Paladar

Só de birra

Heloisa Lupinacci

'Fazer um boletim de ocorrência às vezes é assinar seu atestado de óbito'

Você está acostumado a ler aqui sobre cerveja. Hoje, peço licença para contar a história da Renata*

08 março 2018 | 03:00 por Heloisa Lupinacci

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. Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê sobre cerveja aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Renata*, de 34 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida - se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos - homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Fui casada por 11 anos com meu ex-marido, que é pai das minhas quatro filhas. As agressões eram tanto físicas quanto verbais. É difícil lembrar uma sequência de como tudo aconteceu, fica tudo turvo na minha cabeça. Quando me separei e falei que não queria mais, ele não aceitou. Dizia: “Ou você é minha ou não é de ninguém.” 

Ficou com água na boca?

Ele não era trabalhador, fazia coisa errada. Em 2013, cansada de tantas brigas, resolvi ir embora de casa. Escrevi uma carta para a minha família informando das ameaças. Fiz isso por instinto. Tive o apoio da minha família, que me acolheu, me deu a mão para eu levantar novamente. Consegui, com ajuda de uma tia, alugar uma casa, colocar minhas filhas lá, comecei a trabalhar como manicure. Eu era uma mulher solteira, estava levando uma vida normal, quando ele achou o lugar em que eu estava. 

Ele dizia que, se eu não voltasse com ele, iria me matar. Falei para ele me matar, então, porque eu não voltaria.

Na véspera de Natal, ele foi na porta do meu serviço e me deu cinco tiros: quatro do ombro para cima, um nas costas. Ele atingiu orelha, braço, coluna, perto da cabeça. Ele fez mesmo para me matar, era o objetivo dele. Não lembro de quase nada, só dele chegando na porta do meu trabalho, dando os disparos. Depois me recordo de alguns flashes no hospital. Lembro de algumas dores, de um desespero, do meu tio segurando a minha mão, falando que eu ia ficar bem. O resto não lembro. Tem coisas que a nossa memória faz questão de apagar.

O primeiro hospital em que fiquei não tinha recursos para fazer uma cirurgia. Fui transferida, retiraram o projétil da lombar. Fiquei até o fim de janeiro no hospital. Depois que saí fui para um abrigo de acolhimento, de proteção a vítimas junto com as meninas. Fiquei um período lá.

Até hoje eu tento levar a minha vida. Tenho estilhaços da bala alojada na coluna cervical, ando mancando, entre outras sequelas. Não tenho renda, dependo de doação. Uma cesta básica aqui, uma roupa ali. Sobrevivo dessa forma, dependendo da ajuda dos outros, coisa que eu nunca precisei fazer, pois sempre tive uma ótima profissão. Ele interrompeu tudo isso.

Meu ex-marido continua lindo e solto. Eu fiz sete boletins de ocorrência, pedi medida protetiva. No Brasil não existe justiça, proteção, segurança. Fazer um boletim de ocorrência nada mais é do que assinar o seu atestado de óbito. Se você faz, o agressor vai atrás de você. Só quem passa é que sabe como funciona. Quem é obrigada a ficar protegida dentro de um abrigo é que sabe como é lá dentro. No dia dos tiros, as pessoas o viram fugir correndo. A polícia estava perto e não fez nada. A minha filha mais velha presenciou, foi na frente dela. Ele nunca mais falou com as meninas.

Eu vivo escondida e ele vive solto, porque é assim que funciona a justiça do Brasil. Já soube algumas vezes do paradeiro dele, sempre ligo e informo, mas me dizem que preciso dizer o lugar exato onde ele está, o horário preciso. Eu não sou investigadora, não sou eu que tenho que fazer esse trabalho. Ainda assim, qualquer pessoa que passa por isso espera uma punição. Espero que a justiça brasileira dê atenção para o que está acontecendo. As mulheres estão morrendo, e ninguém faz nada. Às vezes, quando a briga acontece, a polícia chega e diz que é briga de casal.

Meu conselho para uma mulher que está passando por uma situação assim? Não se cale. Fale, ponha para fora, grite, chame alguém, vá para cima, faça alguma coisa. Mas não se cale. Não viva com o agressor por medo de levar a vida sozinha. Eu vivi assim muitos anos. Não fique presa à questão financeira, à casa, durma no relento, mas durma em paz. Nós somos capazes. Eu tenho sequelas, mas estou aqui para contar a história. Muitas não tiveram essa possibilidade.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima. 

 

Ficou com água na boca?