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Comida

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(Dis)sabores de um chef

Por Rafael Tonon

25 junho 2014 | 20:42 por redacaopaladar

Raros são os filmes com enfoque gastronômico que conseguem retratar de fato o que se passa dentro de uma cozinha. Desde Soul Kitchen (2009) e – de forma mais fantasiosa –, Ratatouille (2007), o cinema não brindava os espectadores gulosos com um filme tão convincente quanto Chef. E isso explica o buzz de cozinheiros, mídia especializada e foodies com seus celulares sempre a postos para alimentar as redes sociais desde antes da estreia, no início de maio, nos EUA. A entrada do filme em cartaz em São Paulo está prevista para 14 agosto. Hoje, Chef será exibido na seção Banquetes de Cinema, no cine Iguatemi Alphaville, com jantar preparado por Benny Novak (custa R$ 180 por pessoa).

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Realista. Com consultoria de Roy Choi, que cuidou para que a rotina das cozinhas fosse reproduzida da maneira mais fiel possível, Chef é protagonizado por John Favreau, que também dirige o filme. FOTOS: Reprodução

Após situações que não convém contar aqui, o jantar não sai como o chef planeja e o blogueiro, insatisfeito por não ter sido atendido como desejava, volta a desferir toda a acidez de suas palavras contra as receitas de Casper. A crítica provoca um bate-boca entre chef e blogueiro que ganha repercussão nas redes sociais. A coisa chega a tal ponto que o chef se demite do restaurante e resolve empreender um novo negócio: montar um food truck.

Nada mais atual e fiel ao momento, com o peso das redes sociais, a dinâmica do sistema de classificação de restaurantes, o público que circula pelos lugares e o fato de tudo isso às vezes ganhar mais importância que o que vem no prato.

Não deixa de ser sintomático que Casper resolva retomar sua relação com a comida em cima de um furgão especializado em comida cubana “de raiz” – sabor que redescobre em uma viagem a Miami com a ex-mulher cubana. Favreau teve a ajuda de um especialista na vida real para tornar tudo isso crível: o chef de origem coreana Roy Choi, um dos incentivadores da comida sobre rodas na Califórnia, atual meca americana dos furgões gastronômicos.

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Choi virou o rei da comida de rua de Los Angeles ao inaugurar o Kogi, food truck especializado em tacos coreano-mexicanos. Da sua origem asiática, juntou as influências da imigração mexicana com a qual conviveu na adolescência e saiu às ruas incitando uma revolução alimentada por litros de gasolina. Conquistou prêmios e montou uma frota – leia abaixo sobre os novos rumos do chef.

Choi aceitou participar do filme se tudo parecesse o mais real possível: da forma de dobrar as toalhas antes do serviço à maneira que Favreau deveria limpar sua praça de trabalho (“praça” é como se chamam os setores dentro de uma cozinha profissional). A parceria de alguns meses de aulas de cozinha (que ensinaram Favreau a fritar yucca e fazer o cubano, sanduíche típico que se torna o carro-chefe de seu novo negócio, com perdão do trocadilho) rendeu dividendos: chefs e críticos disseram nos jornais que se trata de um dos mais fiéis filmes de gastronomia já feitos.

Mas, para além das telas, o que Chef retrata com veemência é um momento da gastronomia atual, principalmente norte-americana, em que o mais inventivo que se faz nas cozinhas não está necessariamente nos mais refinados salões. Cozinheiros estão se reinventando ao buscar referências na rua, reinterpretar a história das correntes migratórias de suas cidades. E ajudando, assim, a fundamentar uma gastronomia, como quer mostrar Chef, com menos afetação e mais disposta a se conectar com o público. Pelo estômago mais do que por qualquer outra coisa.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 26/6/2014

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