Paladar

Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Ao ponto

José Orenstein

Boa nova cucina

Eu era um estranho no Nino. Cheguei para um almoço, de bicicleta e camiseta; a regra era carro e camisa. O restaurante tinha três dias de funcionamento e já estava cheio. Num jantar, dias depois, de novo: cheguei a pé, em mangas de camisa. À minha volta, silenciosos homens de terno. Numa terceira visita, outra vez eu era exceção, nos trajes e meio de transporte. Apesar disso não fiquei desconfortável. E, o melhor, comi muito bem, no Nino.

09 setembro 2015 | 19:04 por joseorenstein

Os preços altos vão fazer o novo restaurante receber mais homens de terno do que de camiseta, certamente. Tem também o fator bairro, o Itaim Bibi, apinhado de escritórios que todos os dias na hora do almoço jorram e reabsorvem grande fluxo de engravatados.

Como é comum na vizinhança, onde almoçódromos dividem paredes com restaurantes de cozinhas mais ambiciosas – caso do Nino – , de dia as mesas enchem para almoços corporativos, grandes e pequenos negócios; de noite, o salão recebe casais, famílias e, de novo, alguns encontros de negócios.

Cubos de carne crua fresca com pecorino, alcaparra e rúcula. FOTOS: Nilton Fukuda

Ficou com água na boca?

Independentemente disso, na casa que abriga o Nino, é a comida que fala mais alto. Recomendo ir lá escutar o que ela tem a dizer. São loquazes as entradas – entre as seis opções, elejo a carne cruda, cortada com primor, de temperos sutis, a oradora da turma. Os primi piatti, as massas, as tagarelas do grupo, são sete: não provei todas, mas o nhoque tem textura perfeita (embora o molho, com manteiga, sálvia, ossobuco e queijo taleggio tenha me caído meio como um misturão). O carbonara provou sua qualidade ao sumir rápido do prato (supercremoso, agradece o socorro da pimenta do reino e escapa de ficar enjoativo). Os secondi são quatro, afinadíssimos: o solo cabe à vitela com osso, funghi e polenta.

Surpresa boa foi perguntar o peixe do dia e não ouvir nenhum nome do quarteto fantástico paulistano – robalo, linguado, atum, salmão. Era carapau. Pedi, veio inteiro, com cabeça (viva!), peixe com gosto de peixe. Quatro sobremesas simples encerram bem a conversa, duas delas de café, as melhores – affogato e tiramisù. Tem também fruta del giorno, mas não alcanço a lógica de quem sai de casa para comer fruta fatiada e pagar R$ 12.

Molho carbonara tem cremosidade e pimenta no ponto

O restaurante é pequeno, tem charme. O chef é Rodolfo De Sanctis, jovem italiano. Há muitos garçons no salão. Eles são como jogador novo que acabou de entrar em campo: corre para mostrar serviço, só que, afobado, erra mais que acerta. Sim, a casa abriu faz pouco, hoje completa duas semanas, ainda não está azeitada. Tem gente que acha que restaurante assim novo não merece crítica. Não acho: abriu a porta, está cobrando, valendo o jogo.

Já disse aqui, e mantenho até prova em contrário, que só vivemos uma vez, melhor não comer mal. O Nino ajuda na tarefa. Separe alguns bons trocados, a camisa ou camiseta, o carro, o bilhete único, a bicicleta ou seus pés e dê uma chance a esta nova cucina italiana em São Paulo.

O CHEF

Rodolfo de Santis é italiano da Puglia. Tem 29 anos. Passou pelo Tappo Trattoria, onde ficou por dez meses, até o começo deste ano. Antes, esteve também na cozinha do Biondi e do Domenico.

O MELHOR E O PIOR

Prove:

- A carne cruda, na entrada: pequenos cubos crus de carne fresca, com pecorino, alcaparra, rúcula. Fino balanço de texturas e sabores. Memorável.

- A berinjela parmigiana abre o apetite.

- O arrosto de vitela com osso, servido com cogumelo e polenta, prato de sustança, no ponto.

Evite:

- Os polpette al sugo, servidos como petisco, insossos.

- O linguine com mexilhão e vongôle, pois a suavidade desses frutos do mar é esmagada na execução da receita.

FICHA TÉCNICA

Estilo de cozinha: italiana com pratos mais para o simples que para as invencionices e modernidades..

Bom para: jantar especial, almoço de negócios.

Vinho: Muitas e boas opções para quem não se importa com preço. A maioria dos vinhos está acima de três dígitos. Mas tem uma dezena de garrafas entre R$ 70 e R$ 90. Taça só a partir de R$ 28. Uma adega especial tem supertoscanos para superbolsos.

Cerveja: A oferta é bem fraca e as duas únicas sugestões são caras (só tem Hinneken R$ 13 e Birra Morreti, R$18).

Água e café: Caros donos do Nino, por que oferecer água da casa, do filtro, na jarrinha, mas, muito deselegantemente, cobrar R$ 5 por ela?! Café expresso é da Lavazza, R$ 5.

Preços: Petiscos de R$ 9 a R$ 28. Entradas de R$ 24 a R$ 36. Pratos de R$ 46 a R$ 73. Sobremesas: R$ 12 a R$ 24.

Vou voltar? Sim, ainda tem vários pratos que quero provar.

Onde

R. Jerônimo da Veiga, 30. Itaim Bibi. 3368-6863. 12h/15h e 19h/0h (dom., 12h/17h; fecha 2a). Estacionamento: R$ 23 (valet). Ciclovia: Faria Lima (a 600 m).

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 10/9/2015

Ficou com água na boca?