Paladar

Flying Dog: não basta ter força, é preciso saber bater

11 março 2010 | 16:31 por Roberto Fonseca

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A “invasão” cervejeira americana ao mercado brasileiro, que deve ser o principal fato envolvendo a nobre bebida em 2010, teve novo capítulo esta semana, com a chegada de 10 receitas da Flying Dog, cervejaria de Maryland. A estreia havia sido com seis marcas da californiana Anderson Valley. Depois de degustar os 16 rótulos – evidentemente, em sessões diferentes -, a conclusão inevitável é de que as melhores cervejas norte-americanas por aqui, até agora, são as mais “extremas”: a IPA da Anderson Valley e as duas aí de cima da Flying Dog.

A escolha se deve, em parte, porque é exatamente essa a expectativa que muitos degustadores brasileiros têm sobre as produções da terra do Tio Sam: overdose de lúpulos diversos e teores alcoólicos mais elevados. De fato, há bastante lúpulo nas marcas recém-chegadas – em especial nas Flying Dogs. Mas só isso não basta: justamente por esse motivo, algumas cervejas da leva pareceram usar o “amargor pelo amargor”, e perderam um pouco do potencial que poderiam ter. Por isso escolhi o título acima: de fato, é preciso saber usar a força disponível, para que não pareça despropositada. E é justamente aí que a Gonzo Imperial Porter e a Double Pale Ale se destacam como melhores opções do grupo das 10 Flying Dogs – um conselho importante, ainda mais porque cada long neck deve custar entre R$ 18 e R$ 25, o que cria necessidade de uma degustação, por assim dizer, mais seletiva. Duas das cervejas do grupo ainda pecam pela doçura excessiva; falarei sobre as 8 restantes no decorrer do período.

Coincidentemente, a Gonzo e a Double têm o mesmo índice de amargor: 85 IBUs (ou International Bitterness Units; uma lager industrial tem menos de 10, como comparação). Nem por isso, no entanto, equivalem a beber um copo de fel.  A Imperial Porter é uma homenagem ao “pai” do estilo gonzo de jornalismo – leia-se interferência do autor na notícia e mistura de realidade e ficção – Hunter S. Thompson, inspirador do surgimento da Flying Dog. O rótulo, feito por Ralph Steadman – já conhecido pelos trabalhos gráficos no mundo dos vinhos -, representa uma espécie de autorretrato póstumo de Thompson. A cerveja causa certa surpresa no início, pela lupulagem cítrica, mais apropriada a uma IPA, em uma Imperial Porter. Mas o resultado é bom: a força do malte e do álcool casam bem com o lúpulo, gerando, veja só, equilíbrio. A Double Pale Ale é mais desafiadora, com 11.5% de álcool e dry hopping – adição de lúpulo na fase final de produção da cerveja, para acentuar o aroma -, mas ainda assim tem seu balanço, com boa presença de malte caramelo. Ambas fazem parte da linha especial da marca – leia-se os preços mais próximos a R$ 25 -, chamada Canis Major.

A Flying Dog começou como um brewpub, bar que vende suas próprias cervejas, em 1990, tocada pelos sócios George Stranaham e Richard McIntyre. Reza a lenda – e o site da cervejaria – que o nome surgiu quando George, após uma expedição atrapalhada para tentar escalar a montanha K2 no Himalaia, parou para beber em um bar do Paquistão e viu, ali, o desenho de um cachorro voador feito por um artista local, que virou uma espécie de “mote” da expedição e, depois, da cervejaria: “É impressionante o que você pode fazer se ninguém diz que você não é capaz de fazê-lo”.

Agora é esperar pelos próximos lançamentos americanos; a Tarantino confirma que, para breve, trará receitas da Rogue. E a Brazil Ways está buscando a Brooklyn, do mestre-cervejeiro e “papa” da harmonização da bebida com pratos diversos, Garrett Oliver. Curiosamente, Oliver é um dos críticos das cervejas “extremas” dos EUA. “Qualquer um pode jogar lúpulo numa panela de cerveja, mas quem é capaz de torná-la maravilhosa?”

Em tempo: soube agora há pouco que a padaria Villa Grano, na Vila Madalena, está com preços melhores na Flying Dog. A linha regular está saindo a R$ 13,80 e a Canis Major, da qual fazem parte a Double e a Imperial, R$ 17,80.

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