Paladar

König Ludwig: a arte de dar murros em ponta de faca

13 dezembro 2009 | 17:19 por Roberto Fonseca

Ficha König Ludwig Dunkel

A cerveja aí de cima é produzida pela König-Ludwig Schlossbrauerei Kaltenberg, que fica aproximadamente a 30 quilômetros de Munique. Logo que a vi na gôndola do Tortula, lembrei que ela possui uma história curiosa. A cervejaria pertence ao príncipe Luitpold Rupprecht Heinrich, cuja linhagem inclui os antigos reis da Bavária e, também, o Duque Guilherme IV, autor da Lei de Pureza alemã, ou Reinheitsgebot. Ah, e um de de seus ascendentes, ao se casar em 1810, teve uma festa que deu origem à Oktoberfest de Munique.

A Kaltenberg tem seus primórdios na primeira cervejaria criada pela família Wittelsbach, em 1260. Em 1292, foi construído o castelo Kaltenberg, que passou a abrigar a produção cervejeira. A fábrica em seus moldes atuais surgiu em 1870.

Apesar do DNA cervejeiro – e de possuir uma fábrica -, Luitpold não pode servir sua cerveja na Oktober. Os organizadores alegam que sua fábrica não fica dentro dos limites da cidade, como os demais fornecedores da festa: Spaten, Löwenbräu, Paulaner, Augustiner, Hacker-Pschorr e a Hofbrauhaus, ou, simplsmente, HB.

Luitpold tentou entrar na festa de várias formas: alegando suas raízes cervejeiras, criar uma cervejaria móvel que atuaria em Munique parte do ano, instalando um brewpub dentro dos limites da cidade e por aí vai. Já chegou até a apostar que entraria com sua cerveja na festa – e perdeu. Mas nem ao pagar a aposta – teria de levar um litro de cerveja de sua fábrica até a Oktober, para entregá-la ao vencedor -, ele conseguiu botar a König Ludwig/Kaltenberg para dentro”. Para não dar o braço a torcer, ele passou a realizar um torneio de duelos medievais na área do castelo no meio do ano, que funciona como sua própria Oktoberfest – lá, a Kaltenberg é servida sem problemas. Enfim, como diz o título, trata-se de um sujeito que exercita a arte de dar murro em ponta de faca há uns bons anos.

Fui me lembrando da história entre apanhar novidades cervejeiras na gôndola e chegar em casa e, ao consultar o Ratebeer e ver que elas não têm lá uma boa aceitação entre os zitonautas (ou cervejeiros que navegam na internet). Mais murro em ponta de faca da minha parte? Pode até ser, mas, além de fazer parte do trabalho e de nossa própria opinião contar mais que a dos outros, é um impulso quase irresistível querer provar e esquadrinhar o que está dentro da garrafa. Parece síndrome de Alice no País das Maravilhas (e a famosa garrafa “beba-me”), mas, como definiu um colega de gastronomia, também é o que move o gourmet: a descoberta, seja lá qual for a conclusão sobre ela.

Voltando à cerveja, segundo o finado caçador de cervejas Michael Jackson, a König Ludwig Dunkel foi aperfeiçoada por Luitpold nos anos 70, inclusive com dry hopping (adição de lúpulo na fase de maturação da cerveja, para acentuar sua presença principalmente no aroma), algo raro na escola cervejeira alemã. Não sei bem por quais mudanças passou a cerveja nos últimos anos, mas o lúpulo aparece apenas discretamente no aroma, dominado por notas adocicadas e licorosas. Senti falta de um pouco mais de torrado, marca mais registrada das boas schwarzbiers, como a Köstritzer. Se bem que, em termos de lúpulo, provei uma dunkel na Itália que bate qualquer outra. Mas isso já é outra história…

A König Ludwig Dunkel é importada pela Bier & Wein.

Em tempo: conversando há pouco com um amigo cervejeiro sobre König, ouvi dele que algumas das características descritas ali em cima, como caramelo destacado, podem ser reflexo da oxidação da cerveja, frequente em importadas, pelas condições de transporte. E, de fato, diante da ponderação, lembrei ter tido a impressão de uma leve oxidação ao fundo, difícil de perceber em receitas com muito malte escuro/torrado. Fica aí a dúvida lançada para os futuros degustadores da cerveja: quando a avaliarem, notem se parece oxidada ou não. A melhor prova, porém, só tomando-a in loco hehehe