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Neide Rigo

Batata-doce roxa: safra de calçadas paulistas

35 kg de batata-doce roxa foram colhidos há pouco tempo numa calçada do City Lapa; batata rara, é filhote de uma primeira comprada na feira de orgânicos do Parque da Água Branca

06 abril 2016 | 17:46 por Neide Rigo

Depois de uma reforma da subprefeitura no pequeno espaço ocupado pela horta comunitária City Lapa, cuidada por um grupo de vizinhos da minha rua no qual me incluo, ganhamos uma calçada e uma estreita faixa de terra entre ela e o meio-fio, seguindo o modelo de calçadas verdes proposto pelo paisagismo original do bairro, hoje tombado. Isso aconteceu no final do outono passado, quando ainda havia alguma chuva, e resolvemos plantar uma espécie que logo cobrisse a terra. 

Mudando o cenário, em casa algumas batatas-doces no copo com água lançavam suas ramas. Não eram batatas comuns, mas as roxas compradas na feira de orgânicos do Parque da Água Branca. São batatas raras, não achadas em supermercados. Bem, as ramas estavam grandes, precisando ir para a terra. 

E foram essas ramas que plantamos na calçada. O fato é que, sem afofar o solo nem acrescentar adubo, fizemos uns anéis com os galhos e enterramos, deixando algumas folhas para fora. Em poucos dias os ramos estavam vistosos. Fomos podando e fazendo mais mudas, de modo que um mês depois não se via mais o vermelho da terra despida. O inverno chegou, a seca castigou a maioria das plantas, mas a batata resistiu majestosa. E a cada mutirão tínhamos de podá-la para não invadir a passagem.

Batata-doce roxa colhida em calçada do City Lapa, em São Paulo

Batata-doce roxa colhida em calçada do City Lapa, em São Paulo Foto: Neide Rigo|Estadão

Não sei se pela poda constante ou se porque era a ordem natural das coisas, mas quando decidimos renovar o canteiro há poucos dias levamos um susto com o tamanho das batatas que surgiram à medida em que íamos tirando o tapete de ramagem. A média foi de 1 kg para mais, chegando a 2 kg cada batata. Foram 35 kg no total. 

Sob o efeito inebriante da colheita, fiquei imaginando todas as calçadas de São Paulo com seus gramados substituídos por batatas por baixo, abóboras por cima, ainda mais num momento de precipitações pluviométricas instáveis e incertas no campo e toda sorte de suscetibilidades vividas pelos agricultores – como os javalis que chegam destruindo tudo. 

Muita gente está desistindo de plantar culturas como mandioca, batata-doce, milho e abóbora por causa das constantes perdas para os javalis, que, mesmo quando não comem tudo, cavoucam e mordem as batatas. 

Só para não dizer que não falei da espécie, a planta da batata-doce (Ipomoea batatas L), que pode ser branca, amarelada, laranja ou roxa, pertence à família das convolvuláceas e não guarda parentesco com as batatas da família das solanáceas. Originária da América do Sul e da América Central, é cultivo dos mais antigos – resíduos desta espécie foram encontrados no Peru, datados de mais de dez mil anos. 

Cada batata pesava em média 1kg, chegando a 2 kg em alguns casos

Cada batata pesava em média 1kg, chegando a 2 kg em alguns casos Foto: Neide Rigo|Estadão

Ela já foi considerada comida de pobre, cultivada apenas por pequenos agricultores e tida como alimento pesado. É que há em sua composição um inibidor de digestão que atrapalha o trabalho das enzimas digestivas, retardando o fluxo, induzindo à fermentação e à formação de gases. Mas é só não exagerar que nada disso acontece. 

Como compensação para toda a injustiça sofrida, hoje a batata-doce roxa é querida dos atletas ou de quem quer ganhar massa muscular de forma saudável, pois além de ser energética, rica em vitaminas e minerais também evita a formação de pico de insulina. 

Talvez seu cultivo tenha sido deixado de lado por não ser tão doce quanto as batatas-doces brancas nem tão fácil de lidar como a batata branca – é que o pigmento escapa para o caldo, tinge todos os outros ingredientes e ainda pode reagir com meio alcalino e tornar o prato esverdeado. Agora, é tão bem quista que quem seguiu plantando não consegue atender à demanda do varejo. 

Ela é ótima para preparos de textura homogênea como doces em pasta, cremes, sorvetes, mingaus, pães e massas, desde que não leve bicarbonato. Quanto mais ácidos os outros componentes da receita, mais atrativa será a cor. A coloração avermelhada dela quando crua vira um lindo púrpura depois de cozida lentamente – a mudança se dá pela presença de antocianina, o mesmo pigmento das amoras e jabuticabas, potente antioxidante que previne doenças. 

Creme de batata-doce roxa com mel de engenho e licuri

Creme de batata-doce roxa com mel de engenho e licuri Foto: Neide Rigo|Estadão

A receita de creme com mel de engenho é uma ideia de uso, mas lembre-se dos doces de cortar e da linda cor que poderá dar a pães.

A seguir, dicas caso você se depare com essas batatas por aí: 

1. Guarde-as em cesta em temperatura ambiente. Quando começarem a lançar ramas, tire o pedaço brotado, plante numa jardineira e use o restante da batata para comer. Para aumentar a produção de ramas, mergulhe a batata pela metade em água limpa – e troque sempre. 

2. Para assar, besunte a casca com azeite, embrulhe em papel-alumínio e deixe no forno a 180ºC por cerca de 1h. Tire a pele esfregando com as mãos.

3. Para cozinhar, lave com uma escova, deixe a pele, corte em pedaços, cubra com água fria e leve ao fogo médio. Deixe cozinhar por cerca de meia hora. Tire a pele com as mãos. 

4. Sirva as batatas cozidas quentes com leite gelado adoçado. E as assadas com manteiga, mascavo e especiarias, ou amassadas com melado e pimentas.

 

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