Paladar

Nem só belgas, nem só americanas, muito pelo contrário

14 dezembro 2012 | 15:01 por Roberto Fonseca

Stefaan Soetemans, da Troubadour, durante palestra em São Paulo. (Foto: Roberto Fonseca/Estadão)

 

“Somos cervejeiros belgas atípicos. Não queremos copiar. A maioria dos (antigos produtores) belgas  olha só para o que o outro faz. Foi assim com a witbier, depois com a kriek. Queremos fazer algo diferente. Nossa Blonde é uma cerveja mainstream, mas as outras são difíceis de enquadrar em estilos”. Essa é a resposta de Stefaan Soetemans, da Cervejaria The Musketeers, quando questionado sobre se os rótulos produzidos por eles sob a marca Troubadour não têm uma nítida influência norte-americana. Ele está no Brasil esta semana – mais especificamente no Rio, após passagem por São Paulo – divulgando a marca, que começou a ser vendida nas lojas do The Ale House (ex-Beer Paradise).

O sexteto disponível por aqui, porém, tem sinais de influência dos EUA. A Magma é uma Imperial IPA; a Westkust, uma Imperial Black IPA, inspirada na divisão de “East Coast” e “West Coast” das IPAs norte-americanas. “Como a Bélgica só tem uma costa, a oeste, decidimos fazer essa homenagem”, diz Stefaan. Apesar disso, ele afirma que a intenção da produção não é buscar receitas extremas. “A própria Westkust é uma Black Imperial IPA, mas o objetivo é o equilíbrio.” No caso da Magma, ele declara que o objetivo era “unir o melhor das IPAs americanas com as tripels belgas”. E ainda classifica outro rótulo da marca, a Obscura, como “um misto entre a brown ale belga e as porters e stouts inglesas”.

Segundo Stefaan, o mercado de cervejas de larga escala locais na Bélgica tem perdido espaço há anos pela concorrência com as pilsners. “Claro, (as pilsners) são cervejas com menor teor alcoólico e mais fáceis de se beber. Mas há, por outro lado, um aumento no interesse de pessoas por cervejas especiais e diferentes. O número de clubes de cerveja na Bélgica cresceu muito nos últimos anos, há praticamente um por cidade. E marcas como a Leffe, por exemplo, já não são mais vistas pelos belgas como tão especiais há um bom tempo.” Ele diz, porém, que há uma diferença entre a Troubadour e outros pequenos produtores que se destacam no cenário local. “Há algumas cervejarias fazendo edição limitada atrás de edição limitada e cobrando caro por isso. Não é nossa ideia, queremos que nossas marcas estejam no mercado de forma permanente.”

A Musketeers começou, oficialmente, em 200o – a Blonde foi produzida pela primeira vez um ano antes  disso. Mas, segundo Stefaan, ter uma microcervejaria não era o plano inicial dos quatro amigos – hoje, restaram dois na sociedade; além dele, Kristof De Roo. “No começo, queríamos apenas fazer cerveja para o nosso consumo. Produzíamos 20 a 30 caixas em levas feitas em uma garagem”, diz. “Mas a família e os amigos também queriam tomar a cerveja e ampliamos a produção. Só que, a partir daí, os amigos dos amigos queriam comprar a cerveja, e alguns bares também queriam revendê-la. Ficamos com medo de vender cerveja por baixo dos panos e tivemos de decidir entre parar a produção ou abrir uma empresa. Escolhemos a segunda opção.”

Com a cervejaria regularizada, surgiram outros desafios. “Para bancar os impostos e não ter de praticamente pagar para fazer cerveja sem ter o retorno equivalente, tivemos de ampliar os locais de venda e também a produção.” Hoje, a capacidade anual da cervejaria gira entre 4 mil e 5mil hectolitros, e deve ser ampliada para 7mil ou 8mil hectolitros em 2013.  No início, a cerveja também se chamava Musketeers, mas o nome foi depois alterado para Troubadour, ou trovador. “Cerveja e música fazem o coração humano feliz”, diz Stefaan, citando a inscrição em latim no logo da cervejaria.

O The Ale House começou a vender os seis rótulos da marca, em garrafas de 330ml e 750ml. Todos, menos a Spéciale e a Westkust, também são comercializados em chope. Os preços das garrafas variam de R$ 21,90 (330ml) a R$ 60 (750ml) e do chope, de R$ 14 a R$ 19.

