Paladar

Quando é bom olhar pelo retrovisor

21 novembro 2011 | 14:41 por Roberto Fonseca

Fuller’s Past Masters XX Strong Ale (Inglaterra, 500ml)

Produtor: Fuller’s Brewery. Importada pela Boxer, mas esta receita não está disponível no Brasil

Teor alc.: 7,5%

Cor: Castanho claro, translucidez média a alta

Espuma: Pérola, média a alta formação e duração

Aroma: Malte caramelo, leve tostado, lúpulo herbal, amadeirado, algo picante; álcool moderado

Sabor: Malte caramelo, frutado suave, lúpulo herbal/amadeirado, leve picante; álcool médio, gera calor moderado na boca; final seco, de lúpulo e malte tostado. Corpo médio a alto, amargor médio e carbonatação idem

Nota 4,2 em 5Boa cerveja, com belo balanço entre malte e lúpulo, além de final seco, boa nota picante e álcool bem coberto, apesar dos 7,5%

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Quando um mandatário diz que “não governa olhando no retrovisor” – jargão já gasto na política -, pode ter certeza de que é porque ele já engatou a ré e “atropelou” o antecessor no cargo, olhando bem no espelhinho antes disso. Apesar do aspecto negativo da expressão, foi a que me veio logo à cabeça quando degustei a primeira receita da série Past Masters da Fuller’s. Trata-se de um projeto da cervejaria londrina para “resgatar” receitas antigas, registradas desde 1845 no livro oficial da fábrica. Em tal empreitada, eles foram buscar consultoria do historiador cervejeiro “maluco” – palavras do próprio –  Ron Pattinson, para dar dicas de como eram as produções de cerveja inglesas no Século 19. A estreia do projeto foi com a XX Strong Ale, fórmula que completou 120 anos em setembro de 2011. Já foi lançada, também, a Double Stout, com aproximadamente 7,4%. Para saber mais – e ver um vídeo bem bacana sobre a iniciativa -, clique aqui.

Enquanto apreciava a cerveja, que com suas notas de malte caramelo, herbais, amadeiradas e leve picante combinou bem com um medalhão de filé ao molho de damasco (da lavra da Gi), também me ocorreu a pergunta: “Mas e os nossos Past Masters?” Pois é, que cervejaria brasileira tem receitas históricas boas, que mereçam ser reproduzidas nos dias de hoje? Antes que alguém diga algo, já adianto que não vale citar a receita “mais antiga”, nem aquela “mais forte e amarga que as outras”. Não são mais as mesmas cervejas, por mais que a publicidade e os velhos hábitos tentem disfarçar. Uma vez ouvi uma expressão para definir marcas extintas que haviam sido “reanimadas” por outros produtores: defunct beers. Talvez se aplique nesse caso.

Há muitas receitas do passado deixadas de lado pela história da indústria cervejeira moderna. Quem tem mais de 40 anos certamente deve se recordar de marcas que foram extintas com fusões ou encerramento de cervejarias. Espero que estejam bem protegidas nos arquivos de algumas grandes empresas atualmente. Há, ainda, muitas construções bastante bonitas que já abrigaram cervejarias e ou mudaram de uso e foram preservadas – como a belíssima fachada da fábrica da Brahma em Porto Alegre (antes Cervejaria Continental, antes Cervejaria Bopp), hoje parte de um shopping e centro cultural – ou estão ainda sem ocupação, como a Kaiser e a Antarctica, ambas em Ribeirão Preto. Melhor sorte tiveram alguns dos mestres-cervejeiros que deixaram fábricas antigas e encontraram abrigo em microcervejarias, onde podem trabalhar com bom padrão de qualidade e, em alguns casos, até romper com a rotina de estilos e criar receitas novas.

Esse tipo de crítica, embora tenda a penalizar mais os antigos produtores e seus sucessores atuais, também pode e deve ser aplicado a receitas que foram criadas num passado recente e depois abandonadas, dando lugar a “novidades” que se limitam a embalagens novas ou slogans que pouco ou nada têm a ver com o líquido fermentado. Estamos caminhando a boa velocidade para um futuro cervejeiro melhor, mas não dá para esquecer o passado fermentado do Brasil, para o bem e para o mal.

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