Paladar

Os “reis” do lúpulo vieram ao Brasil

25 junho 2009 | 18:24 por Roberto Fonseca

Algumas das cervejas servidas no Frangó

Embora não seja muito afeito a esse tipo de definição, tenho de admitir que foi um evento mágico. Logo depois do segundo dia da Brasil Brau, na noite de quarta, o Frangó foi palco de um show cervejeiro à parte. A Brewers Association, entidade dos Estados Unidos que reúne produtores cervejeiros dos mais diversos portes, e a Hop Growers Association, dos plantadores de lúpulo, apresentaram a convidados mais de uma dúzia de diferentes produções do país do Tio Sam.

Logo nas primeiras cervejas, outro pensamento foi inevitável: o bordão “os americanos são muito melhores”, de um dos personagens do Sobrinhos do Athaíde, se aplica bem em pelo menos uma coisa: a forma como nossos vizinhos lá de cima sabem usar os lúpulos na cerveja. Sentir o aroma de uma IPA produzida por lá é uma experiência totalmente diferente; além de intenso, o lúpulo aparece em nuances cítricas. Dependendo do caso, é possível sentir tons cítricos, que vão da laranja ao abacaxi, passando por herbal e floral. Já temos no Brasil muito boas cervejas lupuladas, mas creio que ainda falta o “ajuste fino” que os EUA já atingiram.

Ficou com água na boca?

Como “legado” do encontro, fica a esperança de que a missão da Brewers Association no Brasil, destinada a mostrar a cerveja americana a novos mercados, tenha como frutos possíveis importações de lá para cá. Hoje, infelizmente, nem a Budweiser que chega aqui é dos EUA – ela é produzida na Argentina. Abaixo, os comentários sobre as cervejas que consegui provar no evento:

Stone Brewing Arrogant Bastard Oaked: para este blogueiro, uma das ‘top 3’ da noite. Strong American Ale feita em Escondido (curioso nome), na Califórnia, e maturada com chips de carvalho; tem 7,2% de teor alcoólico. Aroma cítrico destacado, com abacaxi, malte e adocicado. No sabor, há cítrico forte, percepção de madeira, final bastante seco e amargor alto. Apesar disso, bastante equilibrada pelo malte.

O’Dell India Pale Ale: cervejaria de Fort Colins, no Colorado, cujo simpático dono Doug O’Dell estava no evento. Quando falei das nuances de lúpulo, me referia mais especificamente a esta IPA, onde tive a impressão, além do cítrico variado – a mim pareceu tangerina, a outros, grapefruit -, de flor de lúpulo no aroma. Também ‘top 3’.

Great Divide Yeti Imperial Stout: já viu uma cerveja com 100% de afinidade com o estilo no Ratebeer? Pois esta aqui, de Denver, no Colorado, é uma. Não aparenta seus 9,5% de álcool e tem uma das melhores texturas que já provei, aveludada. Por trás do chocolate e do malte torrado há um lúpulo bastante presente, reflexo das 75 unidades de amargor da cerveja, equivalentes a sete vezes a marca de uma pilsen comum. Esta forma a trinca das minhas melhores no evento. De quebra, ainda combinou muito bem com a sobremesa de chocolate servida no Frangó.

Samuel Adams Boston Lager: “Pô, Bob, mas com tantas cervejas diferentes você foi logo na mais conhecida?”, poderiam perguntar os mais ansiosos. Calma: o destaque para a cerveja de Boston – além da fama já adquirida do produtor – é pelo fato de como uma produção “básica”, ou “carro chefe” de uma cervejaria artesanal, pode ser boa e interessante sem necessariamente correr risco de encalhar. Tem bom equilíbrio entre lúpulo, malte e notas de caramelo, embora não seja tão “extrema” quanto algumas de suas colegas de evento. Um bom exemplo a ser seguido até pelas micros daqui.

Anderson Valley Oatmeal Stout: produzida pela microcervejaria homônima de Boon ville, na Califórnia, é uma stout que leva aveia em sua composição – geralmente, o objetivo da adição do cereal é dar suavidade à cerveja. Tem bom equilíbrio entre o tostado do malte e notas de chocolate, mas senti falta de um pouco mais de malte torrado para o estilo.

Firestone IPA: A cria da cervejaria californiana também fez sucesso no stand destinado às norte-americanas na Brasil Brau. Tem notas de lúpulo/cítricas um pouco mais suaves que as de suas colegas.

Saranac: a IPA da Matt Brewing Company, de Nova York, também segue a linha mais “suave” (nos padrões norte-americanos, claro rs). Ainda assim, é mais amarga que a grande maioria de nossas produções comerciais.

Flying Dog Old Scratch Amber Lager: segundo o Ratebeer, pertence ao estilo California Common, originado no século 18, em produção que usava leveduras lager (de baixa fermentação), mas temperaturas mais elevadas, o que gera notas frutadas mais típicas em uma ale. A cria da cervejaria de Maryland tem bom aroma de malte, caramelo e algum lúpulo), mas não percebi notas frutadas muito destacadas.

Rogue Kells Irish Style Lager: segundo o fabricante, usa fermento tcheco para pilsen, mas outros tipos de malte que a definiriam mais como premium lager. Não gosto de ser crítico demais, mas é uma cerveja sem grandes destaques, embora bem acabada.