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Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Oito restaurantes para uma boa refeição chinesa em São Paulo

Os restaurantes chineses estão cada vez mais numerosos na cidade. Selecionamos oito casas, separadas em quatro categorias, dos clássicos às novidades

01 julho 2016 | 16:41 por José Orenstein

Em 2016, entramos no ano do macaco de fogo – de acordo com o horóscopo chinês, é um ano em que tudo pode acontecer, em que devemos ser ágeis e inventivos; arriscar, não olhar para trás (o Ano Novo chinês, uma celebração que dura duas semanas, começou dia 8 de fevereiro). 

Então tá. Sob uma ótica bastante subjetiva (horóscopo serve para isso, não?), li o troço como um chamado: devia começar a ronda por restaurantes chineses paulistanos pelos que envolvem certo risco. Falo daquelas casas que foram abrindo nos últimos anos no bairro da Liberdade – que, há quem diga, está virando Chinatown – sem nome na porta, ou de nome inidentificável. São de imigrantes mais recentes e parecem pouco receptivas a quem não é da comunidade chinesa. 

No tradicional Rong He as massas são abertas atrás de um vidro para todos verem. O macarrão apimentado com frutos do mar chega a mesa acompanhado de uma tesoura para cortar os longos fios.

No tradicional Rong He as massas são abertas atrás de um vidro para todos verem. O macarrão apimentado com frutos do mar chega a mesa acompanhado de uma tesoura para cortar os longos fios. Foto: Hélvio Romero|Estadão

Na Rua da Glória, tem pelo menos duas delas, que seguem a cartilha do salão amplo, mesas redondas com suportes de vidro giratório no meio, cozinheiros fumando na porta antes e depois do serviço. Num curto trecho da Barão de Iguape, tem mais três, menores, mais simples. Basta andar um pouco pelo bairro para achar muitas mais.

Ficou com água na boca?

Depois de algumas flanadas e refeições imbuídas do espírito de risco nesses restaurantes, o receio vai cedendo espaço à empatia. Então nasce o prazer de ser surpreendido positivamente. Talvez diferentemente de poucos anos atrás, as coisas estão mais fáceis para novatos: cardápios já têm tradução ou versão em português (sofrível às vezes, ok – o que será um prato do Chuanxiangyuan, na Barão de Iguape, chamado “sessenta folhos de frio”?). Os donos não necessariamente olham feio quando você entra no restaurante, o clima é mais hospitaleiro e a comida é interessante. 

O diálogo, na maioria dos casos, ainda é difícil: à pergunta sobre qual a especialidade da casa, a resposta mais de uma vez foi indicar os pratos de principiante, arroz chop suey, frango xadrez, yakissoba. À pergunta sobre qual é a região de onde vêm os donos do restaurante, se há algum prato típico de lá, a resposta recorrente foi que vêm da China. Uma amiga conta que, certa vez, num dos chineses da Rua da Glória, pediu explicação sobre um prato e ouviu: “Não sabe, não pede”.

Na matriz do Hi Pin Shan, na Vila Olímpia, o ambiente traz as clássicas mesas redondas com mesa giratória no centro. O rolinho primavera ficou entre os melhores dos restaurantes visitados.

Na matriz do Hi Pin Shan, na Vila Olímpia, o ambiente traz as clássicas mesas redondas com mesa giratória no centro. O rolinho primavera ficou entre os melhores dos restaurantes visitados. Foto: Nilton Fukuda|Estadão

Mas o negócio é que, realmente, até que você tenha mais fluência no repertório da cozinha chinesa, talvez seja boa ideia começar por pratos mais convencionais – não sair pedindo tripa com gengibre, enguia na chapa, bucho de peixe. Ou levar um amigo que arranhe mandarim e mostre o caminho das pedras dos extensíssimos cardápios. Foi o que fiz numa das idas à Liberdade.

Facilitou os pedidos, a conversa. Era no Hwang Chi Fu Cai Quang (R. Barão de Iguape, 50), que descobrimos ser da família Hwang, de origem cantonesa. O ambiente é super simples, paredes rosa-claro, luz branca no teto. A porção de amendoim e o chá de jasmim são cortesia à mesa, onde repousam porta-guardanapos da Air China. Garçonete e cardápio falam mal português. Mas a lula com nirá (gow choy para os chineses) veio da cozinha em poucos minutos, no ponto ótimo de cozimento, suave, e o clássico mapo tofu, típico da província de Sichuan, tinha boa textura, cremosa (embora tenha vindo pouco apimentado; será que eles maneiram na picância com não chineses?). As porções são fartas, mas não pesadas. Voltaria lá, também pelo bom preço. Foi onde provei a mais saborosa comida nos chineses menos conhecidos da Liberdade. Mas algumas coisas não me fariam recomendar o restaurante, como um funcionário passar com um latão de lixo pelo pequeno salão, enquanto estávamos à mesa. 

