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Neide Rigo

Castanhas decoradas e sementes energéticas: conheça o amendoim-de-árvore

Com gosto que lembra o amendoim e textura que a avelã, o amendoim-de-árvore cresce por diversas praças de São Paulo

12 abril 2017 | 21:24 por Neide Rigo

Amendoins-de-árvore estão espalhados pelas praças de São Paulo. Pelo menos no meu bairro, isso se deve a um projeto de compensação ambiental: uma construtora mandou plantar vários exemplares de Bombacopsis glabra mesmo em praças já bem arborizadas. 

O pensamento deve ser este: tem que plantar mil? Despeje logo tudo nesta praça mesmo. Mas, para não ficar apenas lamentando a monotonia das espécies e criticando a forma como é feita esta compensação, o melhor é aproveitar o que as mudas (que não morreram por falta de cuidados) têm a nos oferecer a começar pela deliciosa sombra e as energéticas sementes comestíveis que pouca gente conhece. 

 

  Foto: Neide Rigo|Estadão

As árvores da praça começaram a produzir frutos verdes que caem de maduros e se abrem no chão, espalhando as castanhas marrons desenhadas com riscos beges. Esta semente não faz parte do meu repertório de frutos da infância. Só fui experimentá-la pouco antes do plantio na praça, na casa de um primo no interior de São Paulo. Como não tinha muito assunto, passei o tempo olhando cada detalhe da cozinha, reparando em tudo, até que meus olhos tropeçaram numa assadeira cheia de bolinhas listradas e secas do tamanho de avelãs. Assunto não faltou a partir daí. As castanhas com sabor de amendoim eram para os papagaios, mas havia quem as comesse, fiquei sabendo. Lógico que comi várias, o papagaio que ficasse com as sementes de girassol. 

Ficou com água na boca?

O primo acabou me levando à sua chácara, onde a planta estava carregada de frutos. Depois disso, nunca mais perdi uma safra dessas castanhas, que vai de janeiro a abril. E o bom é que, embora a planta seja da Mata Atlântica, é rústica e se adapta a vários tipos de clima e solo. Por isso, tem sido usada na arborização urbana. Sem falar que é ornamental, de porte elegante com flores de estilo rococó. 

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Da família do baobá e da paineira (Malvaceae, antiga Bombacaceae), a Bombacopsis glabra é nativa da floresta pluvial atlântica, desde Pernambuco até o Rio de Janeiro, e também da mata inundável de várzeas do Pará e do Maranhão. Porém, hoje é pouco frequente em seu habitat natural. Em compensação, é muito usada como planta ornamental e na arborização urbana no Sudeste. Os frutos são cápsulas verdes, lisas, sem brilho, com fendas que se abrem quando amadurecem, soltando as muitas sementes. Seus nomes comuns – castanha-do-maranhão, castanha-da-praia, cacau-do-maranhão e amendoim-de-árvore – nos contam um pouco da planta e do fruto. 

Com gosto que lembra amendoim e avelã, o amendoim-de-árvore cresce por praças de São Paulo, onde é usado para compensação ambiental

Com gosto que lembra amendoim e avelã, o amendoim-de-árvore cresce por praças de São Paulo, onde é usado para compensação ambiental Foto: Neide Rigo|Estadão

Há quem encontre no sabor um toque de pistache, avelã, coco e amendoim. Eu só sinto a lembrança do amendoim – a nota agradável e marcante, mas sem aquele retrogosto forte. Já a consistência das castanhas torradas lembra avelãs. Quando frescas, são leitosas e irresistíveis, mas podem ser também torradas (no forno médio, até que as cascas fiquem quebradiças) ou cozidas. São ricas em gorduras e por isso ficam crocantes, podendo substituir amendoins ou avelãs em pratos doces ou salgados.

Fiz com elas uma paçoca – bati as castanhas torradas no liquidificador com farinha de mandioca torrada, açúcar mascavo e uma pitada de sal – e comi num piscar de olhos. 

Helton Josué Teodoro Muniz, pesquisador que cultiva frutas raras e autor do livro Colecionando Frutas (editora Arte & Ciência, 2008), ensina em seu site, colecionandofrutas.org, a fazer um substituto para achocolatados. 

Para torrar as sementes, faça um corte na casca de cada uma para evitar que estoure feito pipoca e leve ao forno por 10 ou 15 minutos, a 200ºC. Para separar as películas, aperte com os dedos e vá tirando uma a uma. Se preferir, tire a casca antes de torrar a semente. Neste caso, leve ao forno ou doure em frigideira, mexendo até dourar. Para fazer farinha, triture a semente torrada no liquidificador com a pele e passe por peneira. 

Ficou com água na boca?