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Neide Rigo

Calma que o dente-de-leão é manso

As flores são pequenas e vivem cercadas por abelhas

22 maio 2013 | 23:03 por Neide Rigo

Taráxaco, amargosa, chicória silvestre… Mas o melhor é chamar logo de dente-de-leão, que é como esse matinho nativo da Europa e Ásia se popularizou.

Não me lembro de tê-lo visto em feiras livres ou supermercados, mas é daquelas ervas ditas daninhas que vão tingindo com o verde de suas folhas e o amarelo de suas flores as calçadas e os jardins abandonados sem que se perceba. Isso até que a flor amadureça em forma de uma bolinha, um pompom de seda. Aí vem o vento ou uma criança que sopra por brincadeira. E, pronto, a espécie está disseminada. Perto de minha casa tem sempre. Na pressa, faço um angu, refogo umas folhinhas com bacon e nhac!

As flores do dente-de-leão são pequenas, com receptáculo comum. FOTO: Tiago Queiroz/Estadão

A família botânica do dente-de-leão agrupa outras espécies mais conhecidas – margarida, alcachofra, camomila e girassol, por exemplo. As flores são pequenas, vivem frequentadas por abelhas e podem ter uma parte mais prolongada, simulando pétalas. Ao redor de tudo, estão as folhas modificadas dando o desenho de flor.

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Os frutos também têm suas particularidades. São em forma de aquênios, ou frutos secos, finos, ínfimos, com um chumaço de pelos na ponta. Juntos eriçados sobre a base dão forma à bolinha de seda, que se desmancha ao menor sinal de instabilidade. É assim que se dispersam.

Na próxima vez que estiver andando pelas ruas de São Paulo, ou Lisboa, ou qualquer outra capital mundo afora, pare e observe que a disposição das folhas serrilhadas como dentes (de leão, claro) e verde-escuras, assentadas na mesma altura em volta de uma base, faz da verdura uma roseta basal difícil de esquecer ou confundir. E se acaso colher uma erva parecida, saiba que todas as assimiladas ao dente-de-leão são comestíveis.

Veja duas receitas que levam dente-de-leão:

+ Penne com dente-de-leão e bacon

+ Angu com refogado de dente-de-leão

Na zona rural, são encontradas facilmente, nem sempre benquistas, mas apreciadas junto com outras ervas espontâneas, principalmente nos tempos em que alfaces não eram abundantes nos mercados. Mesmo na Europa, com uso ancestral na cozinha e na farmácia, já foi mais comum. Sorte que ainda há agricultores interessados em preservar a tradição e a biodiversidade e que cultivam a erva para comercializar. Já vi na feira de orgânicos do Parque da Água Branca, em São Paulo.

Embora não sejam carnudas como as de beldroegas ou os espinafres, suas folhas são bastante consistentes quando adultas e ficam ótimas quando cortadas em fatias finas, como a couve para feijoada.

Folhas jovens são tenras e podem ir inteiras para as saladas. São amargas, não posso mentir, porém deliciosas com bacon, abacate e alho.

O nome científico, Taraxacum officinale, já indica sua utilidade: espécies nomeadas officinale têm aplicações na fitomedicina. Além de ricas em antioxidantes, vitaminas, minerais e, como qualquer verdura, clorofila, as folhas, raízes e flores são diuréticas e indicadas para problemas biliares e estomacais. Mas, para isso, é melhor procurar um médico fitoterapeuta. Nosso negócio é comida.

O que interessa aqui é saber que são gostosas como o almeirão e apetecem justamente por terem um amargo bom, graças aos princípios amargos como a taraxina. As flores em botão fazem as vezes de alcaparras, as abertas são aproveitadas em licores e geleias e a raiz, torrada, vira uma bebida semelhante ao café. Quem ainda não está acostumado à verdura deve começar com algo de fácil aceitação, como este macarrão.

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