Paladar

Melhores de 2012, parte 78: Frederico Ming

02 fevereiro 2013 | 14:30 por Roberto Fonseca

Foto: Arquivo pessoal

Cervejeiro caseiro da Capitu, vencedor do Concurso Estadual da Acerva Paulista de 2012, de São Paulo (SP):

1) MELHOR ALE NACIONAL

Muito boa a Way Irish Red Ale. Bem acabada, constante, versátil.

2) MELHOR LAGER NACIONAL

Eisenbanh 5. Boa cerveja, ótimo custo/benefício.

3) MELHOR ALE IMPORTADA

McChouffe. Uma cerveja belga bem equilibrada, plena de sabor e aroma, forte e ainda refrescante.

4) MELHOR LAGER IMPORTADA

Brooklyn Lager.

5) MELHOR CHOPE

Neste momento em que no Brasil se vive a “fase anal” da cerveja especial, onde, como crianças percebendo o mundo, pessoas começam a ter contato com o mundo cervejeiro e se encantam com tudo que lhe pareça mais bizarro, “sensacionalista” nos IBUs ou ABVs, espetáculos de aroma e amargor, se encantam com a pregação da escola cervejeira americana (lemos seus livros, tomamos suas cervejas, usamos o BJCP ou o BA, trazemos gringos para nos ensinar a beber e fazer cerveja e escola cervejeira), gostaria de chamar a atenção para as cervejas equilibradas, e radicais nos detalhes.

Parecemos gostar de cervejas que sejam “a mais mais mais” em alguma coisa, e esquecemos da importância do equilíbrio entre os aspectos sensoriais, o drinkability, as sutilezas. Dias passam, cervejas passam, e cada vez mais nos damos conta de que “Deus esta nos detalhes”, e aos poucos vai se percebendo que, para ser radical, não precisa ser desequilibrado. A força da expressão pode estar nos arranjos de ingredientes, nas harmonias e resultados sutis provenientes disso.

Dando valor ao equilíbrio criativo, fico com o ótimo chope Pale Ale inglês da Britannica, uma “session beer” bem equilibrada, ótimo drinkability, presença de malte e amargor justo.

6) MELHOR BAR CERVEJEIRO

Empório Alto dos Pinheiros, pela oferta generosa, e Cervejaria Nacional, pelo arrojo nas criações, interessante proposta de bar, tem fomentado a comunicação/troca com o público e comunidade cervejeira.

7) MELHOR CERVEJA CASEIRA

Aqui eu sou suspeito… rssrss. A gente acaba sempre tomando as cervejas dos amigos e pessoas mais próximas. Dos outros Estados, a gente conhece pouco. A circulação é restrita. Uma cerveja de que gostei muito foi uma stout (imperial que não era imperial) que o Linus de Paoli fez e que não fica em nenhuma categoria, a Oaked Dr. Piló, Rotenfuss Bier. Era uma cerveja bem escura, com notas sutis de café e chocolate, tostado e ligeiro frutado, composto com carvalho. Ficou uma coisa de louco. Não tinha um corpo muito elevado, carregava um ótimo drinkability, fantástica fusão de aromas e sabores. Cerveja respeitável, mais presença que o whiskey de que ela faz lembrar.

Fico também com a Cafuza, black IPA. equilibrada, mas radical nas sutilezas, e a MenstruAle – rock beer, uma red ale de nome sonoro, bem acabada, dá vontade de beber mais.

8) MELHOR CERVEJA DO ANO, AQUI OU LÁ FORA

Aquela que esta em suas mãos e te deixa feliz, naquela hora. Cervejas, assim como bons vinhos, são feitas de momentos.

9) RÓTULO MAIS BONITO DO ANO

Gosto da força de expressão e linguagem retrô-pop-construtivista da onda dos rótulos feitos para a Urbana.

10) NOVIDADE DO ANO

Os fermentos líquidos, a variedade de cepas agora encontradas no comércio.

11) MELHOR FATO CERVEJEIRO

Avanço do Inconsciente Coletivo pró-cerveja na comunidade cervejeira e fora dela.

Na contra-maré do clima de terror que rondou as atividades pró #cervejadeverdade esse ano, pessoas e grupos conseguiram se desvencilhar do medo e da ignorância paralisante, e efetivamente conseguiram contribuir muito para a formação de um inconsciente coletivo pró-cerveja, grupos de pessoas mais instruídas e engajadas na luta pela criação de um lugar jurídico e tributário mais favorável ao florescimento da cultura cervejeira brasileira.

De fato que: Uma pequena sabedoria e vontade do Estado, poderia gerar um clima onde milhares de empregos e tecnologia agregada, num piscar de olhos e sem nenhum investimento do governo, poderia se instaurar no Brasil gerando também cultura, impostos e hábitos de beber melhor, em menos quantidade. O mesmo acontece com os queijos: tanto potencial e o governo insiste em botar pás-de-cal na forma de exigências sanitárias absurdas, legislação contra, impostos escorchantes, policiamento sem inteligência.

O tema floresceu e amadureceu em blogs, listas, entidades (Procerva-PR) e teve ate o pessoal de Minas e do Sul, que está conseguindo encaminhar o problema de fundo das cervejarias pequenas e micro, (o crescimento e expansão do mercado num território nebuloso e desregulado, com uma demanda galopante e um interesse e um entendimento pífio das autoridades sobre o que é cerveja ou pequena produção) de forma a fomentar e buscar a aproximação do Estado com os produtores e entidades ligadas à pequena produção artesanal, a fim de tentar desembaraçar, esclarecer e agilizar o processo de se estar legal e de criar um território tributário mais fértil às micros e nanos.

Aos poucos vamos evoluindo, criando uma consciência de grupo, e mais para frente, quem sabe, uma escola cervejeira. O momento é propício para a luta pela inclusão e esclarecimentos com a sociedade.

12) PIOR FATO CERVEJEIRO

O clima de terror instalado na cerveja artesanal, com os incipientes eventos cervejeiros sendo assombrados pela sombra negra do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), somado à falta de reação de nossa gente, que a tudo assistiu lamentando e acusando culpados pelo desastre, sendo que na verdade o setor está desregulado, as leis e órgãos públicos não acompanham as novas demandas, e pessoas e instituições saem à caça às bruxas.

A percepção geral de que mais uma vez estamos muito mal servidos de governo, com o dinossauro do Estado (norteados pelas antigas práticas dos grandes conglomerados industriais) nos acossando de um lado, e a falta de liderança e de união na classe micro e caseira do outro. Amedrontada e fugidia, muitas vezes vêm desistindo de procurar seu caminho de legalidade e direito de existir.

Se de um lado a coisa evolui para o crescimento da cultura cervejeira, de outro setores da “ultra direita conservadora e autoritária” radicalizam: O MAPA proíbe as cervejas artesanais de forma impositiva, impostos estão galopantes, e em 2012 teve até proposta de deputado conservador tentando proibir de beber em público na rua.

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