Em tempo: as fotos que fiz com o celular para a avaliação dos copos ficaram muito ruins, devido à baixa resolução da câmera e ao ambiente com pouca iluminação. Por isso, excepcionalmente, usarei as fotos de divulgação da cervejaria.

DIRETO AO PINT

Troubadour Spéciale (Bélgica, 330ml)

Estilo: Belgian Ale

Teor alc.: 5,7%

Cor: castanho claro, avermelhado, translucidez média a alta

Espuma: Branca, média formação e duração

Aroma: Malte, biscoito, adocicado, leve frutado

Sabor: Malte, biscoito, leve adocicado inicial, depois final seco e de malte/biscoito. Frutado muito sutil. Amargor médio, corpo médio a baixo, carbonatação média a alta.

Nota 3,2 em 5Cerveja “básica”, mas com final bem seco, bom amargor e base de malte. Poderia ter frutado e condimentado mais presentes no aroma e sabor.

Troubadour Blond (Bélgica, chope)

 

Estilo: Belgian Ale

Teor alc.: 6,5%

Cor: Dourado claro, translucidez média

Espuma: Branca, alta formação e duração

Aroma: Malte, leve cítrico e condimentado (nota de cravo é a mais presente)

Sabor: Malte, leve cítrico, floral, condimentado (cravo), adocicado moderado, assim como o final seco, leve picante. Corpo médio, amargor idem, carbonatação média a alta.

Nota 3,5 em 5 – Boa blonde, fácil de beber. Mas condimentado também poderia estar um pouco mais presente

 

Troubadour Magma (Bélgica, chope)

Estilo: Imperial IPA

Teor alc.: 9%

Cor: castanho avermelhado, translucidez baixa

Espuma: Branca, média a alta formação e média duração

Aroma: (acima de 12ºC) Malte, adocicado, leve malte caramelo, lúpulo cítrico bem presente (maracujá)

Sabor: (acima de 12ºC) Malte, adocicado, leve nota de malte caramelo, lúpulo cítrico (maracujá), leve picante de álcool (gera calor moderado na boca), corpo denso, carbonatação média a baixa, amargor médio, final seco.

Nota 3,7 em 5 – Boa presença de lúpulo cítrico; a cerveja também esconde bem o álcool que tem. Poderia apenas ser um pouco mais seca e um pouco mais amarga.

 

Troubadour Obscura (Bélgica, chope)

Estilo: Belgian Strong Ale

Teor alc.: 8,2%

Cor: castanho bem escuro, brilho rubi, translucidez quase zero

Espuma: bege clara, média formação e duração

Aroma: Leve café, toffee, adocicado, licorosidade aparente, alcaçuz.

Sabor: Malte, toffee, alcaçuz, licorosidade, final de malte torrado suave, bom corpo,  amargor médio a baixo, carbonatação idem.

Nota 4 em 5 – Apesar de não ter caráter condimentado de uma belgian strong ale, a cerveja tem uma bela e complexa base de malte. É a mais interessante do grupo.

Troubadour Imperial Stout (Bélgica, chope)

Estilo: Imperial Stout

Teor alc.: 9%

Cor: Preto, sutil brilho rubi, translucidez quase zero

Espuma: bege, média formação e média a baixa duração

Aroma: Malte torrado, café, algo de toffee.

Sabor: Adocicado inicial, depois malte torrado, café, leve licoroso e toffee, algum esmalte. Corpo denso, amargor médio a baixo (sustentado em parte pelo malte torrado), carbonatação média.

Nota 3,7 em 5 – Imperial Stout interessante, com boa base de malte e corpo denso. 

Troubadour Westkust (Bélgica, chope)

Estilo: Black IPA (o produtor a define como Black Imperial IPA)

Teor alc.: 9,2%

Cor: preto, translucidez quase zero, mostra um leve reflexo rubi contra a luz

Espuma: bege clara, média formação e duração

Aroma: Malte torrado, café, lúpulo (cítrico/herbal?) muito sutil.

Sabor: Malte torrado, café, leve lúpulo herbal/cítrico, final seco e de leve torrado. Corpo denso, álcool gera calor moderado na boca, amargor médio (potencializado pelo malte torrado), carbonatação média.

Nota 3,5 em 5 – Boa base de malte, mas a lupulagem ficou muito sutil no aroma e no sabor para o que se espera de uma Black IPA, “estilo” de forte tendência norte-americana. Amargor também deveria ser mais potente.

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