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Se está difícil achar a abelha, imagina o mel

Meliponicultura é palavra que não combina com as singelas abelhinhas nativas, mas assim se chama a criação delas. Criação que, embora enfrente muitos obstáculos, bem explorada pode dar uma infinidade de saborosos méis

30 outubro 2013 | 22:47 por redacaopaladar

Por Júnior Milério

Especial para o Estado

Com as abelhas sob misteriosa ameaça, vem o alerta: e o mel? O leitor do Paladar já sabe há tempos que as abelhas nativas, sem ferrão, chamadas melíponas, produzem méis que são tão deliciosos como difíceis de ser encontrados. E, como depois de ler isso tudo você certamente vai ficar querendo provar mais e mais méis, vasculhamos produtores e restaurantes e conseguimos reunir alguns telefones e endereços. Desta vez, você vai conseguir prová-los.

O sumiço das abelhas é especialmente preocupante para o Brasil. O país tem ambiente extremamente favorável para a produção de mel. Dos dois tipos. O clima favorece a apicultura, que é o cultivo de abelhas Apis mellifera. E a variedade de espécies nativas, sem ferrão, atua a favor da meliponicultura, que tem potencial para a produção de méis únicos.

O Brasil é o país com a maior diversidade de abelhas sem ferrão do mundo. São mais de 200 espécies, segundo Denise Araújo Alves, uma das organizadoras do livro Polinizadores do Brasil (Edusp, 2013), terceiro colocado na categoria Ciências Naturais do prêmio Jabuti deste ano.

FOTO: Brian Hagiwara/Getty Images

O problema é que esse enorme acervo é apenas parcialmente explorado. Quase a totalidade do mel produzido aqui vem da apicultura. A variedade reflete florações – há mel silvestre, de flores, e monofloral, de laranja e eucalipto, por exemplo.

Mas é na meliponicultura que o País leva vantagem gastronômica. O potencial da extração de mel de abelhas nativas é infinitamente maior – a diversidade de espécies é enorme, as possibilidades de floração também, há diferentes técnicas de cultivo e, ainda por cima, os méis evoluem, maturam, ou seja, podem ser safrados. Segundo o ecólogo Jerônimo Villas-Bôas, autor do Manual Tecnológico: Mel de Abelhas sem Ferrão, seria possível até fazer combinações. “Poderíamos pensar em blends florais. Néctares diferentes, méis diferentes.”

Mas, por enquanto, esse é ainda um sonho distante. A meliponicultura esbarra em duas grandes dificuldades. Primeiro, a normatização – os méis nativos não são reconhecidos como tal – e, além disso, a produtividade dessas abelhas é bem menor. “Em uma situação ideal, uma colônia de Apis mellifera produziria 200 litros de mel, enquanto, no mesmo período a nativa jandaíra produziria apenas 2 litros”, compara o pesquisador Dayson Castilhos, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Em termos legais, atualmente, o mel nativo não é proibido nem valorizado. Apenas tolerado. O assunto é árido, mas importa por um motivo: a depender da conduta do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), um produto transita bem entre produtor e consumidor ou não – e o mel de abelhas nativas do Brasil está na segunda categoria.

Atualmente, o Mapa não estabelece padrões de identidade para esses méis. Até algum tempo atrás, o ministério determinava que “mel” tivesse as características do mel de Apis, que é mais viscoso. O mel nativo não se encaixava, o que obrigava os produtores a desidratar o mel de melíponas.

As coisas estão começando a mudar. O Mapa já reconhece a classificação “mel de abelha nativa”. E, segundo o próprio ministério, a falta de padrão não é empecilho para registro desses produtos. O ambientalista Roberto Smeraldi, vice-presidente do instituto Atá, idealizado pelo chef Alex Atala, diz, no entanto, que o novo posicionamento do Mapa é mais amigável, mas não basta. Para Smeraldi, “tolerar não é reconhecer a diversidade”. Ele diz que a abelha nativa precisa “sair do armário”, “se assumir”. E enquanto isso não acontecer seu mel não será reconhecido nem valorizado.

Apenas com identificação dos tipos de abelha e das características do mel produzido por cada uma será possível explorar o potencial gastronômico desses méis e promover seu consumo. Para Smeraldi, reduzir o mel de abelhas nativas ao termo genérico “mel” equivale a “vender caviar de esturjão por ovas de lumpo”. A definição dos padrões do mel de abelhas nativas e a valorização desse produto são das principais bandeiras do instituto.

Se não há como fazer as abelhas produzirem mais, é possível, sim, incentivar o produtor e facilitar a ligação com o consumidor. E o primeiro passo para isso é criar uma regulamentação específica.

FOTO: Hélvio Romero/Estadão

ONDE ENCONTRAR

Foi antes de se aposentar, e lá se vão 30 anos, que Paulo Menezes começou a cultivar a abelha jandaíra, em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Hoje ele tem ao menos 500 colônias dispostas entre seu quintal e uma propriedade rural. “Ganhei o primeiro enxame do monsenhor Huberto Bruening, que foi uma figura histórica aqui em Mossoró e, desde então, crio essas abelhas por amor”, diz.

Em Florianópolis, Santa Catarina, a mais de 3 mil quilômetros de distância, é o mesmo sentimento que motiva o que o agrônomo Pedro Faria Gonçalves define como “uma escolha de vida”.

Ele se dedica ao manejo de seis espécies de abelhas nativas brasileiras. “Faço porque me satisfaz como pessoa”, diz o produtor, que acredita que a viabilização econômica da sua atividade é uma consequência natural da sua dedicação.

Ambos vendem o mel por encomenda (que pode ser feita pelo telefone ou internet) e entregam em todo o Brasil.

Mel Menezes

Abelha: jandaíra (265g, R$ 18)

Mossoró, RN, (84) 3312-1312

www.melmenezes.com.br

Sítio Flor de Ouro

Abelhas: bugia (uruçu amarela), guaraipo, manduri, mandaçaia, tubuna e jataí (70g, R$ 10, e 350g, R$ 40)

Florianópolis, SC

www.flordeouro.com

Cia. da Abelha

Abelhas: uruçu nordestina (1 kg, R$ 180) e jataí (150g, R$ 40)

Goiânia, GO, (62) 3282-2232 e (62) 8102-0918

www.ciadaabelha.com.br

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