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Bartender Laércio Zulu conta que já teve projetos interrompidos por ser negro

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Bartender Laércio Zulu conta que já teve projetos interrompidos por ser negro

No Dia da Consciência Negra, Zulu, que assina cartas de drinques pelo Brasil, diz que pele branca e olho claro são nota de corte em muitos lugares

20 de novembro de 2019 | 08h00 por Gilberto Amendola

Laércio Zulu, ou apenas Zulu, é um dos bartenders mais renomados do País. Em seu currículo, prêmios importantes e finais internacionais em campeonatos de coquetelaria. Além disso, ele é autor de diversas cartas de drinques pelo Brasil (além de consultor de bares e o criador da primeira marca de bitters genuinamente brasileiros).

Apesar de tudo isso, Zulu sabe que é quase uma exceção. “Esse é um mercado com muitos pretos. Isso é uma verdade. Mas quando os negros conseguem atingir alguma notoriedade ou boa remuneração? Quantos são celebrados e escolhidos como ‘profissional do ano’? Quantos conseguem aparecer em um quadro de TV ou reportagens?” pergunta.

Nesta entrevista, Zulu fala sobre o racismo no Brasil e, principalmente, no meio em que trabalha. Ele conta já ter perdido trabalhos por ser negro e lamenta não existir um movimento mais forte de união e resistência para combater o preconceito.”A pele branca e o olho claro viraram nota de corte em muitos lugares”, disse.

+ Tudo sobre o Dia da Consciência Negra

Laércio Zulu, um dos bartenders mais renomados no Brasil. FOTO: Tiago Queiroz/Estadão

 

Como é tratada a questão do racismo no mundo dos bares e da coquetelaria?
A primeira coisa que é preciso dizer é que o Brasil é um país racista. Talvez um dos mais racistas. Viajo muito e sinto a diferença. Quando você liga a chave para prestar atenção em atitudes racistas, você consegue perceber muitas coisas.

Como se dá o racismo nesse ambiente?
Existe racismo em todas as esferas. Há muitos negros trabalhando em bares e restaurantes, mas perceba como se dá essa relação. Em muitas situações, o profissional do serviço – e o bartender é um profissional do serviço – não é tratado com educação, principalmente o negro. É fácil perceber o olhar de desprezo de um tipo de cliente, gente que finge nem ouvir quando um profissional negro fala alguma coisa. Existe algo como “enquanto você está me servindo, tudo bem”, “mas não venha conversar comigo”.

Esse é um mercado que respeita o profissional negro?
Esse é um mercado com muitos pretos. Isso é uma verdade. Mas quando os negros conseguem atingir alguma notoriedade ou boa remuneração?  Quantos são celebrados e escolhidos como profissional do ano? Quantos conseguem aparecer em um quadro de TV ou reportagens?

Você já passou ou acompanhou situações de racismo?
No começo da minha carreira, tinha medo de passar por esse tipo situação. Fiz cursos, intercâmbio fora do país… Fui estudar para me manter e competir nesse mercado. Fiquei cego para essas questões… Agora sei que o que não falta nesse mercado é preto, mas é a pele branca e o olho claro que viraram nota de corte em muitos lugares.

Marca de bebida rejeitou contrato com Zulu por ele ser negro. FOTO: Tiago Queiroz/Estadão

 

E situações de racismo…
Em 2011, eu acompanhei um concurso de coquetelaria e ouvi um jurado dizendo que votou no drinque de uma pessoa porque ela era “branquinha e bonitinha”. Isso mesmo, disse que o drinque não era tão bom “mas era branquinha e bonitinha”.

E com você?
Já tive projetos que foram interrompidos porque eu sou negro. Eu já estava na fase de assinatura do contrato de um projeto para uma grande marca de bebida, quando um dos responsáveis da agência de publicidade me ligou abrindo o jogo e dizendo que a marca não queria um bartender negro. Pediram para abrir uma nova seleção… Teve uma vez que um veículo de comunicação elogiou um bartender chamando-o de “branquinho tatuado com cara de americano”.

Como lutar contra o racismo no meio?
É preciso ter força. É preciso se fortalecer para responder à altura ou até mesmo com finesse.

Hoje existe algum movimento organizado dentro dos bares?
Me entristece responder essa pergunta. Mas, infelizmente, não existe um movimento de resistência. Eu chamo de resistência – tem gente que chama de mimimi. Não é mimimi. Tenho orgulho de acompanhar o que as mulheres e os gays já estão fazendo. Não existe um movimento negro dentro do mundo do bar – apenas ações isoladas. Existem negros conscientes, com trabalhos importantes, ótimos bartenders. Mas não existe nada organizado.

 

 

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