Paladar

Joinville nasce em…Blumenau

05 maio 2009 | 11:34 por Roberto Fonseca

Ivan Steinbach e Diogo Zuge, na entrega do prêmio, em 2008. Foto: Roberto Fonseca

Enquanto você lê este post (especialmente se isso ocorrer até o final da tarde, hehehe), dois cervejeiros catarinenses estarão dando duro para colocar, daqui a uns dois meses, sua “cria” no mercado. Ivan Steinbach e o primo Diogo Zuge, de Joinville, ganharam no final do ano passado a segunda edição do concurso Mestre-cervejeiro da Eisenbahn, microcervejaria de Blumenau. Ao contrário do primeiro torneio, que teve estilo livre e foi conquistado pelo carioca Leonardo Botto (com a belgian dark strong ale Dama do Lago), a disputa de 2008 foi apenas da variedade robust porter. Como o estilo é bem específico, diria que os exemplares mais próximos dele que temos no mercado são as London Porters feitas pela Meantime (importada pela Brazil Ways) e pela Fuller’s (trazida pela Boxer). Até, claro, a chegada da Eisenbahn Joinville Porter.

Segundo Ivan, o nome Joinville Porter foi uma homenagem ao rio que corta a cidade homônima, e que teria cor similar à da cerveja vencedora (espero que a comparação pare por aí). Se você acha o nome estranho, saiba que as crias caseiras da dupla são batizadas de Gräbenwasser. Ou, literalmente, “água de sarjeta”, apelido dado pelo pai de Ivan ao ver uma das primeiras, e não tão bem sucedidas, produções da marca, que teve direito a fermento Fleischmann (antes que alguém tenha ideias, a cerveja é produzida com fermentos específicos) e um “toque especial” de lúpulo, a ponto de deixar o líquido parecendo “água de kriptonita”. “Se Nelson Rodrigues tivesse ouvido esse nome, certamente não diria que seus personagens ‘sem alma’ eram incapazes de tomar um Chicabon sentados na sarjeta, já os condenaria a provar a própria água da sarjeta”, pensei à época, num raro momento de erudição.

Outra curiosidade da Gräbenwasser é o local da “fábrica”: depois de algumas explosões de garrafas em função de mudanças climáticas (e do transtorno subsequente), a cerveja passou a ser feita na casa da tia de Ivan, que também abriga um canaril, o que traz a expressão “água que passarinho não bebe” a um novo sentido. O lugar também serviu de inspiração para o canário preto que estampa os rótulos da marca. “Logo, logo, vamos testar a primeira cerveja do Brasil com alpiste e painço”, chegou a brincar Ivan, quando o entrevistei ainda no primeiro concurso, em 2007, no qual ele não conseguiu ficar entre os “top 5”. Ele explicou, à época, o porquê do canário negro: “Na verdade não existe uma linhagem de canários negros, apenas os obtidos por cruzamento, que não produzem filhos negros. Assim é nossa cerveja: todo mundo sabe que produzimos, mas ninguém até hoje viu a cor.” De lá para cá, porém, a cerveja ficou famosa e já atraiu a curiosidade de degustadores da região. Agora, deve chamar a atenção em escala nacional.

Um dos primeiros rótulos da Gräbenwasser

Mas o que esperar da Joinville Porter? Pelo que provei no concurso de 2008, em que fui um dos jurados, trata-se de uma cerveja com cor castanho bem escuro, quase preta, e translucidez baixa. O aroma é de malte torrado, com notas de chocolate, que também aparecem no sabor, onde ainda há algum lúpulo e álcool perceptível na boca, com bom corpo. É claro que a transição do processo caseiro para o industrial deve alterar a cerveja (já havia sentido isso com a Dama do Lago do Botto), mas a essência da Joinville Porter será essa. Agora, é só torcer para dar certo e esperar o “canário” sair da toca (hehehe). Serão produzidos 3 mil litros da cerveja.

Em tempo: o Ivan me mandou algumas fotos depois do fim da produção, o que ocorreu por volta de 20h de ontem (5/5). Ei-las.

Ivan e Diogo despejam lúpulo na receita.

A dupla dinâmica confere o andamento da produção na Eisenbahn

Os cervejeiros caseiros e o mestre-cervejeiro da Eisenbahn, Gerhard Beutling

Ficou com água na boca?