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Comida

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Gilberto Freyre bom de garfo

O recém-lançado Gilberto Freyre e as Aventuras do Paladar, de Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti, reúne tudo que o autor de Casa Grande e Senzala escreveu sobre comida – são mais de mil citações, divididas em 20 tópicos

05 junho 2013 | 22:55 por joseorenstein

A morte emendou a gramática também para Gilberto Freyre. Pois, em 1987, morreram Gilberto Freyre. Não era um só, eram tantos: o escritor, o antropólogo, o sociólogo, o historiador, o político, o jornalista – e o glutão bom de garfo.

O recém-lançado livro Gilberto Freyre e as Aventuras do Paladar, de Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti, não deixa dúvidas de que o intelectual pernambucano, além de formar no seleto time de intérpretes do Brasil, era inveterado gourmand e gourmet, antes da banalização do termo.

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Fruto de cinco anos de pesquisa, o livro é opulento compêndio de tudo que Freyre escreveu sobre comida. É dividido em 20 tópicos, que abrigam 1.326 citações, colhidas das 86 obras publicadas pelo autor de Casa-Grande e Senzala. Com o apoio da Fundação Gilberto Freyre, que edita o livro, Maria Lecticia teve acesso a toda a produção do intelectual, incluindo discursos, conferências em universidades, prefácios de livros. “No início era para ser um dicionário. Mas à medida que fui mergulhando na obra dele achei que merecia algo mais”, diz.

Pelo mundo. O piquenique com a mulher, Magdalena, e o filho Fernando na Alemanha (acima) e a visita ao mercado em Portugal revelam que a comida era constante nas andanças de Freyre. FOTOS: Fundação Gilberto Freyre

De fato, o livro traz todas as referências que Freyre fez aos alimentos, costuradas pela prosa sucinta de Maria Lecticia. Funciona, assim, como farto material de consulta – no final de cada capítulo, as citações são transcritas na íntegra, com a indicação da obra de que foi retirada. De quebra, traz rica coleção de fotos das viagens e jantares do intelectual.

Ao fim do banquete de citações, aparecem pelo menos quatro Freyres. Primeiro, o bon vivant da boa mesa, a qual partilhou com figuras que vão de Manuel Bandeira, José Lins do Rego e Miguel Arraes a Chacrinha. Depois, o Freyre cultor da metáfora gastronômica, que, por exemplo, via a decadente aristocracia “no chão esparramada como jaca mole, podre de madura”. Aparece ainda o Freyre erudito, etnógrafo e historiador, descrevendo alimentos à la Câmara Cascudo. E, por fim, vislumbra-se um intrépido pesquisador, que observava a comida e os hábitos alimentares como fonte tão importante para a definição da identidade nacional quanto documentos oficiais.

Por ter se aproximado dos militares à época da ditadura, Freyre foi relegado ao segundo plano do debate das ciências sociais por um bom tempo. Mas com a relativamente recente recuperação de sua obra, recuperam-se e descobrem-se as inovações que propôs. Gilberto Freyre e as Aventuras do Paladar joga luz sobre uma das menos desenvolvidas de suas novas abordagens – a de entrever na comida uma forma da cultura.

Anfitrião. O escritor tinha talento para receber. À direita, utensílios de sua casa em Apipucos, no Recife

Se na arte, na literatura, na música – que também foram objeto das pesquisas de Freyre – as formas do modernismo tratam de pôr no centro da discussão a busca por uma voz original brasileira há tempos, na gastronomia é apenas recente a valorização do ingrediente nacional, a combinação da técnica estrangeira com a tradição culinária local. Revisitar Gilberto Freyre, compartilhar de sua bem servida mesa, pode ajudar a gastronomia nacional a dar o devido valor e compreender, afinal, a cozinha do Brasil.

MENU DE CITAÇÕES

Tudo dá. “É paradoxal que… sejamos, no sistema da alimentação brasileira, antes consumidores que produtores. Em pura região tropical, doce e fácil para a cultura de cerais e de frutas, importamos o que os indígenas produziam.” (Tempo de Aprendiz, vol. II, pág. 144)

Doce herança. “A origem dos doces mais verdadeiramente brasileiros é patriarcal e seu preparo foi sempre um dos rituais mais sérios da antiga vida de família das casas-grandes e dos sobrados.” (Açúcar, pág. 58)

Identidade. “A arte da cozinha é a mais brasileira de nossas artes. A mais expressiva do nosso caráter e a mais impregnada do nosso passado.” (Região e Tradição, pág. 205)

Gilberto Freyre e as Aventuras do Paladar, (427 págs., R$ 80)

Autor: Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti

Editora: Fundação Gilberto Freyre

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