Assim, se você não liga para esses detalhes e tem vontade de explorar mais a cozinha chinesa com a desculpa deste Ano Novo, o périplo pela Liberdade pode começar pelo Hwang Chi Fu Cai Quang – e o céu é o limite (amigos falantes de mandarim podem ajudar bastante).

Mas se não é esse o seu caso e bater uma vontade de conhecer ou voltar a tradicionais restaurantes chineses de São Paulo em que tudo já é bem mais fácil para quem não é da comunidade chinesa, leia na pág. 4 resenhas de oito boas casas – visitadas no último mês pela coluna Ao Ponto.

Quase sempre com uma interminável oferta de pratos (carne bovina e de porco, peixes, frutos do mar, massas, pato, sopas, arrozes), os restaurantes chineses agradam gostos variados. E, no geral, com seus cozidos e fritos, fartos e de tempero marcado, servem aquela coisa que queremos mais e sempre: a comida conforto, simples. 

Depois de visitar um punhado de restaurantes, escolhemos oito separados em quatro estilos: os clássicos e 

certeiros; os folclóricos, com alguma margem de risco; os caseirinhos, conforto puro, de bairro; e duas novidades.

Para comer bem, sem erro

Os dois restaurantes desta categoria primam pela regularidade. Amadurecem (o Ton Hoi é de 1982; o China Lake, de 1994) sem perder a qualidade, mantendo o alto nível tanto da comida que servem quanto do atencioso serviço que oferecem. São as duas melhores opções de comida chinesa em São Paulo.

 

TON HOI

A iluminada e arejada casa no Butantã é um clássico. Aos 34 anos, é como um veterano no futebol, um Zidane, faz o simples com classe. A despeito dos modismos, continua sendo referência e evolui tranquilamente com o tempo. A cozinha de Tommy Wong e a brigada (quase toda vinda de Iguape, no litoral paulista) jogam afinadas para fazer chegar às mesas as centenas de itens do cardápio – prove os wontons fritos e a salada de polvo de entrada, as ostras frescas, o pato frito com gengibre, o peixe inteiro com thau-si. As filas podem ser longas, há uma clientela fiel, mas o Ton Hoi é pedida segura para quem quer se iniciar na cozinha chinesa.

O Ton Hoi se apresenta fora da rota da Liberdade mas com constantes filas que marcam a tradição do restaurante

O Ton Hoi se apresenta fora da rota da Liberdade mas com constantes filas que marcam a tradição do restaurante Foto: Sergio castro|Estadão

 

Bom para: um almoço com tempo e em família no sábado; um jantar especial na semana  

Vou voltar? Sim, com reserva antecipada para comer o pato à Pequim 

Onde: Av. Prof. Francisco Morato, 1.484, Butantã

Tel.: 3721-3268.

Horário de funcionamento: 12h/14h30 (qua. a sáb., também 19h30/22h; fecha dom. e seg.).

Ciclovia na R. Alvarenga (a 600m). Não tem bicicletário.

 

CHINA LAKE

Tudo é bem cuidado: garçons bem treinados, salão amplo e confortável com ar-condicionado, mesas com toalhas e guardanapo bordado, xícaras de chá com logo da casa – e comida muito bem feita. O casarão que abriga o China Lake é onde o chef Paulo Hu mostra seu repertório culinário de Xangai, com abertura para a cozinha de outras regiões (o pato à Pequim, que não precisa de reserva antecipada para ser pedido) e abrasileiramentos. A sopa de milho é um bom começo, e os clássicos preparos agridoces são equilibrados – de frango, porco ou peixe. A banana caramelada encerra muito bem a refeição.

Bom para: um jantar de casal ou um almoço em família, com pouca margem de erro  

Vou voltar? Santo Amaro, para mim, não é ali do lado, mas vale o deslocamento. Volto, sim 

Onde: R. Marechal Deodoro, 525, Alto da Boa Vista

Tel.: 5524-7921.

Horário de funcinamento:  12h/15h, 18h30/22h30 (sex. e sáb., até 23h30; dom., 12h/16h, 18h30/22h30).

