Paladar

Feliz dia da cerveja alemã: Prost!

23 abril 2009 | 10:26 por Roberto Fonseca

Reprodução de imagem da lata da Paulaner Oktoberfestbier

Se você busca um motivo formal para degustar cervejas, hoje é um bom dia. Há exatos 493 anos, o duque Guilherme IV, da Baviera, proclamava a Lei de Pureza da cerveja daquela região, conhecida pelo quase impronunciável (para os brasileiros) nome de Reinheitsgebot. Ela é considerada a mais antiga legislação sobre alimentos ainda em vigor no mundo, embora, como escreveu Conrad Seidl no Catecismo da Cerveja, regulamentos sobre a bebida já existissem no Código de Hamburabi, dos babilônios (datado entre 1728 e 1685 a.C.).

Em linhas gerais, o texto da Reinheitsgebot diz: “em todas as nossas cidades, nas feiras e no campo, nenhuma cerveja deve conter outra coisa além de cevada, lúpulo e água”. O leitor mais atento deve ter notado que falta, nessa equação, o fermento. Mas a ação das leveduras ainda não era conhecida – nem exatamente controlada – à época, coisa que só veio a ocorrer no século XIX. Também se percebe que a menção é feita à cevada, e não ao malte, pelo mesmo princípio. Há outras curiosidades no documento, como a fixação de preço básico pela caneca de um litro, a utilização da cerveja märzen como “estilo base” (o pilsen, hoje dominante no mundo, só surgiu no século XIX, também) e a previsão de confisco dos barris com cerveja que fugisse à regra.

Oficialmente, a lei cervejeira tinha como objetivo proteger o consumidor da adição, na bebida, de substâncias que poderiam fazer mal à saúde, como alguns tipos de ervas. Na prática, segundo Seidl, porém, a Reinheitsgebot também vetava a fabricação de cervejas de trigo, limitando o privilégio ao próprio duque Guilherme IV, que a arrendava para obter lucros. A restrição dos ingredientes ainda baniu um tipo de cerveja chamado Grut, que usava rosmaninho selvagem no lugar do lúpulo. Em 1906, a legislação sobre a cerveja foi ampliada para toda Alemanha, com abertura de exceções (o uso de outros maltes além do gerado pelo grão da cevada e açúcares tecnicamente puros de cana e beterraba). Mas na Baviera a restrição se manteve mais “pesada”.

Pessoalmente, considero a Lei de Pureza um instrumento válido, ainda mais em um país como o nosso, onde a quantidade de “cereais não-malteados” (arroz, milho e congêneres) é bastante grande nas cervejas. E isso faz diferença no sabor e no aroma. Bem que poderíamos ter algo mais restritivo por estas bandas. Mas há o outro lado da moeda: como ficariam excelentes cervejas belgas, que usam sementes de coentro, cascas de laranja e alguns tipos de açúcar, sob a limitação dos quatro ingredientes? Ou, no nosso próprio caso local, o que seria de produções como a Demoiselle, da Colorado (SP), que usa café em sua receita, ou da Dado Bier Ilex, que contém erva-mate? No fundo, a medida do impasse é o bom-senso: certamente ninguém quer que sua cerveja vire “mingau” de milho ou arroz, mas o melhor balizador de qualidade da bebida deve ser o consumidor consciente. Afinal, como já havia dito no post sobre a Guitt’s Extra, ser 100% malte não é sinônimo de cerveja sensacional.

Polêmicas à parte, passemos à celebração. Que, tecnicamente, já poderia ser iniciada, pois, no fuso horário alemão, estaríamos a esta altura quase no happy hour (hehehehe). Desde 1994, o alegre país europeu (pela quantidade e qualidade de cervejas) celebra o 23 de abril como Dia da Cerveja Alemã. Mais tarde, posto a cerveja com a qual comecei a comemorar antecipadamente a data (rsrsrsrsrss). De todo modo, recomendo ao leitor que se aposse de uma cerveja alemã (puro malte, por favor) hoje e, no momento apropriado, faça um brinde ao Duque Guilherme IV. Prost!

Em tempo: sabia que a cidade de São Paulo chegou a ter, por um curto período, uma lei que instituía o Dia da Cerveja em 21 de dezembro? Aprovada no início de 1998, porém, ela acabou revogada por outra lei em 2000. Na opinião deste humilde blogueiro, uma ótima oportunidade de divulgar corretamente a nobre bebida (leia-se difundindo a qualidade e desestimulando o consumo abusivo) foi perdida por preconceito tolo. Mas não vou me estender nas críticas: quer saber o que faz o Legislativo paulistano? Acompanhe pelas páginas de política do Jornal da Tarde (momento merchan rsrsrsrsrs). Mas e aí, será que algum nobre edil da capital se habilitará a reabilitar a data em homenagem à cerveja?