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Duelos y quebrantos do Homem da Mancha

Por Dias Lopes

09 janeiro 2013 | 22:00 por redacaopaladar

A tradução para o português do Don Quijote de La Mancha, lançada no final do ano pela Companhia das Letras em seu selo Penguin, tornou mais acessível a leitura da obra-prima da literatura espanhola que muitos consideram o melhor livro de ficção de todos os tempos. O gaúcho Ernani Ssó fez serviço de primeira. Promoveu esclarecedoras atualizações na linguagem, sem desrespeitar o texto original do escritor Miguel de Cervantes Saavedra (1547–1616).

Dom Quixote (grafia em português) é um cinquentão da região de La Mancha que perde o juízo por ler demais romances de cavalaria quinhentistas. Julgando-se um dos seus heróis, decide imitá-los. Empreende então uma louca expedição por La Mancha, Aragón e Cataluña, vestindo armadura anacrônica, montando um cavalo tão magro quanto ele, acompanhado pelo fiel escudeiro Sancho Pança, que o segue no lombo de um burro.

O resultado é um romance grandioso, que satiriza as narrativas cavaleirescas, ironiza os costumes da nobreza e exalta os dos pastores. Além disso, envolve aspectos da vida da época, da política à religião, do amor à gastronomia. Reflexões filosóficas sobre comida e bebida aparecem muitas vezes. “O pão de ontem, a carne de hoje e um vinho maduro asseguram saúde para todo o ano”, teoriza Dom Quixote.

FOTO: Reprodução

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No primeiro capítulo da obra se conhece o cardápio semanal de Alonso Quijano, o Dom Quixote, fidalgo da baixa nobreza de uma aldeia de La Mancha: uma panela “de algo mais vaca que carneiro”; salpicão (fiambre preparado com os restos do meio-dia) nas “más noites”; lentilhas às sextas; duelos y quebrantos aos sábados; e “um pombinho” aos domingos. Entre as cinco receitas, uma se destaca pelo nome enigmático e porque se tornou bastante difundida a partir de então.

Referimo-nos aos duelos y quebrantos, aliás o prato de consolação oferecido pelos lavradores que a 26 de setembro de 1669 hospedaram em sua casa d. Mariana da Áustria, viúva de Felipe IV e regente do trono da Espanha. A rainha consorte chorava seu luto e litígios familiares. Há um retrato dela no Museu de História da Arte de Viena em que Diego Velázquez, fiel à realidade, pintou-a feia, queixuda, com olhos pequenos e nariz de batata.

A origem dos duelos y quebrantos é controvertida. Uma das explicações diz que nos séculos 16 e 17 (Dom Quixote foi lançado em 1605) os pastores de La Mancha faziam um cozido com a carne das vacas, cavalos ou burros que morriam naturalmente, vítimas de acidentes ou abatidos por terem lesão irrecuperável. Para enriquecer o alimento, acrescentavam miolos de cordeiro, ovos, banha, chouriço, toucinho e outros pertences do porco. O nome duelo (dor, lástima) se originaria no pesar ao perdê-los; quebranto (desalento) viria do sofrimento sentido ao cozinhá-los.

Outra versão associa o nome do prato à presença dos judeus e árabes na Espanha. Quebranto aludiria à frustração dos dois povos por não saboreá-lo, já que incluía carne de porco, interditada pelas suas religiões; duelos derivaria da ressaca moral dos hebreus e muçulmanos que desrespeitavam a proibição. Atracar-se nos duelos y quebrantos, aliás, era prova de fé cristã. Em tempos de perseguição religiosa, arriscava a vida quem rejeitasse uma comida feita com um naco de porco.

A receita contemporânea dos duelos y quebrantos é preparada com o que um camponês espanhol consegue reunir em casa. Os ingredientes são miolos e rins de cordeiro, toucinho e banha de porco, ovos (dois por pessoa), azeite, cebola, salsinha e sal. Acrescenta-se às vezes chouriço e presunto. Consagrado por Dom Quixote, o prato virou emblema da cozinha da região agora denominada Castilla-La Mancha, cujos restaurantes o servem em cumbucas de barro. A clientela o traça indiferente à sua brutalidade calórica.

DOM QUIXOTE

Autor: Cervantes

Nova tradução: Ernani Ssó

Editora: Companhia das Letras

(1.328 págs., R$ 79)

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