Paladar

Comida

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Os donos do 'by appointment'

Por Roberto Almeida

31 maio 2012 | 08:00 por heloisalupinacci

ESPECIAL PARA O ESTADO EM LONDRES

“Eu não sei o que a rainha come no café da manhã, nem me pergunte.” Humor britânico na ponta da língua, Richard Peck, o secretário do Royal Warrant Holders, o grupo dos detentores do selo real, recebeu o Paladar para uma entrevista no escritório vitoriano no número 1 da Rua Buckingham Place, a menos de cem metros do palácio real, no centro de Londres.

Dali, numa sala com paredes decoradas por retratos de Elizabeth II com um cachorrinho “oficial”, um welsh corgi pembroke, e um retrato a lápis da rainha Vitória, ele coordena o sistema de concessão do selo real a produtos e serviços. O processo é anual e dura seis meses, período em que os itens são avaliados por um comitê. Neste ano, até agora, há 30 interessados. Só podem se candidatar aqueles que já fornecem ao palácio por um período de cinco anos. A entidade concede três selos, o da rainha Elizabeth II, do duque de Edimburgo e do príncipe de Gales. Com o brasão na embalagem o produto ganha reconhecimento especialmente no exterior – e perde em alguns nichos, já que o selo navega na onda da popularidade da monarquia britânica.

O que é preciso para conquistar a realeza?

Ficou com água na boca?

É muito por propaganda boca a boca. Alguém recomenda, ou o palácio procura um novo produto – a busca ocorre por diferentes métodos, até internet.

Quem seleciona os produtos?

No palácio há um comprador para cada seção, mas a seleção é feita em grupo. Por exemplo, o chef e o diretor de alimentos escolhem o que vai para a cozinha. E todos se reportam ao vice-diretor de cerimonial.

Há muitas exigências?

Sim. No caso da comida, por exemplo, além de qualidade a empresa tem de ser ambientalmente correta. A realeza gosta disso. Quem baixa a qualidade ou perde prazo, perde o selo.

Qual a porcentagem de produtos britânicos na lista?

Diria que 95% são britânicos, mas o palácio é bastante aberto a produtos estrangeiros, como Tabasco, Angostura Bitters e casas de Champagne…

O selo garante que um produto é ‘o’ melhor?

O palácio compra o que há de melhor, mas é preciso ter cuidado com essa terminologia. Os selos não são concedidos aos melhores produtos e sim aos que a realeza prefere.

Onde o selo tem impacto?

Em países que já tiveram ou têm monarquia. Para o Extremo Oriente, como China, Japão, Taiwan, Coreia do Sul e Cingapura, receber o selo é privilégio. Mas os Estados Unidos também amam a família real.

O selo pesa no Reino Unido?

Nem tanto. Às vezes os britânicos tratam o selo como um privilégio que torna os produtos mais caros, e os produtos como elitistas. Mas na verdade há diversos itens do dia a dia, como chocolate Cadbury, produtos Heinz, margarina Stork …

Porque alguns desistem, caso do chocolate After Eight?

Algumas empresas consideram que não é interessante usar o selo em determinados nichos. Por exemplo, entre jovens de 16 a 24 anos, ele não é bem-visto.

A Harrods também desistiu do selo depois da morte de Diana.

Na época, Mohammed al-Fayed, que era dono da Harrods e cujo filho morreu no acidente com a princesa, quis sair.

É comum perder o selo real?

Sim, acontece bastante. As empresas perdem porque fecham, ou seus produtos deixam de ser usados ou porque não convêm mais, como os cigarros Benson & Hedges, que tinham o selo da rainha Elizabeth II.

Qual o perfil dos fornecedores de alimentos?

Amplo. Da Procter & Gamble às salsichas artesanais Musk e camarões Baxters.

Ficou com água na boca?