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Mel de floradas urbanas

Projeto instala colmeias em Melbourne, na Austrália, e produz até 50 kg de mel por ano. A produção é identificada por bairro, para que se possa conferir as diferenças de ‘terroir’, e usada em restaurantes, como o renomado Attica

04 fevereiro 2015 | 19:24 por Míriam Castro

de Melbourne, Austrália

“O frio as deixou atarantadas, é melhor que hoje elas não saiam”, diz Vanessa Kwiatkowski. As abelhas urbanas de Melbourne não gostaram da virada do tempo. A temperatura de mais de 30°C do dia anterior tinha caído à metade na cidade do sul da Austrália.

Uma ou outra operária saía para uma volta rápida, mas todas as outras aproveitavam o frio para descansar numa das colmeias – 16 caixas de madeira dispostas em nove pilhas no topo de um dos prédios da Federation Square, praça principal da cidade. Além de galerias de arte, restaurantes e centros de recepção de turistas, a praça é uma das mais de 40 sedes da Rooftop Honey, organização que preserva as abelhas e faz mel urbano.

Mel de Melbourne. Prédios dão telhados e patrocínio. FOTOS: Fernando Sciarra/Estadão

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Vanessa e o marido, Mat Lumalasi, começaram a criar abelhas como hobby em 2010. Tinham apenas seis colmeias. Ficaram apaixonados pelos insetos e transformaram o passatempo em ativismo. “É uma maneira de criar consciência, já que as abelhas aos poucos estão desaparecendo do planeta”, diz Vanessa.

Nos últimos anos eles fecharam parcerias com prédios públicos e privados de Melbourne, que cedem seus telhados e patrocinam as colmeias. O dinheiro vai para a compra de caixas especiais, roupas de segurança e sistemas de irrigação. Quem patrocina tem a honra de batizar a abelha-rainha e fica com até 20% do mel feito na colmeia.

Na primavera, época de maior produção, as colmeias recebem visitas a cada dez dias. O esforço dá resultado: entre 30 e 50 kg de mel por ano nas 70 colmeias do projeto somadas. Os méis são etiquetados com o bairro em que foram produzidos, já que o sabor varia conforme as flores da região. Além de potes comuns, o site vende porções menores para quem quiser provar as diferenças de “terroir”. Na Federation Square, as abelhas têm acesso a flores de oliveira e lavanda.

Kit doçura. Sacolinhas do Rooftop Honey vêm com mel e folhetos; abaixo, amostra do mel da Federation Square

Os maiores apoiadores do projeto são os restaurantes de Melbourne, que revendem o mel e o utilizam na cozinha. Um deles é o Attica, do chef Ben Shewry, único australiano no 50 Best atualmente. Os favos chegaram a fazer parte do menu da casa.

As colmeias são de abelhas europeias – mais dóceis e menos produtivas que as africanas. Das espécies nativas, a do Estado de Victoria, onde fica Melbourne, é solitária e não faz mel. Mas a Rooftop Honey tem esperança de ver colmeias com abelhas nativas em outras regiões – o projeto já está em Brisbane, Sydney, Adelaide e Perth.

No mundo

Reino Unido

O Palácio de Buckingham tem colmeias próprias de onde sai o mel que a rainha consome

França

Em Ribeauville, o mel ficou verde porque as abelhas foram atraídas por uma fábrica de doces

Japão

O Ginza Honey Bee Project cuida de colmeias nos terraços de Ginza, o bairro mais luxuoso de Tóquio

Brasil

Preservar espécies nativas é o objetivo da SOS Abelhas sem Ferrão, que resgata enxames de iraí, jataí e outros tipos em São Paulo

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 5/2/2015

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