Paladar

Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Aos 20 anos, o Carlota é fruta madura

Veja como é jantar hoje em dia no restaurante da prestigiada chef Carla Pernambuco

06 janeiro 2016 | 16:58 por José Orenstein

O Carlota fez 20 anos em 2015. É especialmente interessante observar a passagem do tempo nesse restaurante. O que era bom e ruim decantou – no caso, sobressai o bom. E é curioso ver como evoluíram as modas, o que se entendia e hoje se entende por contemporâneo. Porque o Carlota, na primeira juventude, era o que havia de mais antenado na cena gastronômica paulistana.

No meio da década de 1990, o Brasil tinha acabado de estabilizar a moeda e reduzir barreiras comerciais. Passamos a ter, enfim, boa oferta de azeite extravirgem, arroz arbório, queijo brie, salmão. A chef Carla Pernambuco então foi à fronteira da criação: abriu um restaurante que fundia esses novos produtos com coisas nossas, goiabadas, bobós e ainda botou um tempero asiático, com rolinhos primavera, curry thai e afins. Os pratos traduziam o espírito multicultural daquele tempo, versão comestível dos CDs coletâneas de world music (ainda existe isso?) Putumayo. Na minha cabeça, com o Mestiço e a Mercearia do Conde, o Carlota arejava a ideia de restaurante na cidade. Era uma instigante ode ao bem viver, colorido, saboroso.

Filé wellington, um clássico do Carlota, irretocável. FOTOS: Daniel Teixeira/Estadão

Pois bem, ir agora ao Carlota refresca essa memória, numa nota mais agridoce. Já não há nada de novo e arejado no risoto de abobrinha, brie, presunto de parma e shimeji. Nem é especialmente saboroso o steak de atum, com risoto de quinoa, pupunha, abobrinha e purê de figos. Também o polvo com mandioquinha, molho de tamarindo e alho negro entrega bem menos do que promete, o prato não dá liga. A tartelete de figo fresco brûlée tem quase nada de gosto de figo fresco. Quer dizer: tem coisas, do cardápio, que ficaram datadas e algumas novas ideias não se realizam plenamente.

Mas como disse acima, o bom sobressai. O filé wellington, um clássico, é irretocável. Os rolinhos vietnamitas, superfrescos, continuam ótima forma de abrir a refeição. O suflê de goiabada com catupiry sobrevive aos anos, um acerto que o tempo transformou num dos clássicos da cidade. Bons produtos surgidos recentemente entraram no cardápio, como o queijo de cabra do Capril do Bosque, numa das saladas da entrada.

Rolinhos vietnamitas, superfrescos, uma ótima forma de abrir a refeição

A casa, com tijolos pintados de branco, tapeçarias e orientalismos nas paredes, mesas (agora sem toalha) de madeira boa, tem bossa, charme de sobra. Ela, sim, segue arejada, anima e acolhe – apesar do serviço um tanto relaxado (talvez porque o sucesso está garantido pela clientela que continua enchendo o salão?).

O Carlota, hoje, é fruta bem madura: já não tem viço, frescor surpreendentes, mas não está passado. E ainda tem um divertido retrogosto de virada do milênio.

A chef Carla Pernambuco, que apresenta programas culinários na TV. FOTO: Roberto Seba/Estadão

A CHEF

Carla Pernambuco abriu o Carlota, em Higienópolis, em 1995. É umas das mais reconhecidas chefs do Brasil, autora de diversos livros de cozinha. Há alguns anos, apresenta programas culinários na TV.

O MELHOR E O PIOR

Prove

Filé wellington. Faz jus à tradição do prato.

Rolinhos vietnamitas. Comeria esses rolinhos de massa de arroz com camarão e verdes vários no café da manhã.

Suflê de goiabada com catupiry. Provou ser possível tornar ainda mais intensa a relação entre Romeu e Julieta.

Evite

Tartelete de figo. O bom sorvete de cidreira não chega a fazer valer a pena essa sobremesa.

Camarões thai. A manga não casa com os camarõezinhos, que não ligam com a massa de arroz.

A casa de tijolos pintados de branco tem bossa e charme de sobra

Estilo de cozinha: Variado, com receitas de diversas partes do mundo.

Bom para: Jantar ou almoço em que se quer sair do comum, mas sem ousar demais.

Acústica: A sala com pé direito alto, logo que se entra no restaurante, tem ruído controlado; a sala vizinha, de teto baixo, quando está cheia fica bem barulhenta.

Vinho: Carta variada, ampla, dá vontade de tomar muitos dos rótulos, mas só dois ou três saem a menos de R$ 100. Taças também muitas, mas pouco camaradas no preço. Taxa de rolha: R$ 75.

Cerveja: Aqui o restaurante parou mesmo no tempo – a oferta, cara, é de long necks de Bohemia, Heineken, Stella Artois, Cerpa entre R$ 11 e R$ 15.

Água e café: Não tem água filtrada da casa, só a de garrafinha de 310 ml a R$ 5,50. Expresso Astro bem tirado, R$ 6.

Preços: Couvert (R$ 15); entradas de R$ 29 a R$ 36; pratos de R$ 50 a R$ 89; sobremesas (R$ 24 a R$ 27).

Vou voltar? Vou, sim, eventualmente, para comer um filé wellington.

SERVIÇO – CARLOTA

R. Sergipe, 753, Higienópolis

Tel.: 3663-0911

Horário de funcionamento: 11h45/14h30 e 18h30/23h (sáb., 12h/16h; dom. 12h/17h; fecha 2a)

Não tem bicicletário. Ciclovia na Rua Piauí (a duas quadras)

Valet (R$ 20)

>> Veja a íntegra da edição de 7/1/2016

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.