Paladar

Comida

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O campeão do arremesso de alho

 

28 junho 2012 | 08:00 por joseorenstein

Por Dias Lopes

A maioria dos atletas que vão à Olimpíada de 2012, em Londres, gostaria de alcançar o sucesso do nadador Michael Phelps, dos EUA, que já conquistou 16 medalhas na mais importante competição esportiva do mundo. Mas não passa pela cabeça de nenhum atleta contemporâneo igualar Nero, imperador romano de 54 a 68 d.C. Aquele mesmo que mandou matar a mãe e, segundo o historiador latino Tácito (55–120 d.C.), tocava lira e entoava um hino enquanto Roma era destruída pelas chamas do incêndio ateado por sua ordem.

 

Ficou com água na boca?

Nero conquistou 1.808 coroas de oliveira nas Olimpíadas de 67 d. C., da Grécia. Impossível superá-lo, até porque ele não as ganhou honestamente. Obrigou concorrentes a desistirem e ameaçou ou subornou juízes. As coroas de oliveira equivaliam às medalhas atuais. Na corrida de bigas, Nero nem chegou ao final. Foi derrubado do carro, em uma curva, pelos dois cavalos que o puxavam. Apesar disso, venceu. Nero também ganhou a quadriga, a luta grega, o pugilato, o pancrácio (combinação de luta e pugilato), o pentatlo (antigamente incluía o lançamento de disco e dardo, salto em comprimento, corrida de estádio e luta), etc.

 

Ele talvez só conquistasse honestamente uma coroa em uma olimpíada gastronômica, mesmo assim em uma só categoria: alho. O biógrafo romano Suetônio (70–126 d. C.) descreveu Nero como um homem de estatura média, olhos azulados, cabelos louros, pescoço grosso, barriga grande e pernas finas. “Não se vestia bem e aparecia em público com roupas íntimas, lenço no pescoço, sem cinto e descalço”, disse. Entretanto, o que mais incomodava as pessoas era o cheiro da alho que ele exalava, porque em certos dias do mês comia seus bulbos sem parar. Às vezes eram o único alimento da refeição. Gostava de alho só com azeite, pois acreditava que melhorava sua voz. Afinal, considerava-se o melhor cantor de Roma.

 

Quando a dieta de alho o aborrecia, ia à forra. Seu desjejum tinha pães e carnes. Ao meio dia, preferia frutas, legumes, ovos e peixes. A ceia era a principal refeição e acontecia entre três e quatro da tarde. Iniciava-se com um antepasto à base de ovo, alface e ostras. A seguir, vinham três ou quatro carnes. Acompanhavam vários molhos, sobretudo os de alho, que não podia faltar, e o garum (peixe gordo fermentado, temperado com ervas e sal, eventualmente acrescido de vinho ou água do mar).

 

Antes, durante ou depois da refeição, comia frutas, doces e queijos defumados ou não. Além disso, adorava sorbet de frutas e mel, feito com gelo das montanhas. Não faz muito tempo, arqueólogos descobriram em Roma as ruínas do salão giratório de banquetes do seu monumental palácio, a Domus Aurea: era movimentado por um mecanismo sob o chão, talvez impulsionado por uma corrente de água.

 

Mas durou pouco a glória olímpica do imperador desvairado. Um ano após voltar da Grécia com as 1.808 coroas de oliveira, o Senado romano declarou-o inimigo público. Temendo ser aprisionado, fugiu de Roma através da Via Salaria e se preparou para o suicídio com a ajuda do secretário Epafrodito, que o apunhalou quando um soldado romano se aproximava. Segundo o historiador romano Dião Cássio (155–229 d.C.), as últimas palavras de Nero mostram que ele continuava a se considerar genial: “Que artista desaparece comigo!”

Ficou com água na boca?