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Comida

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Uma praga exótica para ser devorada

NHAC!

05 agosto 2015 | 21:08 por redacaopaladar

Por Neide Rigo, do blog Come-se

A planta Anredera cordifolia é nativa da América do Sul, naturalizada em vários países como planta ornamental e alimentícia, mas considerada uma praga exótica quando pula o muro dos jardins e canteiros. Na Austrália, na África do Sul, no Havaí, na Nova Zelândia e em outras ilhas do Pacífico ela representa um problema ambiental sério, pois domina florestas, áreas costeiras e ribeirinhas encobrindo todas as árvores como uma capa verde invencível.

FOTOS: Neide Rigo/Estadão

Agora, além de ser uma trepadeira linda, com floração exuberante em cachos brancos, suas folhas verdes são espessas e têm um bonito formato de coração. Lembram o espinafre, porém sem aquela picância desagradável e algo tóxica dada pelo ácido oxálico quando esta verdura está crua. Cruas ou cozidas, as folhas da bertalha-coração são sempre suaves, sem amargor nem pungência, e a textura é muito macia, quase cremosa. E tudo o que você faria com espinafre pode fazer com as folhas da bertalha-coração.

Ficou com água na boca?

O exemplar que tenho no quintal e na horta comunitária veio de uma amiga chinesa há muitos anos. Disse que era comestível, que a mãe cultivava, mas não sabia o nome em português. Fui mantendo a espécie até descobrir um de seus nomes, caruru-do-reino, e seus usos em Minas Gerais como verdura. Mesmo mantida à rédea curta, às vezes a gente acorda e a encontra uma braçada mais alta se apoiando no telhado do vizinho. Por isso, foi logo apelidada de terror-do-reino.

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+ Bulbilhos de bertalha-coração com suas folhas na manteiga

Mas vamos ao lado bom desta selvageria toda. Que outra hortaliça produz folhas nutritivas e gostosas tão abundantemente, durante o ano todo e sem exigir cuidados? O ora-pro-nobis, talvez. E que outra verdura dispõe de tantos sortilégios para perpetuar a espécie? A bertalha-coração tem túberas aéreas e subterrâneas, chamadas de bulbilhos, que resistem a intempéries e, a qualquer sinal de umidade, já começam a lançar raízes para formar novas plantas, que, mesmo sem gavinhas, vão estendendo seus galhos flexíveis, que escalam o que estiver no caminho. Prefere umidade e sombra, mas resiste a seca e geada com garra.

Elas crescem em aglomerados que saem dos galhos e cada túbera pode gerar uma ou mais planta se não a comermos. Para usar, basta soltar umas das outras. Quando cruas, têm mucilagem como o quiabo, mas podem ser cozidas inteiras e servidas com casca. São como umas pequenas batatas de superfície rugosa, que atraem e seguram molhos densos ou vinagretes – para fazer como aquelas batatinhas de aperitivo.

Se o problema é a produção farta, um controle biológico seria o consumo de folhas e bulbilhos como alimento, como se faz na China, um dos poucos países com cultivo comercial da planta.

Em locais públicos e terrenos abandonados, não é difícil encontrá-la como planta espontânea. Já fotografei moitas em várias capitais do Brasil e pequenas mudas até em jardins como o do Museu da Casa Brasileira, ao lado de serralhas.

Provavelmente, não será fácil encontrar a verdura em feiras, mas tenho certeza de que reconhecerá as folhas trepadeiras em forma de coração quando as vir por aí. Se frequenta uma feira de produtores, aposto que saberão do que está falando quando disser que compraria folhas e bulbos. Muitos desses produtores devem ter a dita praga e amaldiçoá-la todos os dias.

As folhas podem ser consumidas cruas, refogadas ou cozidas, em sopas, massas, suflês, fritadas e cremes. E os bulbos, use-os como batatas, inteiros, cozidos por 10 minutos.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 6/8/2015

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