Paladar

Birra del Borgo: amargor ‘al dente’

27 abril 2009 | 13:32 por Roberto Fonseca

Ficha Re Ale Extra

Quão amargo é amargo demais numa cerveja? A resposta tem tantas variáveis quanto o gosto de cada um. Para um bebedor de pilsens industriais, um pouco amargo já pode parecer muito, enquanto para o degustador mais “rodado”, será um sabor agradável. No meu caso, a “tolerância” (e apreciação) ao lúpulo e seus efeitos veio com o tempo. Tivesse eu tomado a cerveja acima há uns cinco anos, certamente acharia amarga pacas. Hoje, apreciei bastante. Não chego, porém, ao nível dos cervejeiros caseiros da BSG (sobre os quais falarei em breve), cujo lema é “A vida é amarga. Nossas cervejas, mais ainda”.

Há, porém, outros fatores que influenciam esses extremos. Como já havia dito num post anterior, o amargor da cerveja é medido em IBUs (International Bitterness Units, ou unidades internacionais de amargor). Mas uma cerveja com alto índice, como a Re Ale (com declarados 65 IBUs; como comparação, uma pilsen industrial tem em torno de 12), não necessariamente é um fel. A cerveja pode parecer mais ou menos amarga dependendo, por exemplo, do equilíbrio dela com o malte da receita. E é esse o caso em questão: a cerveja italiana tem bastante lúpulo, sim, mas o caramelo do malte a deixa bem agradável e fácil de beber.

Infelizmente, porém, a Re Ale Extra não é vendida no Brasil. Consegui uma porque, além de gostar do amargor da cerveja, a degustação da nobre bebida me ensinou outra coisa: saber apreciar as produções locais. Quando estou em um outro país (bem menos do que gostaria, uma vez nos últimos cinco anos), tomei por regra só provar as cervejas feitas ali. Sei que é uma provação, ainda mais na Europa, onde cervejas belgas e alemãs abundam. Mas você também pode acabar trombando com excelentes produções regionais; basta um pouco de pesquisa na internet para “furar” o bloqueio das lagers industriais sem graça. Mas não, ainda não tive o privilégio de fazer um “tour cervejeiro” à Itália; apenas apliquei a regra às “encomendas” feitas a quem visita outros países (hehehe).

A “raridade” da Re Ale, aliás, me fez adiar bastante o consumo dela. Não queria chegar cansado do trabalho e tomá-la sem aproveitar 100% de sua qualidade (ela é bem avaliada em sites como o Ratebeer e o Beer Advocate). O fato é que não conseguia um dia livre para apreciar a cerveja do modo como ela merecia. Na semana passada, resolvi dar um basta à situação, para não virar um Miles (o personagem do Sideways, que guarda um vinho raro para uma ocasião especial e acaba tomando a preciosidade em copo de isopor e com um hambúrguer numa gordurosa lanchonete americana, em um acesso de raiva). Tomei a Re Ale com uma massa (não sem antes tomar um copo “sozinho”, para a resenha), para fazer jus às “tradições” italianas.

Falando na Itália, aliás, a cervejaria, que fica em Borgorose, a cerca de 100km a noroeste de Roma, foi criada em 2005 por Leonardo de Vincenzo, que largou a carreira de pesquisador para se dedicar às cervejas. Enfim, um exemplo a ser seguido (se a cervejas produzidas forem boas hehehehe). No caso da Re Ale Extra, deu certo: realmente, é uma das melhores IPAs que já tomei. Valeu a espera.

Em tempo: já ia quase esquecendo de falar do estilo India Pale Ale, ou simplesmente IPA. Trata-se de uma receita de origem inglesa, surgida no século 18; o primeiro exemplar do estilo teria sido produzido pela Bow Brewery. O nome IPA, porém, veio com a fama que a cerveja ganhou ao ser exportada para tropas inglesas que serviam na Índia. A IPA era (e é) bem mais lupulada do que as pale ales normais. E o lúpulo tem propriedades que ajudam na conservação da cerveja. Trata-se de uma variante da bebida de cor castanha ou âmbar, com aroma padrão de malte e caramelo, além de lúpulo destacado, que pode, por exemplo, trazer notas cítricas. As duas características se refletem no sabor, que ainda conta com um amargor bastante pronunciado. Atualmente, o estilo faz bastante sucesso nos Estados Unidos, onde cervejeiros caseiros “lupulomaníacos” se divertem produzindo “crias” com IBUs estratosféricos.

No Brasil, temos como representantes do estilo a Colorado Índica, de Ribeirão Preto, a Falke Estrada Real, de Minas Gerais, e a S-1 IPA, de Pirangi (SP). Entre as importadas, há as inglesas Meantime IPA e Greene King IPA.

Ficou com água na boca?