Paladar

Riebeck: ‘Nein, nein, nein!’

10 fevereiro 2012 | 13:05 por Roberto Fonseca

Riebeck Premium Pilsener (Alemanha, 500ml)

Produtor: Cervejaria Braugold, de Erfurt (Alemanha)

Tipo: Lager / German pilsner

Teor alc.: 4,9%

Cor: Dourado escuro, translucidez alta, límpida

Espuma: Branca, de média a alta formação e média duração

Aroma: Malte (biscoito/grãos), leve nota de lúpulo herbal

Sabor: Malte (grãos), leve adocicado inicial, seguido de amargor médio a alto para o estilo e final seco. Corpo médio e carbonatação média a alta.

Nota 3,2 em 5: Representa o estilo german pilsner sem “comprometer”, mas poderia ser ainda mais seca – e ter um pouco mais de lúpulo no sabor, mas dentro do padrão do estilo (ou seja, sem exageros). Refrescante.

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Uma das paradas das minhas férias em 2011 foi Berlim. Desnecessário dizer que fiz um mapeamento prévio de brewpubs, cervejarias e bons bares locais. E também das duas principais lojas da nobre bebida que existem na cidade, cada qual em uma ponta da capital alemã. Uma delas é a Bier Spezialitäten Laden, um pequeno ponto comercial instalado na Karl-Marx Allee. Que, aliás, vale o passeio por si só, com seus prédios monumentais que serviam de “cartão postal” para a Berlim (e a Alemanha) Oriental mostrar seu modo de vida ao lado Ocidental. Fomos – eu, minha esposa e uma amiga – parar lá depois de visitar a East Side Gallery, pedaço do muro que sobrou em pé. Tinha errado o horário de abertura do Hops&Barley, brewpub que fica mais ou menos ali por perto. Para não ser “linchado” pela falha – estávamos num ponto distante da cidade, sol a pino e sem um local conhecido para tomar uma cerveja -, paramos em uma tendinha da HB e, depois, fomos ao número 56 da Karl-Marx Allee.

Não sei se é a loja que é muito pequena ou se a quantidade de cervejas que é muito grande para o espaço. O fato é que o local é abarrotado de garrafas, bolachas, copos, cestas, bandejas e outros colecionáveis cervejeiros. A peça mais “rara”, porém,  está atrás do balcão: o proprietário (mea culpa não ter pego o nome dele, mas vocês entenderão o porquê). Um senhor de idade, gorducho, com colete verde e inglês “chucrutônico” – a versão alemã e politicamente incorreta do “macarrônico” – que, apesar de carrancudo, tentou ajudar.

O problema é que a loja, além de abarrotada, não segue lógica alguma na distribuição das cervejas alemãs – as importadas estão no canto, em menor quantidade, e é mais fácil analisá-las. Logo descobri, porém, que o problema maior não era esse. Perguntei ao dono se ele tinha Gosebier, a cerveja ácida ligada às cidades de Goslar e Leipzig. A expressão de seu rosto me fez ter certeza de que ele já as havia provado – e odiado. “Você quer tomar isso? É cerveja estragada. Não, não.” E foi “desancando” as cervejas da minha lista, tiradas das top do Ratebeer.com. Disse que ia me dar boas cervejas e separou quatro german pilsners. “Estas sim são muito boas.”

Teimoso, escolhi só uma das quatro e me pus a fuçar as prateleiras, caixas e afins atrás de cervejas da lista. Achei algumas, como um exemplar de german porter e a famosa Kulmbacher Eisbock. Quando as colocava no balcão, o sujeito as olhava e abanava a cabeça, desconsolado, comentando algo em alemão com o amigo. Compra feita – com direito a uma cestinha de vime e algumas bolachas dadas de brinde pelo velhinho, que no final era um sujeito mal-humorado, mas boa praça -, seguimos com o roteiro.

Só quando voltei a São Paulo  tomei a tal pilsen que ele tinha recomendado – é a cerveja analisada aí em cima. Boa, simpática, mas normal. Achei curioso que, com um gosto tão “objetivo” – capaz de considerar que apenas um estilo poderia valer a pena para um visitante conhecer -, ele tivesse uma loja com tantas cervejas diferentes. E, com isso, fiquei fã do alemão carrancudo. Tomara que a loja resista às mudanças do mundo cervejeiro tanto quanto os prédios da Karl-Marx Allee.

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