Paladar

O caminho está só no começo

07 março 2011 | 14:57 por Roberto Fonseca

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Leuven Dubbel (Brasil, 750ml)

Quem produz: Cervejaria Leuven

Quanto custa: cerca de R$ 55

Estilo: Ale/Belgian Dubbel

Teor alcoólico: 8%

Cor: Castanho escuro, translucidez média a baixa

Espuma: Branca, média formação e alta duração, cremosa

Aroma: Malte, condimentado, cítrico, nota muito suave de chocolate, algo frutado ao fundo, leve tostado/toffee

Sabor: Malte, lúpulo, condimentado, final seco, amargor médio para o estilo, corpo médio, nota alcoólica bem perceptível, carbonatação média a alta

Nota 3,7 em 5 – É a melhor cerveja do trio da Leuven. Bela espuma e bom aroma condimentado. Mas poderia ter um pouco mais de residual de malte e notas mais presentes de toffee, frutas secas ou caramelo para equilibrar o condimentado.

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Leuven Golden Ale (Brasil, 600ml)

Quanto custa: cerca de R$ 16

Estilo: Golden Ale

Teor alcoólico: 5,5%

Cor: Dourado escuro, translucidez média

Espuma: Branca, média a baixa formação, baixíssima duração na amostra em questão (degustada em 6/1/2011)

Aroma: malte, biscoito, cítrico e condimentado muito suaves, adocicado destacado

Sabor: Malte, adocicado inicial, lúpulo suave (herbal?), final seco moderado e de malte, um quê condimentado, leve sinal de oxidação metálica na amostra. Residual doce forte apesar do final seco, amargor médio a baixo, corpo médio, carbonatação média a baixa

Nota 2,7 em 5Cerveja podia ser mais seca e menos adocicada, além de ter notas condimentadas mais pronunciadas. Carbonatação baixa  e espuma quase ausente interferem tanto no visual quanto no drinkability

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Leuven Red Ale (Brasil, 600ml)

Quanto custa: cerca de R$ 16

Estilo: Red Ale

Teor alcoólico: 6%

Cor: Castanho-avermelhado, translucidez média a baixa

Espuma: Branca, média formação, baixa duração

Aroma: Malte tostado, biscoito, toffee moderado, adocicado, nota muito suave de chocolate (?), um quê muito fraco de frutas secas

Sabor: Malte, adocicado moderado, torrado, final bem seco e de grãos, nota de álcool bastante presente, corpo médio a baixo, amargor médio, potencializado pelo torrado, carbonatação média

Nota 3 em 5Um pouco melhor do que a Golden (a espuma dura um pouco mais), mas, ao contrário dela, poderia ter um residual de malte/adocicado/corpo ligeiramente maior para equilibrar o álcool e o amargor (embora o último não seja intenso). Destaque para a sutil nota de chocolate ao fundo do aroma

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Com uma população de aproximadamente 364 mil habitantes, Piracicaba é, possivelmente, dona da melhor relação população/microcervejaria do Estado de São Paulo. Inaugurada no final de 2010, a Cervejaria Leuven se junta à já tradicional Cevada Pura e à Dama Bier, levando à equação fermentada a uma proporção de um produtor para cada 121 mil habitantes e uns quebrados. A catarinense Blumenau fica bem à frente, com seus 300 mil habitantes e pelo menos três micros (Eisenbahn, Bierland, Wunderbier e, salvo engano, a pequena Land Brauer).

Voltando a São Paulo, a Leuven, cujo batismo se inspira na cidade belga homônima (sede da AB-Inbev), foi criada por Alexandre Godoy, e tem como investidor seu irmão Fernando. O primeiro cuida das receitas (junto com o Luís, gerente de produção) e tem no currículo atuação na Fermentec, empresa piracicabana que, como sugere o nome, é da área de fermentação. O segundo cuida das vendas. No site da cervejaria, Alexandre conta que, nos anos 80, já produzia bebidas alcoólicas a partir de receitas deixadas pelo bisavô, Octávio Teixeira Mendes. Ele escolheu a área como profissão, formou-se engenheiro agrônomo e fez mestrado em Edimburgo (Escócia), na área de processos de  cervejaria e destilação.

A cervejaria começou com três receitas: Golden Ale, Red Ale e Dubbel, o que, de fato, é de tirar o chapéu. Embora o Brasil tenha já há algum tempo mais de 100 microcervejarias (creio beirarmos as 200 hoje, se contadas algumas regionais de maior porte), raríssimos são os produtores que se arriscam a sair dos manjados “pilsen” (na verdade uma lager um pouco melhor que as industriais, em geral puro malte), “escura” (dunkel ou schwarzbier mais puxada ao doce, sendo que, em alguns casos, pasme, usam corante caramelo, como as indústrias) e, com sorte, “weiss”. A ousadia da Leuven é ainda maior se considerarmos que o estilo “pilsen”, carro chefe de dez em dez cervejarias nacionais, foi deixado de lado. A proposta, segundo o Alexandre, é trabalhar com cerveja, não chope, e em pontos de venda específicos, pelo tamanho atual da produção (estimada em 8 mil litros mensais).  A apresentação também ajuda, com um rótulo bacana e uma garrafa de rolha (a Dubbel).

As receitas, porém, ainda careciam de alguns ajustes quando as degustei, no começo do ano. A Golden tinha um problema de baixa formação de espuma (segundo o Alexandre, já resolvido) e apresentou doçura acima do esperado para o estilo, talvez por optar pela receita puro malte em vez de fração de candi sugar (que, se bem utilizado em cervejas de inspiração belga, confere teor alcoólico sem “pesar” tanto na cerveja quanto o malte). Já a Red Ale carecia de mais complexidade de malte (correndo o risco de parecer um pouco Pedro de Lara no júri do Silvio Santos). A Dubbel, como descrito acima, é a melhor do trio, mas também poderia ter um pouquinho a mais de malte – em sua faixa de preços, porém, acaba ficando em desvantagem contra algumas belgas de rolha à disposição por aqui.

Noves fora, após a degustação fiquei com a impressão de que as receitas precisam de ajustes, sim. Mas a cervejaria parece estar no bom caminho, pela inovação dos estilos e pelo foco em um público mais segmentado, sem querer preencher, com produtos próximos ao “mainstream”, lacunas onde as grandes cervejarias não chegam.

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