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Um doce torpedo chamado chajá

Por Dias Lopes

30 janeiro 2013 | 20:00 por redacaopaladar

Os uruguaios contrariam as regras da vida saudável com uma dieta predominantemente carnívora adoçada por sobremesas que abusam do açúcar. Mesmo assim, constituem um dos povos mais longevos do mundo. A expectativa de vida de cada cidadão ao nascer é de 76,4 anos. A média internacional era de 67,5 anos para o período 2005–10.

Há três anos, os uruguaios bateram os argentinos e se tornaram o povo mais carnívoro do mundo. Além disso, boa parte das sobremesas uruguaias incorpora doce de leite, um torpedo dietético. Cada 100g da sobremesa tem a metade de açúcar e fornece cerca de 300 calorias.

Em São Paulo. Chajá pode ser provado no El Tranvía (R$ 15). FOTO: Divulgação

Os doces uruguaios se chamam alfajor, arroz con leche, bombita de crema, budín inglês, budín de pan, chajá, churro, dulce de batata, dulce de leche, dulce de membrillo, garrapiñada, milhojas, natillas, ojitos, panqueques, pastafrola, pionono, ricardito, zabaione. Há outros, porém menos populares.

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O mais famoso da atualidade é o chajá (pronuncia-se “tiarrá”). Compõe-se de discos de suspiro (eles dizem merengue) intercalados com doce de leite, chantilly, fatias de pêssego em calda, farofa de bolacha, cereja ou abacaxi.

Apesar da simplicidade, faz sucesso no país inteiro. É exportado para a Argentina, Paraguai e Brasil. A receita original foi patenteada pela Confitería Las Familias, da cidade de Paysandu, a 368 quilômentros de Montevidéu e na divisa com a Argentina. Mas há interpretações caseiras. Algumas substituem o disco de suspiro pelo pão de ló. Na fronteira do Rio Grande do Sul tornou-se sobremesa festiva, com o doce de leite do recheio trocado pelo invasivo leite condensado (fervido na lata).

+ Veja a receita do chajá, o doce mais popular do Uruguai

O chajá é uma das raras sobremesas com local e data de nascimento. Até seu autor é conhecido. Foi criado em Paysandu, no dia 27 de abril de 1927, por Orlando Castellano, proprietário da Confitería Las Familias. Hoje, segue sendo produzido e vendido pela quarta geração de descendentes do inventor. A receita permanece secreta e ninguém na família a conhece do princípio ao fim. “Cada área de produção da Confitería Las Familias faz a sua parte”, explica María Nardini, bisneta de Castellano.

“Logo que a matéria-prima é processada e se combinam os ingredientes, passa-se à montagem do chajá e à etapa final: o embrulho”. Garante igualmente não haver “qualquer cerimônia de transmissão da receita de uma geração para outra”. Os herdeiros de Castellano entram jovens na fábrica, para fazer serviços menores, como descascar ovos, e só depois ascendem aos cargos administrativos. “Afinal, seguimos trabalhando artesanalmente”, conclui María.

O nome do doce veio de Chajá (Chauna torquata), ave pernalta facilmente domesticável, pertencente à família do cisne e do ganso, mas parecida com o pavão, com o qual não tem parentesco. Mede cerca de 80 centímetros de comprimento. As pernas são vermelhas, as penas pardo-acinzentadas, o pescoço ostenta uma gola preta com um círculo branco. O contraste entre o preto e o branco das asas fica bonito durante o vôo. Símbolo do Pampa, o chajá virou doce.

Exclusivo da América do Sul, o chajá pode ser encontrado em todo o Uruguai, no Paraguai, no noroeste da Argentina, e em partes da Bolívia, do Peru e do sul ao centro-oeste do Brasil. Segundo a tradição, o uruguaio Castellano, ao observar a plumagem aerada e o corpo leve da ave, decidiu dar seu nome ao doce que inventou.

>> Veja todos os textos publicados na edição de 31/1/13 do ‘Paladar’

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