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Restaurantes e Bares

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Ao ponto

José Orenstein

Arimbá: o caminho da roça no meio de São Paulo

Casa de Angelita Gonzaga renova a fé em coisas humanas e simples

20 janeiro 2016 | 18:45 por José Orenstein

Entre uma e outra ida ao restaurante Arimbá, em Perdizes, me assombrava a noção de que a vida virou um breve intervalo entre o Whatsapp e o Facebook, com pausas para Instagram, Twitter, e-mail etc. É rota sem volta, pensava, não vai sobrar fiapo de coisa real, smartphones cada vez mais smart vão ganhar feições humanas. Robôs vão vigiar o mundo. Minha tecnoparanoia, porém, não resistiu a umas lufadas de fumaça de lenha queimando, goles de caipirinha de limão-cravo e dentadas num pastel de angu.

Bons restaurantes, como o Arimbá, renovam a fé nas coisas humanas e simples. Autômato nenhum vai sacar o que é entrar numa casa de madeira aconchegante e sentir que se está num restaurante com alma – e, melhor, uma alma caipira. A comida, boa e de verdade, é uma resistência. O Arimbá resiste.

Fogão a lenha, jarros de cachaça e pastéis de angu para começar a prosa

Fogão a lenha, jarros de cachaça e pastéis de angu para começar a prosa Foto: ALEX SILVA| ESTADÃO

Visitar o restaurante é fazer uma viagem para o interior do Brasil, que começa por andar pelas ruas pacatas de Perdizes. Lá dentro, veem-se jarrões de cachaça curtindo, um fogão a lenha e um cardápio convidativo. A vontade é pedir tudo da seção “caipirices para começar”: o caldinho de feijão-manteiga, a banana-da-terra na brasa, as linguiças e os embutidos. Provei as bem-feitas frituras, como o pastel de angu com carne, o bolinho de farinha de milho e galinha, o de arroz com palmito. E uma das grandes, porque absolutamente simples, ideias da comida caipira: milho assado na brasa, que aqui vem com leve manteiga de ervas por cima. (Quando eu tiver um robô, ele vai assar milho para mim todos os dias.)

Ficou com água na boca?

Sobre o mesmo fogo que vai o milho vai o rojão. É um varão de madeira de grosso calibre, onde é espetada carne moída e temperada de porco. Ótima descoberta da chef Angelita Gonzaga, vem de fornecedores de Ribeirão Grande, interior de São Paulo. O espeto, que é uma entrada, mas também é servido como prato principal, recebe o calor do fogo e chega bronzeado à mesa com vinagrete, farofa e ótimo molho de maracujá e pimenta.

Há, então, seis opções de “rancharias”, os principais. São quatro variações de cozidos de costela, peito bovino e galinha (este com fubá, e o de menos sabor do conjunto), e duas carnes, bisteca de copa lombo e chuleta bovina, feitas no arado – disco de ferro com que se ara a terra e que vira uma chapa para cozinhar em fazendas Brasil afora.

‘Cafta caipira’ é de carne de porco e pode ser entrada ou prato principal

‘Cafta caipira’ é de carne de porco e pode ser entrada ou prato principal Foto: ALEX SILVA|ESTADÃO

Quatro ricos arrozes, como o precioso carreteiro, com charque de Bagé e banana-da-terra, e um encorpado feijão tropeiro acompanham os principais e fecham o grosso do cardápio salgado.

Os doces vão também pela trilha do simples e saboroso: pudim de milho com canela, churros de milho com doce de leite, canjica branca com creme de café. E o café, propriamente, que vem de Andradas, Minas Gerais, é passado na mesa, em xicrinhas de ágata e coador de pano.

A viagem ao Arimbá recompensa, acolhe, a comida é despretensiosa, mas não descuidada, os preços são honestos. Só não é totalmente feliz o programa porque os pratos podem demorar quando a casa está mais cheia no fim de semana. E porque uma televisão permanece ligada o tempo inteiro, no National Geographic. Ah, e uma trilha sonora com modas de viola cairia bem em vez de Seu Jorge, Renato Russo, Marina Lima e afins.

A chef Angelita Gonzaga

A chef Angelita Gonzaga Foto: ALEX SILVA|ESTADÃO

Caipira capixaba

O restaurante Arimbá foi inaugurado em setembro de 2015. É da chef autodidata Angelita Gonzaga, capixaba que estava à frente da cozinha do Garimpos do Interior, na Vila Romana, onde já explorava o repertório da cozinha caipira.

O MELHOR E O PIOR

PROVE

O rojão. Cafta caipira é uma boa forma de descrever o saboroso espeto de carne.

O tropeiro, de feijão guandu, bacon, linguiça, couve, ovo, farinha de milho – acompanhamento com força de principal.

Pastel de angu. A massa de fubá de moinho d'água é leve, envelope ideal para carne ou queijo.

EVITE

O carijó, um frango guisado com bom ponto de cozimento, mas sem sabor.

Ir no meio da tarde, no fim de semana. A espera pode ser longa (mas uma cachaça pode ajudar).

Churros de milho servido com doce de leite e doce de rapadura

Churros de milho servido com doce de leite e doce de rapadura Foto: ALEX SILVA|ESTADÃO

Estilo de cozinha: Brasileira, caipira e interiorana.  

Bom para: Uma tarde preguiçosa, em mesa grande para dividir tudo com amigos ou família. 

Acústica: A madeira que recobre as paredes abafa bem o ruído. Mas a música é mais para alta. O clima descontraído aumenta o volume das conversas.

Vinho: Apenas um produtor na carta, a brasileira Casa Valduga, com dois espumantes, um branco e cinco tintos, entre R$ 48 e R$ 84. (O forte da casa é cachaça!). Taxa de rolha: R$ 30.

Cerveja: Quatro boas especiais brasileiras, como a Capitu (R$ 23,60, 600 ml), ao lado de outras convencionais (Original, Brahma e Serra Malte, de R$ 10,50 a R$ 13,50).

Água e café: Garrafinhas a R$ 3,90 – a água filtrada da casa parece mesmo que não pegou em São Paulo. Café só coado, ótimo (R$ 4,50).

Preços: Entradas e petiscos, de R$ 6,50 a R$ 44,90; pratos e acompanhamentos, de R$ 39,50 a R$ 46,50; sobremesas (de R$ 15,50 a R$ 16,50).

Vou voltar? Sim, com amigos gringos e brasileiros que queiram conhecer e rever a comida caipira.

 

SERVIÇO - ARIMBÁ 

R. Ministro Ferreira Alves, 464-b, Perdizes.

Tel.: 3477-7063.

Horário de funcionamento: 12h/16h (sex. e sáb., 12h/23h; dom., 12h/ 18h; fecha seg.).

Não tem bicicletário.

Ciclorrota na própria rua (ciclovia na Av. Sumaré, a 1 km).

Não tem valet.

>>Veja a íntegra da edição de 21/1/2016

Ficou com água na boca?