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Restaurantes e Bares

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La Frontera completa 10 anos com elegância

O restaurante de Ana Maria Massochi, argentina radicada no Brasil mantém o bom gosto e charme no Higienópolis

10 fevereiro 2016 | 15:04 por José Orenstein

Nem parece, mas o La Frontera completa em 2016 seus primeiros dez anos de vida. Nem parece porque, instalado numa pequena casa em rua de pouco movimento, de frente para o Cemitério da Consolação, é discreto – como tudo que é elegante. É difícil descrever a elegância, mas é fácil perceber quando se está diante dela. Corro ao Houaiss para alguma ajuda e, embora ao dicionário também escape a essência das coisas, identifico nele palavras que facilmente associo ao La Frontera: harmonia, leveza, requinte, bom gosto, graça – e as deliciosas garbo e donaire. 

O ambiente do La Frontera. Bom-gosto e elegância com toque da proprietária.

O ambiente do La Frontera. Bom-gosto e elegância com toque da proprietária. Foto: Alex Silva|Estadão

Conseguir criar um ambiente assim não é simples. Os louros vão para Ana Maria Massochi. Ela é a proprietária do restaurante, a restauratrice – nome empolado para uma nobre profissão, talvez meio em baixa por aqui, que cuida de dar forma, corpo e alma a um restaurante. Nicholas Lander, ex-dono de restaurante e crítico do Financial Times, em livro sobre o assunto, diz que restaurateurs têm sexto sentido. São eles que têm que fazer o cliente se sentir relaxado e confortável. Ana Massochi cumpre muito bem sua função no La Frontera.

A elegância do ambiente, de cores sóbrias, bem iluminado, refrigerado (dá conta desta fornalha de verão), com madeira, vidro, tecido – sem afetação –, aparece também nos pequenos gestos: na água fresca que é cortesia da casa, no ótimo pão com pasta de berinjela, também grátis, servido logo que se senta, nas singelas velinhas acesas à mesa, à noite, na música agradável em volume adequado.

Mas vamos ao ponto: a comida feita no La Frontera é muito boa. E é isso o que mais interessa. Com dez anos de estrada, a casa acertou o rumo da cozinha, que se concentra em preparações descomplicadas de sabores pronunciados, com apresentação rústica – no melhor da escola Francis Mallmann, chef argentino (como Massochi).

Há vários jeitos de abordar o cardápio. Primeiro, dá vontade de pedir todas as entradas e itens “para começar”. Provei quase todas: a pupunha na brasa perde seu potencial enjoativo para o parmesão fresco ralado por cima, as torradas com tomatinho-cereja, doces/salgadas, são facilmente devoradas, o ceviche é equilibrado. A jarra de clericot acompanha bem esse começo de refeição.

Então, se você pedir as entradas, pode seguir pedindo os minipratos, pequenas porções, a preços bem atraentes (são cinco, R$ 12 a R$ 16, todos bons). Apesar de, numa das visitas, o garçom ter desencorajado a ideia, dizendo que talvez fosse pouca comida, a fórmula entradas + minipratos satisfaz. São especialmente bons, o ovo assado com alho poró e parmesão e o agnolotti de rabada e limão siciliano, servido com manteiga de ervas.

Ovo caipira assado com alho poro e parmesão. Boa sugestão para seguir a refeição com minipratos.

Ovo caipira assado com alho poro e parmesão. Boa sugestão para seguir a refeição com minipratos. Foto: Alex Silva|Estadão

Outro jeito de comer no La Frontera é economizar nas entradas, mirar nos pratos: peixe, carne, massa e frutos do mar são bem tratados e vêm em boas porções. A paleta de cordeiro com purê de batatas passadas na brasa é ótima e pede, suplica, um bom tinto; o bife de chorizo à milanesa é mais espesso, rosado por dentro, fritura (correta) atenuada pela leve e cítrica saladinha que o escolta; as bolotas de gnocchi, maiores que o usual, mantêm a consistência e combinam com o pesto genovês rústico; o tagliatelle com polvo e lula é um acerto.

O serviço é experimentado e prestativo. A única nota fora da harmonia no La Frontera é a seção de sobremesas. Sinto falta de opções que casem melhor com o espírito da casa. O creme de manga com gengibre, coalhada, coco crocante e um pouco de limão refresca, tem graça – mas tem aquele peso e sabor onipresente da manga. O mesmo se dá com a banana grelhada servida com doce de leite (a banana se impõe demais). Também falta ao tiramisù a leveza e elegância que sobram no ambiente e cardápio salgado. No mais, o La Frontera completa dez anos muito afinado.

Crostini. Um bom começo

Crostini. Um bom começo Foto: Alex Silva|Estadão

O MELHOR E O PIOR

PROVE

O shiitake grelhado. Com tempero cítrico, suculento, vai bem com coalhada sobre torrada.

A paleta de cordeiro. A carne desmancha, intensa e escura, sobre um potente caldo e vem com purê cremoso e empelotado.

O tagliatelle negro. Massa no ponto em molho farto; tomate não se sobrepõe à lula e ao polvo

EVITE

O bolo de nozes, com damasco, vale só pela cobertura de chocolate. O bolo veio seco, sem graça

A salada da Serra. Não é ruim, mas a de abóbora, queijo de cabra e avelã é bem melhor.

 

Massa. O ótimo tagliatelle negro com lula e polvo grelhado

Massa. O ótimo tagliatelle negro com lula e polvo grelhado Foto: Alex Silva|Estadão

Estilo de cozinha: na falta de melhor qualificação, variado. Receitas simples, que usam a brasa.

 

Bom para: almoço casual (executivo vale a pena), jantar em família ou casal – à noite a atmosfera é charmosa. 

 

Acústica: o teto forrado e o relativamente alto pé-direito abafam o som, nenhum ruído vem da cozinha; mesmo com o salão cheio, dá para conversar bem.

Vinho: Boas opções, dos Velho e Novo Mundo, mas caras – maioria dos preços em três dígitos, e só uma opção em taça (a R$ 27). Taxa de rolha: não há.

 

Cerveja: Carta dá vergonha – só Heineken, Stella e Norteña. O La Frontera precisa descobrir, com enorme atraso, a revolução cervejeira em curso no País.

 

Água e café: Viva! Água filtrada é cortesia da casa. Que bom seria se mais restaurantes fossem assim. Café Astor a R$ 3,90, expresso bem tirado a preço normal.

 

Preços: Entradas de R$ 23 a R$ 41; pratos de R$ 12 a R$ 81; sobremesas (R$ 9 a R$ 19). Executivo, R$ 49.

 

Vou voltar? Sim. É um dos bons restaurantes de São Paulo. 

 

SERVIÇO - LA FRONTERA 

Rua Coronel José Eusébio, 105, Consolação

Tel.: 3255-8867

Horário de funcionamento: 12h/15h, 19h/0h (sex., 12h/15h e 19h/1h; sáb., 12h/1h; dom. 12h/17h).

Não tem bicicletário. Ciclovia na R. da Consolação (a 100m).

Valet (R$ 15, à noite).

> Veja a íntegra da edição de 11/2/2016

 

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