Paladar

Francesa, belga ou inglesa?

18 janeiro 2011 | 10:34 por Roberto Fonseca

DIRETO AO PINT

Etoile du Nord (França, 350ml)

Preço estimado: R$ 22

Produtor: Brasserie Thiriez

Quem traz: Casa da Cerveja

Estilo: Pale Ale (pela lupulagem) / Belgian Ale (pelo fermento)

Teor alcoólico: 5,5%

Cor: Dourado escuro, translucidez quase zero pela presença de fermento

Espuma: Branca, cremosa e densa, alta formação e média a alta duração

Aroma: Malte, adocicado, leve condimentado, lúpulo destacado (floral/cítrico)?

Sabor: Malte, adocicado suave no início, seguido de lúpulo destacado (floral/cítrico), fermento e leve picante/condimentado. Final seco, amargor médio a alto para o estilo, corpo médio, carbonatação média a alta. Álcool bem balanceado.

Nota 4,2 em 5 – Bela cerveja, bastante equilibrada apesar de bem lupulada. Mostra que é possível fazer uma cerveja básica, com potencial moderado de álcool, e ao mesmo tempo complexa e bem-construída.

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A Segunda Guerra Mundial acabou em 1945, com a vitória dos países aliados sobre Alemanha, Itália e Japão. No lado vencedor, além dos Estados Unidos, lutaram juntos Inglaterra e França. Se o mundo respirava aliviado – embora contabilizasse milhões de mortos – com o desfecho do confronto, na pequena cidade de Esquelbecq, no norte da França, começava uma triste tradição.

Naquele ano, deixou de existir a última cervejaria local. A cidade, que fica a pouco menos de 30km da belga Poperinge – uma das referências em cultivo de lúpulo na Europa – e próxima de Calais, uma das passagens para a Inglaterra, chegou a ter cinco produtores de cerveja e dez pubs (ou, em francês, estaminets) no começo do Século 20. A escrita começou a mudar apenas 51 anos depois.

Em 1996, Daniel Thiriez, já cansado da carreira de gerente de recursos humanos para uma grande rede de supermercados francesa, decidiu largar tudo e produzir cerveja, munido de conhecimentos em homebrewing que havia adquirido na Inglaterra. Seu sonho, diz no livro “1001 cervejas para provar antes de morrer”, era “ser independente e morar no campo”.

Em Esquelbecq, ele adquiriu a antiga fábrica da cervejaria rural Poitevin para instalar a Thiriez. As primeiras levas de cerveja começaram a ser vendidas em janeiro de 1997, e a produção ainda era pequena (6 hectolitros por vez). A primeira receita a se destacar foi a Blonde D’Esquelbecq, ainda hoje um dos principais produtos da Thiriez.

Em 2003, depois de se corresponder com o mestre-cervejeiro inglês John Davidson, da Swale Brewery, ambos decidiram criar uma receita conjunta, que seria feita na França e Inglaterra ao mesmo tempo, com a mesma bandeira “Amigos da Cerveja”. Nascia ali uma ale clara, mas generosamente carregada de uma variedade aromática de lúpulo inglês de Kent chamada Bramling Cross.

Com a extinção da Swale, essa cerveja passou a se chamar Etoile du Nord; para exportação aos Estados Unidos, porém, é rebatizada de Thiriez Extra. Inicialmente, a versão export tinha o nome de Thiriez XXtra, mas ele foi alterado a pedido da cervejaria belga De Ranke (também à venda no Brasil) que já tinha a XX Bitter.

O fermento da cervejaria é mantido em um laboratório em Bruxelas. A Wyeast lançou em 2007 uma cepa de fermento cervejeiro chamada “Saison Francesa”, que, acredita-se, é originária da levedura da Thiriez.

Inspirada na saison belga Moinette, da Brasserie Dupont – como admite o próprio Thiriez -, a Etoile du Nord é uma cerveja com teor moderado de álcool e bela lupulagem, que se encaixa bem no conceito inglês de “session beer”, ou cerveja para ser consumida em uma quantidade um pouco maior – leia-se um pouco mais de uma garrafa e um pouco menos do que o ‘fardão’ de lager industrial que se convencionou levar a churrascos por estas bandas.

Para tanto, porém, poderia ser um pouco mais barata no Brasil. O preço pela garrafa long neck acaba tirando um pouco do brilho da cerveja.

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