Paladar

A estratégia da camuflagem

18 novembro 2010 | 17:47 por Roberto Fonseca

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Dogfish Head 120 Minute IPA (EUA, 350ml)

Estilo: Ale / India Pale Ale

% alc.: 19% ou 21% (depende da versão)

Cor: Castanho escuro, brilho avermelhado, translucidez baixa

Espuma: Bege clara, média formação e média a baixa duração

Aroma: Malte, toffee, caramelo, frutas secas, leve cítrico ao fundo, licoroso, nota de álcool bastante presente (aumenta com o tempo)

Sabor: Malte, adocicado/leve açucarado inicial, toffee, caramelo, frutas secas, álcool bastante presente, esquenta e “amortece” a boca, densa e “oleosa”, corpo médio a alto, final seco e levemente doce/torrado, amargor médio, equilibrado, carbonatação média a baixa

Nota 4,5 – Excelente cerveja, a melhor prova de que uma IPA com quantidades enormes de IBUs não necessariamente é amarga. Densa, complexa, com bom balanço entre álcool, amargor e malte. O preço é bastante salgado – R$ 90 a long neck -, mas a raridade e a qualidade tornam a relação custo/benefício bem mais palatável.

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O primeiro pensamento foi de que seria uma briga de cachorros grandes – e lupulados. De um lado, a escocesa Brewdog Hardcore IPA, com obscenas 150 unidades de amargor (a já batida comparação indica a loura do dia a dia com algo em torno de 10 unidades) e 9.2% de teor alcoólico. Do outro, a norte-americana Dogfish Head 120 Minute IPA, menos lupulada (120 unidades, mas o uso do “menos”, nesse caso, chega a soar como sacrilégio) e com estonteantes 18% – ou 21%, já que houve mudanças no porcentual em diferentes anos, mas, da mesma forma que o lúpulo, chega um ponto em que é difícil distinguir esses 3% a mais ou menos. Ledo engano, como já haviam antecipado, na mesa do Melograno, os cervejeiros Eduardo Passarelli (sócio do local e cronista da nobre bebida) e Marcelo Cury, médico, degustador e homebrewer. A Dogfish, produzida pela cervejaria homônima tocada por Sam Calagione, é um caso à parte.

Passarelli colocou à venda no Melograno apenas seis garrafas da 120 Minute IPA na noite de quarta, anunciadas horas antes com um singelo texto no Twitter. A cerveja, como diz o nome, parte de uma receita que recebe a adição de lúpulo por 120 minutos, passa por dry hopping (adição de mais lúpulo na fermentação, para acentuar o aroma) e ainda é maturada por um mês em folhas de lúpulo. Logo, trata-se de uma “bomba” de lúpulo, uma “água de kriptonita”, como diria o colega Ivan Steinbach, certo? Errado. O lúpulo e o amargor ficam até um pouco atrás das notas adocicadas vindas do malte, que também tem uma carga colossal para levar a cerveja a pelo menos 18%. O resultado, mais que uma super-mega-hiper IPA, lembra uma barley wine extremamente potente, em que o álcool chega a amortecer a boca, mas não incomoda, o que a torna uma cerveja bastante perigosa.

Ainda não tomei a Brewdog, mas, pelas descrições já analisadas, ela segue a linha das IPAs americanas e puxa muito mais para o lúpulo e o amargor. O caso da Dogfish é a melhor mostra da equação malte-lúpulo: pode-se fazer uma cerveja amarga com poucas unidades de amargor, assim como o inverso também se prova.  

Pelo balanço do final da noite, restaram apenas duas garrafinhas da 120 Minute IPA e meia dúzia da Midas Touch, sobre a qual falarei mais adiante. O Passarelli disse que vai colocá-las à venda na próxima quarta. O preço da IPA é bastante salgado: R$ 90 a long neck. Mas, pela qualidade da cerveja, gastos de produção e raridade por aqui, vale para quem estiver com o 13º na mão.

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