lugar, a brasileira Giovanna Grossi. Na frente, à direita, Laurent Suaudeau, presidente da delegação brasileira.

Os vencedores da etapa latino-americana do Bocuse D'Or. Em primeiro lugar, a brasileira Giovanna Grossi. Na frente, à direita, Laurent Suaudeau, presidente da delegação brasileira. Foto: Ana Paula Boni|Estadão

Em outubro, Giovanna venceu a etapa brasileira e ganhou a chance de disputar a latino-americana - ela foi a primeira mulher a vencer o Bocuse D'Or Brasil. Agora, sai do México com 8.000 euros; Jessika Toni, a uruguaia que ficou em segundo lugar, com 5.000, e Marcos Saenz Gonzalez, o guatemalco que ganhou a terceira vaga, 3.000. Os três irão para a final em Lyon, na França, em janeiro de 2017, quando 24 países disputarão o pódio no ano em que o campeonato completa três décadas.

Giovanna, 24 anos, no primeiro dia do Bocuse D ‘Or no México, finalizando seu prato de peixe

Giovanna, 24 anos, no primeiro dia do Bocuse D ‘Or no México, finalizando seu prato de peixe Foto: Marcela Terra|Divulgação

O concurso. Criado em 1987 por Paul Bocuse, que completou 90 anos nesta quinta-feira, 11, e é o único chef a deter três estrelas Michelin por 50 anos ininterruptos, o Bocuse D’Or é considerado a Copa do Mundo da gastronomia, sempre realizado dentro da feira de negócios Sirha, organizada pela multinacional francesa GL Events.

Até hoje, nenhum país das Américas chegou a qualquer colocação do pódio, sempre dominado por europeus (dois países asiáticos já ficaram em segundo e terceiro lugar). A França é a recordista do topo do pódio, sete vezes campeã, seguida da Noruega, pentacampeã. O Brasil, que já foi à final, em Lyon, nove vezes, teve como melhor colocação a 10ª posição, em 1997.

Giovanna finaliza pratos de carne para servir aos jurados. Ao seu lado esquerdo, seu cumim, Nicholas Santos, treinado com ela em São Paulo

Giovanna finaliza pratos de carne para servir aos jurados. Ao seu lado esquerdo, seu cumim, Nicholas Santos, treinado com ela em São Paulo Foto: Ana Paula Boni|Estadão

Unidade latino-americana. Para o peruano Gastón Acurio, que presidiu o júri do Bocuse D’Or e conversou com a reportagem antes de conhecer o resultado final, mais importante que o primeiro, o segundo ou o terceiro lugar é a união da América Latina. “Como presidente, a primeira coisa que disse aos jurados é: 'Vocês têm que colocar seu coraçãozinho de lado, porque aqui estamos levando a América Latina ao mundial. E o objetivo é que alguém daqui ganhe lá. Porque, se ganha a América Latina, ganham todos os países.”

Além de Gastón, o mexicano Enrique Olvera também provou todos os pratos como presidente do concurso. Nas mesas ao lado, cinco jurados avaliaram os pratos de carne e cinco os de peixe. Como eram 10 países concorrentes, os 10 jurados eram justamente os presidentes das delegações, como Laurent Suaudeau - mas a nota deles não contava na soma final do seu país.

Segundo as regras do Bocuse D’Or, cada concorrente tem 5 horas para apresentar seu prato de peixe (aqui foi tilápia) e cinco horas e trinta e cinco minutos para o prato de carne (filé-mignon) - cinco competidores se apresentaram na quinta-feira e cinco na sexta, 12. No prato de peixe, era obrigatório ter acompanhamentos com ingredientes típicos de seu país.

O peruano Gastón Acurio (à dir.) e o mexicano Enrique Olvera analisando notas dadas a participantes do Bocuse D’Or no México. Enrique Olvera é o presidente do Bocuse D’Or México; Gastón Acurio é o presidente do júri do concurso

O peruano Gastón Acurio (à dir.) e o mexicano Enrique Olvera analisando notas dadas a participantes do Bocuse D’Or no México. Enrique Olvera é o presidente do Bocuse D’Or México; Gastón Acurio é o presidente do júri do concurso Foto: Marcela Terra|Divulgação

Giovanna preparou a tilápia a vácuo, apresentada sobre acelga fermentada e acompanhada de totem de mandioquinha e farinha de uarini, tufu (um tipo de empanado) de banana-da-terra com mandioca e papoula, além de tartar de camarão com aspic de jambu por cima e molho de quinhapira (caldo de peixe) com tucupi.

“Nós não estudamos os concorrentes para nos apresentar. Decidimos fazer o nosso melhor”, disse ela, que já trabalhou em restaurantes estrelados na Europa, como o Quique DaCosta.

Prato de tilápia de Giovanna

Prato de tilápia de Giovanna Foto: JF Diório|Estadão

Confeitaria. Na quarta-feira, 10, primeiro dia da feira Sirha, teve lugar o concurso de confeitaria com seis países concorrentes e o Brasil também se classificou para ir a Lyon em 2017.

A equipe, formada por Marcone Calazans e Abner Ivan, assistidos pelo treinador Ramiro Bertassin, apresentou, assim como os concorrentes, uma sobremesa de chocolate, uma torta de sorvete com frutas, uma escultura de açúcar e uma escultura de chocolate.

O confeiteiro francês Gabriel Paillasson com a equipe brasileira da confeitaria, que se apresentou na quarta-feira na Copa Maya (dentro do Sirha México), que é o Bocuse D’Or da confeitaria. Ao lado, da esquerda para a direita, Marcone Calazans, Abner Ivan e o treinador da dupla, Ramiro Bertassin.

O confeiteiro francês Gabriel Paillasson com a equipe brasileira da confeitaria, que se apresentou na quarta-feira na Copa Maya (dentro do Sirha México), que é o Bocuse D’Or da confeitaria. Ao lado, da esquerda para a direita, Marcone Calazans, Abner Ivan e o treinador da dupla, Ramiro Bertassin. Foto: Divulgação

O primeiro lugar ficou com a Argentina (2.100 euros), o segundo com o México (1.400 euros) e o terceiro com o Chile (700 euros). O Brasil ganhou o direito de ir para a França por meio de um prêmio especial - previsto no regulamento - dado pelo francês Gabriel Paillasson, espécie de Paul Bocuse da confeitaria, que julgou que o país merecia a vaga.

Na França, a melhor colocação que o Brasil alcançou foi 14º lugar, em 2011, com Ramiro, que já competiu lá três vezes - em 2011, a equipe dele ainda era composta por Rafael Barros e Renata Arassiro.

Nesta quinta-feira, dia em que o francês Paul Bocuse completou 90 anos, os cozinheiros participantes do Bocuse D’Or no México prestaram uma homenagem a ele, fundador do concurso. Em meio a eles, a brasileira Giovanna Grossi, Laurent Suaudeau, Enrique Olvera e Gastón Acurio.

Nesta quinta-feira, dia em que o francês Paul Bocuse completou 90 anos, os cozinheiros participantes do Bocuse D’Or no México prestaram uma homenagem a ele, fundador do concurso. Em meio a eles, a brasileira Giovanna Grossi, Laurent Suaudeau, Enrique Olvera e Gastón Acurio. Foto: Ana Paula Boni|Estadão

* A repórter viajou a convite da GL Events

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