Paladar

‘Decano’ da cerveja no Brasil faz 92 anos. Prost, ‘seu’ Loeffler!

05 junho 2009 | 19:28 por Roberto Fonseca

Enquanto você lê este post (se o fizer na noite de sexta), a família Loeffler estará em festa. O “patrono” Rupprecht Loeffler é o convidado especial de um jantar em Canoinhas, Santa Catarina, como contou ao blog há pouco sua filha Dóris. Afinal, ele está completando 92 anos. Ele é, provavelmente (salvo algum caso desconhecido), o cervejeiro mais antigo do País em atividade. Isso mesmo: embora a produção da Canoinhense esteja a cargo de assistentes, ele dá expediente religiosamente na fábrica. Goste-se ou não de sua cerveja – há polêmica entre quem a provou -, uma coisa é inegável: Rupprecht Loeffler faz parte do patrimônio e da história da cerveja no Brasil. Abaixo, um texto que escrevi sobre a cervejaria e foi publicado na revista Beer Life. Parabéns, “seu” Loeffler. Pena não ter uma Nó de Pinho em casa para brindar.

Rupprecht Loeffler, caneco em punho: dois litros diários da produção ficam com ele, literalmente.

O prefeito de Canoinhas bateu à porta de Otto Loeffler com um pedido incomum: queria uma cerveja para homenagear João Ribeiro de Barros, que, a bordo do hidroavião Jahú, havia acabado de fazer a travessia do Oceano Atlântico, saindo de Gênova e fazendo sua parada final em São Paulo, a algumas centenas de quilômetros da pequena cidade do Noroeste de Santa Catarina. Para atender ao pedido, Loeffler rebatizou uma de suas receitas, a Cristal, como Jahú. O ano era 1927: o mundo havia recém-saído de uma guerra mundial sem saber que caminhava para outra, Joseph Ratzinger nascia na região cervejeira da Baviera, na Alemanha, e Washington Luís havia assumido há poucos meses a Presidência do Brasil. Nessa linha do tempo, porém, um fato não poderia passar despercebido. O filho de Otto, Rupprecht, de dez anos, já ajudava no dia-a-dia da cervejaria.

A importância desse detalhe é que hoje, mais de 20 presidentes, 18 Copas do Mundo e seis papas – sucedidos pelo próprio Ratzinger, ou Bento 16 – depois, a Cervejaria Canoinhense continua exatamente no mesmo lugar, assim como Rupprecht, ou ‘seu’ Loeffler, seu mestre-cervejeiro, hoje com 91 anos (nota do blog: agora, são 92). A pequena produção artesanal catarinense é, muito provavelmente, a mais antiga ainda em atividade no País. Embora a família Loeffler tenha se instalado no local em 1924, vinda de Corupá (SC), segundo registros históricos já se fabricava cerveja no local desde 1908, ou exatamente há um século.

Quem passa pelo ‘biergarten’ na parte externa do edifício de tijolos aparentes e atravessa a porta de vidro da entrada deve estar preparado. Nada ali é imitação: os macacos empoleirados em tocos de madeira na parede são – ou foram – de verdade, e revelam um dos antigos hobbies de Loeffler: a caça. Os animais foram “eternizados” em poses jocosas, como que fumando, rindo ou roubando o colega. O mesmo ocorre com as aves do outro lado do salão. A surpresa maior, porém, é quando se chega perto da geladeira: em potes de vidro cheios de formol, cobras, também caçadas pelo cervejeiro, e – pasme – um porco de duas cabeças. Resista a eventuais calafrios e continue percorrendo a fábrica, agora para conhecer as etapas da produção, que não encontra similar no Brasil e é estimada em 1.500 garrafas mensais.

.Macacos empalhados na parede da fábrica. O que estão fazendo?

A cerveja “nasce” em uma tina de cobre, aquecida por lenha, descansa em “piscinas” de aço inox – o “resfriamento natural” é propagandeado nos rótulos -, protegida por uma tela, e depois matura em barris de carvalho, que, segundo Loeffler, vieram da Alemanha há cerca de um século. Todas as cervejas produzidas ali são de alta fermentação e, diz o cervejeiro, seguem a Reinheitsgebot, ou Lei de Pureza Alemã. A Jahú, da homenagem ao hidroavião, fez sucesso em 2006 no aniversário de Jaú, cidade do interior paulista que inspirou o nome da aeronave. Um comerciante local levou 32 caixas da bebida para a festa.

Além dela, há mais três receitas. A Nó de Pinho, que se chamava Sport, mas foi rebatizada, segundo seu Loeffler, por “inspiração de visitantes”. “Eles estranharam a cor escura e perguntaram se ela havia sido cozida com nós de pinho”, diverte-se o cervejeiro. A história da receita guarda mais uma curiosidade: segundo o historiador e chefe de gabinete da prefeitura de Canoinhas, Fernando Tokarski, outra cervejaria da cidade, de José Scheller – que encerrou as atividades nos anos 60 – chegou a criar uma receita batizada de “Papo de Imbuia”, para rivalizar com a Nó de Pinho.

A Mocinha, como diz o nome, é uma cerveja clara, mais suave, feita com a idéia de atender o público feminino. Por fim, há ainda a Malzbier, bastante adocicada. Todas têm em torno de 3% de teor alcoólico, marca consideravelmente menor que as lagers industriais de hoje em dia, que giram entre 4% e 5%. E cada uma tem a tampinha da garrafa pintada de uma cor.

A Nó de Pinho é a mais interessante do grupo: com cor castanho-escura e brilho rubi, possui notas de malte torrado, acéticas e de madeira, que se refletem no sabor. É bom estar preparado: uma das características das cervejas da Canoinhense é, justamente, ter notas ácidas, azedas e de madeira, reflexo do processo de produção. A “personalidade” da cerveja divide degustadores: alguns a acham “intragável”. Outros, produção histórica.

Os rótulos da produção. Em um deles, a capital ainda era no Rio de Janeiro (!!!)

Cerveja à mão, é hora de conversar com o seu Loeffler, invariavelmente de gravata e suspensórios. Depois das histórias da família, de caça e viagens, só falta a foto. Mas atenção: ele só aceita posar com o caneco em punho. A fama na pequena Canoinhas já rendeu ao cervejeiro um título de cidadão honorário, nos anos 80. Hoje, além da erva-mate, a Canoinhense é a principal atração da cidade – havia o Bar das Placas, todo decorado com chapas de automóveis de várias cidades e países, mas o estabelecimento se mudou para o litoral e, depois, fechou.

O futuro da Canoinhense é tema que deixa moradores, visitantes e fãs da cerveja ressabiados. Ninguém gosta muito de falar sobre o que ocorrerá quando seu Loeffler se encontrar com São Gambrinus e outros grandes cervejeiros. Se depender dele, porém, esse momento ainda vai demorar. Loeffler não cansa de repetir sobre quando se consultou com o médico. “Ele viu meus exames e perguntou quanta cerveja eu tomava por dia. Quando respondi um litro, disse-me que deveria aumentar para dois”, brinca.

Cervejaria Canoinhense – Rua 3 de Maio, 154, Canoinhas/SC. Tel.:(0xx47) 3622-0358

Ficou com água na boca?