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Comida

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Onde os porcos grunhem felizes

Em um terreno cravado no Parque Estadual da Serra do Mar, eles crescem livres e comem bem

24 maio 2012 | 16:44 por oliviafraga

Trabalheira danada, a de chegar à fazenda Alfheim, onde porcos das raças sorocaba e monteiro se esbaldam ao sol que recorta a Serra do Mar em luz e sombra. Não fosse ele – o sol –, a chance de alcançar nosso bem-aventurado porco orgânico seria nula: a estrada de terra que sai da Rodovia Oswaldo Cruz serpenteia com violência às margens de um riachinho, no caminho em direção a Vargem Grande. Se chovesse, era a conta. Passaríamos sem porco orgânico, encalhados feito porco na lama.

(De estimação. Hesketh (de camiseta azul) e empregados da fazenda passeiam com dois dos porquinhos criados sem estresse. Arquivo pessoal)

 

Ficou com água na boca?

Mas não passamos. Em Vargem Grande todo mundo já sabia da visita da reportagem, o que facilitou a vida. Diziam, “sabe aquela igrejinha ali? A fazenda do alemão é passando a igreja, bem para a frente”. Lá fomos – a reportagem e o chef Jefferson Rueda –, cinco quilômetros adiante, em busca do mourão laranja que era nossa senha.

O “alemão” dono da fazenda é, na verdade, canadense. Mora no Brasil desde 2008, mas já havia passado alguns anos em São Paulo entre 1998 e 2005. De bermuda e camiseta, o consultor Rance Hesketh, de 49 anos, cria galinhas caipiras, vacas leiteiras Jersey e os porcos, cujos reprodutores foi buscar em Mato Grosso, “onde ninguém está muito interessado em criá-los soltos”. Sempre teve o sonho de ser dono de uma fazenda e interesse em coisas saudáveis, de modo que sempre comprou produtos orgânicos. “A compra da fazenda foi a conclusão lógica desses interesses.”

As raças que cria são robustas (sorocaba e monteiro), nunca ficam doentes, segundo Hesketh, que nos acompanha ao galpão-maternidade montado na subida do morro. Cinco fêmeas amamentam filhotes, abastecidas com água da mina.

Os porcos grunhem felizes, as galinhas ciscam tranquilas e as vacas passeiam pela montanha. Antes de receber os animais, entretanto, Hesketh esperou três anos até conseguir efetivamente comprar a fazenda, no meio do Parque Estadual da Serra do Mar, e obter a licença para produzir ali. Boa parte do terreno montanhoso está protegida e intacta. Próximo dos riachos e do vale, cerca de 150 porcos vagueiam e se divertem, entre matrizes e filhotes em fase de engorda.

“Só dá certo porque minha fonte de renda não é essa. O sistema é caro e a certificação também”, afirma o produtor, que conseguiu o selo do IBD (uma das empresas certificadoras de produtos orgânicos) em 2009, mas ainda não o renovou – é preciso renová-lo anualmente. “Não renovei ainda porque achei o processo malfeito, desorganizado, burocrático e caro”, explica o consultor, depois de contar que, em uma das visitas de inspeção para obter o IBD, o certificador cismou que ele deveria se livrar dos três cachorros. Motivo: eles estressam as vacas. “Procurei em todas as diretrizes de produção orgânica no mundo e não vi nada relacionado a cachorros. Depois descobri que a regra não procede. O técnico que me visitou é que tinha medo de cachorros.”

Além de serem criados soltos e sem uso de antibióticos, os porcos da fazenda são alimentados com produtos de origem orgânica atestada. Hesketh resolveu o problema da comida plantando cana-de-açúcar e mandioca na propriedade, fazendo da criação de porcos uma espécie de produção biodinâmica, com rotação de terrenos. Milho orgânico que vem do Paraná corresponde a 20% da base alimentar dos animais, que nos últimos dias de vida ainda bebem leite gordo das vacas jersey criadas ali.

Por semana, dois ou três porcos com idades de 3 a 6 meses são vendidos para abate. O peso é bem inferior ao que se vê na indústria de alimentos: de 20 a 30 kg de carne, no final da desossa (o animal chega a 70 kg, no máximo). Ainda assim, o atestado venceu e Hesketh tem tido problemas para conviver com as condições da Anvisa.

Isso porque, como outros pequenos produtores, ele não pode abater os porcos na propriedade, o que o desanima a continuar a produção. Foi exatamente o que inviabilizou a criação de meia dúzia de outros produtores de porco orgânico no País. O abatedouro mais próximo fica a 35 quilômetros, já perto de Ubatuba, e o preço no abate, pago por quilo, é de apenas R$ 1,50.

“Que adianta ter a certificação se preciso submeter o animal ao estresse do transporte? E depois o porco valer tão pouco? Isso anula todo o esforço da criação. Para ter o estatuto de orgânico, a gente precisa proporcionar um abate menos traumático aos animais”, explica Hesketh. “Prefiro não pensar em como essa carne é mantida no frigorífico. É a mesma lógica de um hospital, e o perigo de contaminação é ainda maior.”

O porco da degustação, com carne vermelha, tinha sido abatido na própria fazenda no dia anterior e embalado a vácuo. Limpo e fresco, como deve ser, chegou a nós sem intermediários comerciais, passagens por abatedouro ou frigorífico.

Ficou com água na boca?