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Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Ao ponto

José Orenstein

Bistronomia paulistana

O restaurante Au Vin fica escondido na loja de vinhos de mesmo nome e é surpreendente

16 setembro 2015 | 18:18 por José Orenstein

Difícil sacar, da rua, que ali há um restaurante. A única pista é um letreiro em neon que se espreme entre anúncios de comércios vizinhos. Tive também que vencer minha pouca simpatia pelo bairro, zona cinzenta entre Moema e Vila Nova Conceição, para chegar ao Au Vin. Fiz fé na recomendação de uma amiga. Fui muito bem recompensado: ali funciona um restaurante excepcional.

Sim, excepcional, porque é exceção na cena paulistana. O Au Vin tem pinta de bistrô, pequeno e informal. Fica dentro da loja de vinhos que lhe empresta o nome. O que sai da cozinha, no entanto, é grande: pratos de técnica impecável, com lances de invenção que vão além do repertório francês clássico.

O restaurante fica escondido no fundo do terreno, em frente a um pátio interno.

FOTOS: Tiago Queiroz/Estadão

É o tipo de restaurante que, na França, alinharia com o movimento da bistronomie – uma cozinha autoral e criativa, mas sem a pompa das grandes casas de chef. Numa noite, pesquei boa definição da conversa de um casal francês que chegou animado: “Parece um daqueles simpáticos cantos de Paris onde se vai só para comer e tomar vinho”.

Ficou com água na boca?

O cardápio fixo é mínimo, são cinco opções de entradinhas e apenas um prato – um excelente cupim. Mas o negócio é pedir o menu do dia, que parece mesmo com o de “um daqueles simpáticos cantos de Paris onde se vai só para comer e tomar vinho”: entrada, prato e sobremesa por R$ 69,90, que se revelam bastante justos. O preço é igual no almoço e no jantar.

Terrine de campagne, pepino e picles de cebola roxa.

O menu do dia começa com um amuse-bouche. Provei um etéreo caldo morno de tomate servido com abacate e pó de azeitona desidratada num dia; noutro, foi uma berinjela grelhada entre firme e cremosa que divertiu minha boca. Depois vêm entrada – em que os vegetais como couve-flor, pupunha ou beterraba são protagonistas –, prato principal – que pode ter peixe, carne de boi ou de porco – e sobremesa – são duas, uma de maçã, outra de chocolate (únicos pratos que se repetiram no menu nas visitas).

A técnica impecável que mencionei ali em cima aparece aqui: as verduras no ponto ótimo, os veloutés de textura perfeita – aveludada–, as carnes corretíssimas, as sobremesas na medida certa de doce. Os pequenos toques de criatividade notam-se no suave defumado do purê de batata, na fina crosta de endro, semente de girassol e gergelim do lombo de porco, ou no chantilly de gengibre que vai sobre o arroz doce com maçã.

Contra filé grelhado, choux de bruxelles e molho paris crémée.

Resta a vontade de voltar à casa para provar as criações do dia do chef Patrick Bragato, paulistano criado na França.

Ainda à moda da bistronomie, o serviço é enxuto: o salão fica a cargo de apenas um garçom. Atencioso e gentil, se esforça em informar e acertar as pronúncias afrancesadas dos itens do cardápio. Mas falta um pouco de ritmo à expedição dos pratos. Acho que quando o esquema do restaurante é um menu em quatro tempos a alongada espera entre os serviços quebra o clima da refeição. Por duas vezes, isso aconteceu com a minha mesa.

O MELHOR E O PIOR

Prove

A terrine. Ótima opção de entrada, fora do menu do dia. Firme, úmida, fresca: vem com cebola e pequenos vegetais por cima.

O arroz doce com maçã. Parece banal, mas é surpreendente, vem com chantilly de gengibre, caramelo. A maçã é cortada em nanocubos, menores que uma cabeça de prego.

Arroz doce com morango, gengibre e agrião.

O cupim. Único prato fixo do cardápio, reforça a ideia de que não existe carne de segunda – só cozinheiro de segunda.

Evite 

Ir com pressa. O processo aqui é lento. Um garçom sozinho cuida de todo o salão.

O café. Nespressinho comum é a única opção. Cairia bem um coado simples.

Au Vin

Estilo de cozinha: francesa, com toque autoral.

Bom para: jantar especial, sem raspar os bolsos.

Vinho: 150 rótulos, preços iguais ao da loja, taças a R$ 20. Taxa de rolha: não há, mas você deve levar um vinho da loja para casa.

Acústica: Ruído mínimo.

Cerveja: Só Heineken ou Stella (R$ 7,90, as duas).

Água e café: Com e sem gás a R$ 4,90. Café, só Nespresso… R$ 5,90. Segue minha campanha: sirvam água do filtro de graça!

Preços: Menu do dia com entrada, prato e sobremesa: R$ 69,90. Entradas de R$ 28,90 a R$ 36,90.

Vou voltar? Sim. A ótima comida supera a demora do serviço.

Onde: Rua Diogo Jácome, 475, Vila Nova Conceição. 4561-2896. 19h/23h ( sáb., também 13h/16h; dom., 13h/16h; fecha 2a). Sem serviço de valet. Ciclovia de Moema a 1 km.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 17/9/2015

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