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No Havaí, a raspadinha é muito mais do que pedacinhos de gelo picado

O gelo tem um papel importante na história da colonização da ilha. Raspado e coberto de xarope de frutas, vira um ícone regional, apreciado por turistas, por todas as crianças da região e até por Barack Obama

13 fevereiro 2017 | 19:20 por Kim Severson

The New York Times

De Kailua, Havaí

Apenas um acadêmico pode tirar a alegria de um copo de lascas de gelo embebidas em xarope de frutas.

A raspadinha é a marca doce das férias no Havaí e a companheira constante da infância na ilha. Com certeza foi assim para Hi’ilei Julia Hobart, de 34 anos, que nasceu e cresceu em Kailua, cidade na costa oriental de Oahu, a meia hora de carro de Honolulu.

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Uma boa raspadinha é feita de flocos macios que se assemelhem à neve fresca e possam absorver quantidades generosas de calda.

Uma boa raspadinha é feita de flocos macios que se assemelhem à neve fresca e possam absorver quantidades generosas de calda. Foto: Kent Nishimura|NYT

Hi’ilei deixou o Havaí e se tornou acadêmica. Ela é uma dos nove estudantes que conseguiram o diploma de doutorado em Estudos Alimentares da Universidade de Nova York desde que a escola iniciou o programa há 20 anos. As dissertações exploraram a importância histórica e cultural de coisas como o Bourbon, a água engarrafada e a masculinidade na culinária. Para Hi’ilei, o foco foi o gelo no Havaí.

Sua missão começou com um simples desejo de entender melhor a história de seu estado de origem. Mas, à medida que pesquisava os antigos acordos comerciais entre os Estados Unidos e o que era o território independente do Havaí, ela percebeu muitas referências ao gelo.

“Eu nem poderia imaginar o que teria levado os Estados Unidos a proteger uma commodity como o gelo”, conta Hi’ilei. Sua tese mostrou que o gelo foi o elemento essencial na colonização do Havaí, pois significava status e oferecia conforto aos colonos que preferiam bebidas geladas e sorvetes aos alimentos ácidos e tépidos que há muito tempo sustentavam a população nativa.

O Matsumoto’s Shave Ice, aberto em 1950, tornou-se tão popular que a fila de espera pode demorar mais de meia hora.

O Matsumoto’s Shave Ice, aberto em 1950, tornou-se tão popular que a fila de espera pode demorar mais de meia hora. Foto: Kent Nishimura|NYT

A raspadinha é apenas uma nota. Chegou ao Havaí junto com os trabalhadores das plantações de cana vindos de Okinawa e outras partes do Japão, onde comer kakigori – o termo japonês para raspadinha – remonta às famílias reais do período Heian.

No começo dos anos 1900, os imigrantes japoneses abriram pequenas lojas para servir os trabalhadores das lavouras e algumas delas ofereciam raspadinhas. Nos anos 1950, elas eram vendidas regularmente nas várias lojas familiares de japoneses como o M. Matsumoto Grocery Store na costa norte de Oahu. Agora funcionando com o nome de Matsumoto’s Shave Ice, o local se tornou tão popular que a fila de espera pode demorar mais de meia hora.

Durante seus anos de mandato, Barack Obama costumava vir ao Havaí passar as férias de inverno. Imagens do ex-presidente comendo a icônica iguaria apareciam regularmente na cobertura da imprensa. Obama frequentava a Island Snow, que é mais uma loja que vende Ray-Bans e calções de US$55 do que um palácio da arte das raspadinhas. A máquina de raspar gelo elétrica e as dezenas de garrafas de xarope brilhante ficam nos fundos da loja, junto a uma pasta que contém a lista de pedidos de Obama. Ele gosta dos xaropes de melão, cereja e limão.

Xaropes com nomes como "sangue de tigre", uma mistur de morango, melancia e um pouco de coco, são populares entre os fãs.

Xaropes com nomes como "sangue de tigre", uma mistur de morango, melancia e um pouco de coco, são populares entre os fãs. Foto: Kent Nishimura|NYT

A loja também oferece o Snowbama, uma raspadinha colorida que parece um arco-íris em homenagem ao trabalho do ex-presidente em favor dos direitos dos homossexuais.

Hi’ilei passou a infância frequentando a Island Snow. Era mais uma questão de geografia do que de qualidade. “Você frequenta a loja mais próxima possível do local aonde vai à praia”, explica ela.

Hi’ilei gosta da raspadinha sozinha, sem a bola de sorvete escondida sob a cúpula de gelo em pó, que alguns preferem. Ela também deixa de lado os feijões azuki vermelhos doces e o leite condensado, chamado de camada de neve, que as pessoas gostam de jogar por cima do gelo.

Durante suas férias no Havaí, Barack Obama, na foto com sua foto Malia, não perdia a chance de comer raspadinha.

Durante suas férias no Havaí, Barack Obama, na foto com sua foto Malia, não perdia a chance de comer raspadinha. Foto: Hugh Gentry|Reuters

Quando pode, escolhe a raspadinha de goiaba ou talvez a de lichia de uma loja administrada por Steven Parker, um amigo de infância. Em 2013, ele abriu a Kailua General Store, que fica a cinco minutos de carro da Island Snow. Ele viveu a vida toda ali e gosta de contar piadas sobre as raspadinhas de Obama. Parker oferece os xaropes coloridos que os clientes antigos e as crianças gostam, mas prefere os que faz para si mesmo com os limões, maracujás e gengibres que um amigo planta por diversão.

Uma boa raspadinha, diz Parker, começa com uma máquina com uma lâmina afiada e um bloco de gelo que foi temperado no balcão ou na geladeira para que fique brilhante depois de ter derretido um pouco. O objetivo é criar flocos macios que se assemelhem à neve fresca e possam absorver quantidades generosas de calda. Pedaços de gelo picado, que compõem as raspadinhas de várias feiras americanas, são tão duros que o xarope escorre todo para o fundo do copo.

Um raspador habilidoso precisa ter a paciência de um bom barista, afirma Parker, pegando o gelo na hora que sai da lâmina e moldando-o de maneira gentil na forma de uma cúpula, suficientemente firme para segurar o xarope, mas macia para poder ser pega com uma colher. “Você precisa convencer o gelo a ficar unido”, explica ele.

Steven Parker na Kailua General Store. Ele diz que uma boa máquina de raspadinha tem a lâmina bem afiada e que um raspador habilidoso precisa ter a paciência de um bom barista.

Steven Parker na Kailua General Store. Ele diz que uma boa máquina de raspadinha tem a lâmina bem afiada e que um raspador habilidoso precisa ter a paciência de um bom barista. Foto: Kent Nishimura|NYT

Apesar das raspadinhas nas atrações turísticas caras e da nova onda de lojas de artesãos do gelo raspado terem feito os preços subirem, o maior tamanho de Parker custa apenas US$ 3. “Tudo é tão barato que não me sinto bem cobrando mais”, diz ele.

Já para Hi’ilei, seu trabalho acadêmico a colocou em um relacionamento conflituoso com as raspadinhas. “Por um lado, olho para elas e vejo a economia turística e a militarização do Havaí. Mas por outro, fui uma criança do Havaí que saía da praia para comer minha raspadinha, uma coisa linda e deliciosa.”

Raspadinha com os sabores morango, baunilha e banana.

Raspadinha com os sabores morango, baunilha e banana. Foto: Kent Nishimura|NYT

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