Ciclovia na R. Alexandre Dumas (a 400m). Estacionamento próprio comporta bicicletas.

Para curtir como turista

Ambos na Liberdade, atendem a comunidade chinesa local, mas também muitos “turistas”. São casas grandes, sempre muito cheias, 

abertas por levas de imigração chinesas mais recentes, mas que já fazem parte de um certo folclore paulistano. Os preparos não são tão cuidadosos, mas os restaurantes valem pelo programa, para ir em grupo, em família.

RONG HE

A casa vive lotada e agora abriu sua terceira filial (a original é na Liberdade, depois veio a do Paraíso, e, no fim do ano passado, a de Moema). É que com seus sempre muito fartos pratos, é bom negócio: a preços razoáveis, alimenta-se ampla mesa. Mas, ao menos na unidade da Liberdade, não se trata só de alimentação: come-se bem no Rong He. Só não espere refinamentos de preparos e sabor dos pratos. As massas abertas atrás de um vidro são atração turística. Chegam à mesa ensopadas, com carne de porco e missô, e acompanhadas de uma tesoura para cortar os longos fios. O melhor aqui são os pães e pastéis recheados cozidos no vapor.

 

Bom para: jantar ou almoço com o máximo de amigos que conseguir reunir (regado a cerveja Tsing Tao e uma malvadíssima pinga chinesa)

Vou voltar? É bom e barato. Portanto, volto. 

Onde: Rua da Glória, 622-A, Liberdade

Tel.: 3275-1986

Horário de funcionamento: 11h30/15h e 18h/22h30 (sáb. e dom., 11h30/22h30).

Ciclovia na Av. da Liberdade (a 300 m). Não tem bicicletário.

 

CHI FU

No começo, o Chi Fu era aventura gastronômica. Daí mudou de endereço, ficou famoso e hoje ocupa um salão suntuoso na Liberdade. Ainda assim, é aonde muita gente vai quando quer uma experiência próxima a algo que imaginamos ser autêntico – sentar nas mesas redondas e fartar-se com chop sueys, porco agridoce, frango xadrez. Bem, no fim do ano passado, garçonetes brasileiras começaram a trabalhar na casa, o que facilita as perguntas sobre o grande cardápio. A casa continua não aceitando cartão, as porções seguem grandes e a preços razoáveis. E a comida mantém-se irregular e carregada: frutos do mar fora do ponto, pato com canela demais, frituras encharcadas.

Bom para: levar alguém (muita gente de preferência) que nunca foi lá, para conhecer

Vou voltar? Só se amigos me chamarem

Onde: Praça Carlos Gomes, 200, Liberdade

Tel.: 3101-8888

Horário de funcinamento: 11h/16h (sáb. e dom., 11h/17h). 

Ciclovia na Av. da Liberdade (a 30 m). Não tem bicicletário.

 

Para reconfortar, sem frescura

São chineses de bairro – ambos em Perdizes – que funcionam em ambientes simples, mas que servem grandes porções reconfortantes de pratos mais fáceis. São despretensiosos, de bom custo-benefício, para voltar e voltar – não para ter uma experiência única excepcional.

 

HI PIN SHAN

A matriz, na Vila Olímpia, é o primo rico: ambiente mais arejado, com lanternas chinesas pendentes do teto. Já na casa de Perdizes, o salão de piso frio é bem mais acanhado. A regularidade do que sai da cozinha, no entanto, é a mesma, o que faz deste um chinês muito confiável. O rolinho primavera, em páreo duro com o do Esmeralda, é o melhor que provei dos oito restaurantes aqui indicados: faz crique-créque-cróque, tem massa finíssima e um respeitável recheio de legumes ainda em boa textura, não molengões como às vezes acontece com essa adorável fritura. As opções do cardápio são várias. Boa pedida é o mochulou (popular nos EUA como Moo Shu Pork), carne de porco refogada com broto de feijão, repolho, ovo, bambu e cogumelos, para ser devorado com panquequinhas macias.

Bom para: almoço executivo, em pratos individuais; jantar durante semana, para reconfortar   

Vou voltar? Sim, é uma ótima opção acessível de comida chinesa (talvez antes de voltar, peça um delivery)

Onde: R. Padre Chico, 190, Perdizes

Tel.: 3675-2270

Horário de funcionamento: 11h30/14h30 e 18h30/22h30 (sáb. e dom. 11h30/15h30 e 18h30/22h30; fecha seg.) 

