Paladar

Paulistânia: na montanha-russa

07 dezembro 2009 | 13:45 por Roberto Fonseca

Ficha Paulistânia

Confesso que fui da surpresa à decepção à surpresa (moderada) e, por fim, a uma certa frustração com esta cerveja. Explico por partes:

Capítulo 1, A surpresa: há alguns dias, como já havia escrito, recebi a informação de que a importadora Bier & Wein estava para lançar uma cerveja própria. Quer dizer, feita por uma cervejaria já existente, a Casa di Conti (da Conti Bier) mas seguindo especificações da empresa. Trata-se de uma modalidade relativamente nova no Brasil (apesar de outra importadora acalentar, há tempos, a mesma ideia), mas bem conhecida na Europa. No Velho Continente há, por exemplo, uma Guinness feita para o mercado belga, a pedido de um distribuidor local, a John Martin. Na Itália, há uma loja chamada Johnny’s Off License que “contratou” duas imperial stouts, feitas pela Montegioco e pela Birra del Borgo. Logo, a expectativa era grande, ainda mais porque a Bier & Wein (ou simplesmente BUW) tem uma carta bem variada de cervejas, incluindo uma lambic (a Boon) e as excelentes Unibroues, canadenses.

Capítulo 2, A decepção: entre o convite para o lançamento e o fato em si, a BUW manteve segredo sobre qual seria a receita da cerveja, informando apenas tratar-se de uma surpresa. Numa mistura de Poliana com São Gambrinus, achei tratar-se de uma receita inovadora, talvez com um ingrediente nacional, talvez uma “homenagem” a um estilo quase esquecido. Água nos dois casos: era mais uma “premium lager”, receita que já tem farta representação nas gôndolas de mercados e empórios, e que engloba desde Bohemia e Therezópolis até marcas menos conhecidas, como a recém-chegada Kromus (sobre a qual falo mais tarde). A questão da escolha de uma “premium lager” já gerou muita discussão no post anterior. Motivações à parte, confesso que foi um pouco frustrante, e nem o fato de a cerveja ter uma bela apresentação com doze rótulos diferentes (ilustrados por fotos de arquivo da Agência Estado) me alegrou muito.

Capítulo 3, A surpresa (moderada): Nenhuma análise ou debate, porém, é completa sem a análise do copo. E aí a Paulistânia quase me convenceu. O aroma inicial é bem interessante: creio que, das lagers ditas premium, é a que mais tem lúpulo perceptível (com notas cítricas)

Capítulo 4, a Certa Frustração: A alegria, porém, dura pouco: na sequência, em vez de um aroma pronunciado de malte/grãos/biscoito, vem aquele ar típico de cervejas industrializadas. Até hoje não sei exatamente o que confere essa característica a uma cerveja; creio que exista relação com a presença de antioxidante e estabilizante na receita, como é o caso da Paulistânia. O lúpulo perceptível também no sabor não conseguiu remediar a “guinada para baixo” no meu paladar. Sinceramente, não entendo o porquê de se usar aditivos químicos em uma cerveja mais bem trabalhada (além da evidente razão de prolongar sua vida de prateleira, claro). Creio que, sem eles, a Paulistânia ganharia em qualidade. Ou, ao menos, poderia se diferenciar das demais cervejas do segmento.

Epílogo: A Paulistânia é melhor do que a maioria das premium lagers do mercado, e o preço até é convidativo (R$ 4,90 em mercados e R$ 7,90 em bares). É, de fato, mais satisfatório tomar uma do que as “pilsens” industriais de sempre, cada vez mais insossas. Mas, para mim,vale o “sacrifício” de aplicar o mesmo dinheiro em uma outra artesanal brasileira ou até uma importada, mesmo que em menor volume, que fuja do conceito de premium lager. Acho que é a lógica do: “se não mudam os outros, mudo eu”. Fosse a mesma a linha de “trabalho” dos fãs de boas cervejas, o mercado mudaria bem mais rápido.