Paladar

Autêntica cerveja de… Itu?

11 fevereiro 2011 | 16:27 por Roberto Fonseca

Tampinha da Eisenbahn Pilsen indica produção e engarrafamento na Schincariol (Foto: Roberto Fonseca/AE)

Depois da polêmica levantada sobre a validade das cervejas da Flying Dog no site do Brejas e a suspensão da importação da marca para o Brasil (noticiada por aqui), resolvi retomar velhos hábitos deixados de lado pela pressa ou, mesmo, desatenção, como olhar com calma rótulo, contra-rótulo e textos das cervejas. Qual não foi minha surpresa quando, na segunda tentativa (a primeira foi descobrir o produtor da Ecobeer apenas no chanfrado da tampinha: C.K., ou Cervejaria Krill), vi a imagem acima no mercado.

A tampinha da Eisenbahn Pilsen tem o seguinte texto: na primeira linha, “Cervejaria Sudbrack (nome empresarial da Eisenbahn) – Rua Bahia, Blumenau”. Na segunda, ” Produzida e engarrafada por Primo Schincariol Indústria de Cervejas e Refrigerantes – Itu”. A princípio, achei que fosse algum novo padrão de identificação, já que a Schin controla a Eisenbahn há alguns anos. Mas em seguida vi a garrafa da Eisenbahn Pale Ale, onde o texto é único: “Produzida e engarrafada por Cervejaria Sudbrack”como produtora. Já tinha perguntado, meses atrás, se parte da produção da Eisenbahn seria feita fora da fábrica onde ela nasceu, na contramão do slogan “A autêntica cerveja de Blumenau”. À época, a resposta da Schin, foi negativa.

A confirmação veio há pouco, via assessoria da empresa, e incluíram a Baden Baden Cristal. Segue a íntegra.

“As cervejas especiais Baden Baden e Eisenbahn registraram um crescimento significativo desde a aquisição pela Schincariol. Por meio da logística aplicada pela indústria de bebidas, hoje as cervejas podem ser encontradas em casas especiais, empórios, bares, restaurantes e supermercados de todo País. Acompanhando esse aumento da procura do consumidor por bebidas premium e para atender a alta demanda de consumo nos momentos de pico, a empresa está produzindo temporariamente as cervejas Baden Baden Cristal e Eisenbahn Pilsen em sua principal unidade fabril em Itu.

A Schincariol informa que a decisão de produzir as cervejas fora das fábricas de origem aconteceu depois de muito estudo e análise, para que tanto a receita, quanto as características que diferenciam as bebidas, não sofressem alterações. Todos os outros rótulos continuam sendo produzidos em suas respectivas fábricas.”

Que a pilsen (ou tropical lager, já que dificilmente uma representante do estilo no Brasil atinge padrões técnicos de uma pilsen alemã ou checa) é o principal produto de venda de uma cervejaria, seja ela micro ou gigantesca, não se discute. Que muitas vezes é necessário ampliar a fábrica para dar conta da produção e isso nem sempre é possível em termos de espaço também parece razoável. O que fica chato nessa história é a perda da identidade do produto sem uma comunicação sobre essa mudança ao consumidor. A receita pode até ser a mesma; a água, tão celebrada por suas peculiaridades regionais no passado, é o menor dos problemas com a tecnologia atual. Mas o tal do “autêntico” fica pelo caminho entre Blumenau e Itu.

Pode parecer ranhetice demasiada deste que escreve. Afinal, várias cervejarias terceirizam parte de sua produção (nos EUA há casos assim, por exemplo, assim como na Alemanha). Mas, se eu estivesse na alemã  Colônia, por exemplo, gostaria de tomar uma kölsch nascida e criada nos limites do território onde ela surgiu, não numa fábrica a milhas dali, fossem a receita e a marca exatamente as mesmas da cidade. Além disso, uma das primeiras comparações que me veio à mente foi a da Polar, propagandeada no Rio Grande do Sul como “cerveja dos gaúchos” e “No Export”. Mas cujas long necks eram produzidas (não sei se ainda são) na catarinense Lages.

Não vou ficar aqui pregando contra a globalização. Afinal, sem ela seria difícil ter boa parte das cervejas importadas de que podemos desfrutar no mercado. Mas às vezes gostaria mesmo é de ter uma cervejaria pequena e boa a algumas quadras de casa, que produzisse todas as suas receitas no local para atender a vizinhança. E que, igual a ela, houvesse algumas centenas no País. Mas aí certamente é querer demais – e delirar bastante.

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