Paladar

Comida

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Um prato feito para cada prato

O trabalho do StudioNeves é tão sutil que quase não aparece, mas sua louça já é parte das criações de alguns dos melhores restaurantes do País, como D.O.M. e Maní (muitos outros estão na fila, mas a seleção é rigorosa)

01 outubro 2014 | 20:04 por mariliamiragaia

A assinatura pode estar escondida na base de um prato, de um bowl ou de uma pequena bandeja. Mas as peças do StudioNeves chamam a atenção. A oficina paulistana se dedica a um requinte extremo que está se tornando comum em restaurantes gastronômicos: o design de louça sob medida para determinados pratos, feitas à mão. “Não fazemos vasos”, avisa Alex Hell, que comanda a marca ao lado da mulher, Gabi Neves. “Nosso trabalho é 100% dedicado à gastronomia”.

Algumas peças já viraram hit, como a folha marrom que acomoda a formiga saúva, item emblemático no cardápio do D.O.M.. E, puro luxo, a oficina desenvolveu para o restaurante de Alex Atala uma edição especial de louça para um jantar exclusivo – em que o chef recebeu como convidado na cozinha o chef japonês Zaiyu Hasegawa, do Jimbocho Den (uma estrela no Guia Michelin), de Tóquio. Quem foi ao jantar, pode levar o prato para casa. “A cerâmica é desenhada para fazer parte da refeição. Mas a comida é o personagem principal”, diz Hell, cuja diminuta oficina fica em uma rua calma do Brooklin, São Paulo.

Criação do ateliê para a sobremesa Terezinha, do Tuju. FOTO: Bruno Geraldi/Divulgação

O StudioNeves existe há apenas três anos, mas suas peças já estão em alguns dos principais restaurantes do país. Além de D.O.M., estão no Maní, no recém-inaugurado Tuju, no Chef Vivi, no Vito. Mais três estão em negociação, o Manu, em Curitiba, o Soeta, em Vitória, e o Epice, em São Paulo. Louças para o Tappo, de Benny Novak, também estão em produção.

Ficou com água na boca?

O trabalho dos dois é dar forma a pedidos de chefs e criar “enxovais completos” (linhas inteiras do serviço) ou peças.

“Buscamos saber o que o chef quer traduzir na boca dos clientes”, diz Hell. Na hora da criação, avaliam elementos como a identidade do restaurante e a estrutura, cor e textura do prato, além da iluminação do salão.

O processo de criação varia conforme o restaurante, mas em geral, ou o chef apresenta seu prato (e o casal cria uma louça especialmente) ou o chef já tem ideia do que quer. Bom mesmo é quando o chef convida a dupla para provar o prato antes de desenhar a louça.

Louça criada para a a sobremesa ovo, do Maní. FOTO: Roberto Seba/Estadão

Sono perdido

O primeiro grande cliente do StudioNeves foi o restaurante de Alex Atala. E a primeira criação foi justamente o prato para a saúva. “Perdemos o sono”, brinca Hell. Resolveram fazer uma peça que reproduzisse a formiga solta na natureza. Inspirado em uma folha da bananeira de tons marrons, o prato emplacou.

Outro cliente importante, o Maní, deu menos trabalho. Daniel Redondo foi à loja, reuniu uma série de recipientes e criou o jogo que abriga sua moqueca. Hell e Gabi estavam viajando e só deu tempo de a funcionária ligar e avisar: “Tem um cliente falando espanhol aqui”.

Matéria-prima

Cada furinho, curva ou desenho é feito à mão. Os esmaltes, camadas de cor que recobrem a peça, também são fruto de estudo próprio. A argila é importada dos Estados Unidos. Segundo Hell, os fornecedores nacionais ou não conseguem garantir a qualidade do produto. Os artistas dizem que a maior preocupação é com metais pesados ou outro tipo de elemento que possa causar contaminação. “O mercado nacional só produz para escolas e escultores”, afirma ele.

Por conta disso, o estúdio usa apenas argila com o selo non toxic. O carimbo é da Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana que regula questões ligadas a alimentos e saúde humana. “Usamos a mesma matéria-prima que os americanos, como o Eleven Madison Park”, assegura ele, em referência ao restaurante do chef Daniel Humm, quarto melhor do mundo, segundo a Restaurant.

SERVIÇO – StudioNeves

R. Guararapes, 548, Brooklin

Tel.: 3774-7484

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 2/10/2014

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