Paladar

Comida

Comida

‘Queria injuriar papai, era servir só um prato’

Paloma Amado, filha de Jorge Amado, na exposição sobre o pai no Museu da Língua Portuguesa (Foto: Juan Guerra/AE)

09 agosto 2012 | 08:00 por danielmarques

Paloma Amado, filha de Jorge Amado, escreveu dois livros sobre as comidas na literatura de seu pai. No primeiro deles,  A comida Baiana de Jorge Amado ou o Livro de Cozinha de Pedro Archanjo com as Merendas de Dona Flor (1994), lista, com receitas, as comidas que aparecem nos livros de Jorge. No segundo, As Frutas de Jorge Amado ou os Livros de Delícias de Fadul Abdala (1997), vai atrás das frutas que estão nos romances e daquelas que seu pai gostava de comer. Nesta entrevista, ela conta qual era a relação de seu pai com a cozinha e com comidas.

Qual o papel da comida na literatura de seu pai?

Papai dizia e eu acho que ele tinha toda razão, que os personagens têm que ser vivos, tem que ser de carne e osso. E quem é vivo come, se alimenta. Além de se alimentar tem prazer em comer e beber. E isso como era um prazer uito grande para ele , então ele também dava esse prazer aos personagens. Os personagens que comem com alegria, porque comer faz parte da vida deles, mas muitas vezes eles não comem – o que também faz parte da vida e tem a ver também com o comer. A comida é um elemento importantíssimo na obra de papai. Tanto para mostrar a vida alegre e prazerosa como formar o caráter da pessoa. Uma maneira de comer: sensual, delicada, abrutalhada do pessoal que é pobre e que não tem o que comer, do sertão, que sofre…enfim. Comida é um elemento para a vida de maior qualidade.

Qual era a relação de seu pai com a cozinha?

Ficou com água na boca?

Ele aproveitava o que saia dela e comia (risos) e dizia que era “incapaz de fazer mesmo que seja um ovo cozido”. Ora, não saber fazer um ovo frito, tudo bem; mas não saber fazer um ovo cozido? Mas ele gostava muito de comer e entendia que a qualidade do produto fazia uma comida melhor. Então ele dizia: “Vem comer aqui em casa que eu vou fazer um coq au vin”. E tudo que ele fazia nesse prato era entregar a garrafa de vinho pra cozinheira, mas ele entregava um bom vinho! E no fim dizia: “Se não fosse eu, não seria assim tão bom”.

O que ele gostava de comer quando estava fora de Salvador?

Ele sempre levava uma farinha com ele e dizia: “Tudo é possível, mas não ficar sem farinha”. Quando estavam no exílio, o passadio era muito duro. Era pós-guerra e eles estavam sem dinheiro – e mesmo que tivesse dinheiro não teriam o que comprar. Tudo era sempre pouco e sem muita escolha. Mas a mamãe era muito boa cozinheira e o que ela fazia, papai gostava.

Uma vez chegou um saco de marinheiro, que vovô tinha mandado do Brasil pra eles, em Praga. Tinha farinha, feijão, carne-seca, linguiça e cigarro. Tudo embrulhado em papel. Só que o pacote levou três meses para chegar e o papel molhou com a umidade do navio. Quando eles abriram o saco, os papéis estavam desfeitos e tudo misturado. Papai ficou desesperado. Mas mamãe era muito prática e nada era um problema para ela. Então, eles puseram vários lençóis no chão, despejaram tudo e passaram dias separando feijão para cá, farinha para lá, fumo para cá. E tiravam os pedaços de carne para guardar. Papai contava que refez centenas de cigarros – certamente um cigarro com gosto de carne-seca, mas que ele achou uma maravilha. E mamãe pegou tudo e fez uma feijoada. Foi uma feijoada na medida do possível, mas uma feijoada. Com carne-seca, linguiça e farofa.

Como eram as refeições na casa de vocês?

As domingueiras, como a gente chamava, eram animadíssimas. Uma coisa era principal: “Comida só de muito”, papai dizia. Muita quantidade, muita variedade e muita qualidade. Queria deixar papai injuriado na vida, era convidá-lo para um jantar e só colocar uma lasanha na mesa. Porque para ele, jantar não podia ser um prato, tinha de ser muitos. Ele gostava de fartura e não se importava muito que fosse saudável ou que tivesse colesterol. A preocupação era com o gosto.

E ele adorava frutas…

Sim, ele tinha paixão por frutas. Quando viajava, sempre se preocupava em descobrir novas frutas. Para ele era essencial. Para onde quer que viajasse e parasse o carro, ele ia atrás de um lugar que vendesse fruta, provando o gosto que tinha. Para ele a coisa do gosto era muito importante. Ele gostava de comer, não só frutas, e também gostava muito de alimentar os outros. O que eu acho que é uma coisa muito baiana e de pai.

Quem cozinhava na casa em Salvador?

Mamãe cozinhava quando eles estavam em Paris, tanto depois de mais velhos, quanto quando estavam exilados. Na casa, tinha cozinheira, que por muitos anos foi a Dona Agripina, depois a Dona Luizia. Mas quando papai queria dar uma festa, ele chamava a Dona Maria, que tinha sido cozinheira de amigos de papai e depois passou a cozinhar nas casas das pessoas – e tinha um uma mão e tempero como ninguém. Muitas vezes, já no fim da vida de papai, ela ia duas ou três vez por semana em casa cozinhar para ele. E Dadá, do Tempero da Dadá, também cozinhou muito para ele nesse período. Ele estava cheio de restrições e a Dadá dizia “coitado dele, gosta tanto de comer e não vai comer mais nada?!”. Então ela inventou alguns pratos para o papai. Entre eles um cozido de frango, que ela temperava divinamente a ponto de ele não sentir falta das carnes secas e do sal. Muitas vezes na semana chegavam lá em casa as ‘novidades da Dadá’ e papai ficava em uma alegria que não se pode imaginar.

Para seu pai, comida era essencialmente prazer ou cultura?

Papai gostava de repertir uma frase da cunhada de meu irmão João: “comida alegria da vida”. Claro que era cultural, mas era sobretudo um prazer. Mas gostava também dos aspectos culturais. Onde ele ia, queria entender como o povo comia.

 

Ficou com água na boca?