Ciclorrota na própria rua. Não tem bicicletário.

 

CHINA ESMERALDA

Com boa vontade, podemos associar o verde clarinho da fachada desta casa simples à cor de esmeralda que dá nome ao restaurante. Não consegui descobrir se a pintura foi proposital, a família que toca o negócio, embora simpática com clientes, não é de muito papo, nem quis que fossem feitas fotos de seus pratos. Independentemente disso, o cliente é muito bem acolhido no pequeno salão, em mesas com toalha de papel, por um serviço afável. O clima é caseiro e despojado. As porções servem pelo menos dois e têm esmero no preparo, sem carregações, a bons preços. Aqui a melhor pedida é a simplicidade: o rolinho primavera é seco por fora e incrivelmente úmido por dentro, a sopa de wonton vem num delicado caldo, a costelinha agridoce é boa. 

 

Bom para: almoços e jantares descomplicados, para saciar a vontade de comida chinesa sem gastar muito.

Vou voltar? Sim, é um chinês confiável, ótimo custo-benefício 

Onde: R. Dr. Cândido Espinheira, 662 , Perdizes

Tel.: 3875-3601.

Horário de funcinamento: 11h30/14h e 19h/21h30 (sáb., 11h30/15h, 19h/21h30; dom., 11h30/15h30; fecha seg.).

Ciclovia na prória rua. Não tem bicicletário.

 

Para conhecer: duas casas novas

Esses dois restaurantes têm em comum apenas o fato de serem novos: ambos abriram as portas no ano passado. Em 

bairros e com propostas bem diferentes, são casas que merecem ser visitadas por quem se interessa pela comida chinesa.

 

CHÁ-YÊ

De todos os restaurantes aqui descritos, este é o único que não tem como donos chineses ou descendentes de chineses. Uma dupla de paulistanos que tinha empresa de importação de chás chineses especiais é que está à frente do negócio. Esta aprazível casinha em Pinheiros aberta no meio do ano passado é em tudo diferente dos outros restaurantes: o ambiente é diminuto e arrumado, o cardápio é curto e leve – prove a ótima costelinha de porco marinada no chá preto, com pimenta de Sichuan, e o macarrão gelado à moda da Província de Yunnan, com tofu, abobrinha, shimeji, cenoura e amendoim torrado. Os pratos, individuais e de preços bem razoáveis, são inspirados no que a dupla de sócios come quando viaja anualmente à China em busca dos chás – que também servem no restaurante, quentes, frios ou em drinques.

 

Ambiente do restaurante Chá-Yê, o chinês mais jovem da cidade

Ambiente do restaurante Chá-Yê, o chinês mais jovem da cidade Foto: Daniel Teixeira|Estadão

Bom para: almoços refrescantes nesses dias de verão e calor; jantar, com drinques

Vou voltar? Sim, sempre que por perto para um almoço

Onde: R. Fradique Coutinho, 344, Pinheiros

Tel.: 3360-7003. 12h/23h (ter. e qua., 12h/18h; fecha dom. e seg.).

Ciclovia na R. Artur de Azevedo (a 100 m). Não tem bicicletário.

 

CHINA GARDEN 

Numa casa bem grande e moderna na Aclimação, o China Garden abriu com pompa no meio de 2015. Cozinheiros foram trazidos da China para trabalhar na casa, que se propõe a servir uma comida sofisticada, à maneira de Hong Kong. Não se assuste: o cardápio indica banquetes que passam dos R$ 8 mil, para uma dezena de pessoas, com iguarias controversas como barbatanas de tubarão. Dizem os garçons, todos com sotaque castelhano, que famílias chinesas (maior parte da clientela) pedem o negócio. Foi difícil obter informações sobre pratos menos usuais – os garçons se esquivavam e induziam aos itens mais tradicionais. Assim foi: os refogados de porco e frango eram bem feitos; arroz chop suey e rolinho primavera, bons. Numa comparação com os tradicionais Ton Hoi e China Lake, o China Garden está um degrau abaixo. 

Bom para: um jantar, quando servem uma espécie de bufê shabu-shabu, em que você escolhe os ingredientes e os cozinha à mesa.  

Vou voltar? Sim, para explorar melhor o cardápio, além do trivial 

Onde: Av. Turmalina, 45, Aclimação

Tel.: 3208-0826

Horário de funcionamento: 12h/14h e 18h/22h (fecha seg. na hora do almoço)

 

>> Veja a íntegra da edição de 4/2/2016

Ficou com água na boca?