Paladar

Heineken, de volta ao básico (e à polêmica?)

27 fevereiro 2009 | 23:24 por Roberto Fonseca

foto heineken

ACORDA, BOB! Chega de ficar “sonhando” com cervejas de R$ 815, como a Jacobsen Vintage nº2. É hora de colocar o pé no chão. E a cerveja do dia a dia, aquela “de trabalho”, do boteco, fácil de achar (e de pagar)? Afinal, não haveria cervejas espetaculares sem “loiras geladas” para servirem de base de comparação. Quem gosta de pesquisar sobre a nobre bebida já deve ter ouvido, de 11 em cada 10 amigos, a infalível pergunta: “Qual é a melhor cerveja entre essas ‘normais’ que a gente vê?” Direto ao ponto: colocado em um cenário (de preferência um bar) onde há apenas cervejas industriais e tendo de escolher uma, meu voto ficaria com a Heineken.

Depois do silêncio digno de saloon de velho oeste quando alguém entra, e antes que os mais exaltados quebrem garrafas no balcão (da cerveja concorrente, claro) e partam para cima de mim, explico o porquê com três termos: puro malte, amargor e preço/disponibilidade. No primeiro caso, porque faz uma diferença sensível no aroma, que ganha contornos de malte mais definidos (e agradáveis). No segundo, porque, ao contrário do que corre por aí, a pilsen, originalmente, tem de ser uma cerveja amarga – faz parte do seu estilo. Nesse quesito, a Heineken leva vantagem sobre boa parte da concorrência industrializada. E também sobre algumas produções artesanais, que infelizmente preferem seguir a regra de mercado de tornar suas cervejas mais “suaves” para concorrer com as “grandes”. O último quesito é direto: nem sempre é possível comprar só cervejas artesanais ou importadas, o que reduz bastante o arco de escolhas do degustador. E, apesar de a oferta ser cada vez maior, não é em qualquer bar que se encontram cervejas diferenciadas. Da minha parte, limito o máximo possível as idas a locais que não tenham boas cervejas, mas com isso garanto minha fama de “cervochato” para os não-versados na nobre bebida.

Mas não vá você, leitor, pensar que a Heineken é a quintessência da cerveja. Trata-se de uma boa lager em meio ao mercado disponível em larga escala. Apesar de ligeiramente mais amarga do que as concorrentes industrializadas nacionais, ela está longe de chegar ao padrão de uma pilsen. De acordo com o Brewers Judge Certification Program (BJCP), entidade norte-americana que forma juízes para avaliarem cervejas (ah, se eu ganhasse um real cada vez que alguém comentasse “ô, empreguinho bom!”), uma pilsen de influência alemã tem de ter, pelo menos, 25 Unidades de Amargor (medida usada para quantificar, obviamente, o amargor da cerveja gerado pelo lúpulo); uma pilsen tcheca, ao menos 35. Embora não exista confirmação oficial, comenta-se que a Heineken teria em torno de 17 (as outras industrias mais comuns no mercado brasileiro teriam de 10 a 12). Além disso, assim como acontece com várias outras cervejas, também já tomei Heinekens boas e outras não, e isso tende a frustrar os consumidores mais fiéis.

Mesmo assim, defensores da marca X ou Y poderiam bradar: “Esse Bob só pode estar fazendo propaganda da marca”. Antes que se crie um Cervejogate, que sigilos bancários e fiscais sejam quebrados (e que eu pare de delirar com divagações irracionais), aviso: apesar da preferência pessoal pela Heineken, acho que sua produtora no Brasil, a Femsa, peca muito em não diversificar a produção além da manjada lager/pilsen, ao contrário do que faz a Ambev, com suas marcas importadas, ou a Schincariol, que adquiriu um “cardápio” de cervejas artesanais (olha outro assunto polêmico aí).

Há, porém, um outro argumento nessa discussão, igualmente importante: nem todos gostam de amargor. Uma ex-colega de trabalho (ex porque deixou o emprego, não porque cortei relações após o comentário), ao ouvir o nome da Heineken, reagiu quase de imediato: “Credo, essa cerveja tem gosto de perfume e é amarga demais!” Outra amiga, porém, resolveu aderir de vez à “verdinha”. Longe de querer fazer uma guerra de rótulos, trato apenas de uma opinião. Cada um tem o direito de ter a sua. Na dúvida ou impasse, volto a defender: “duelo às escuras” para elas! Em dezembro de 2005, o Paladar fez um, com tarimbados degustadores, e a Heineken acabou levando. E você, o que acha?

Arriscando-me a perder a paciência do leitor, mas não a piada e a comparação esdrúxula, poderia dizer que a Heineken está para a cerveja como Caronte para a mitologia grega. Ele era o barqueiro que percorria o rio que separava o mundo dos vivos e o dos mortos. No caso etílico, cabe a cada degustador decidir quem fica de cada lado (hehehe).

Ficou com água na boca?