Paladar

Slava Pils: a distância da chaminé e o gás

13 março 2010 | 11:00 por Roberto Fonseca

Ficha Slava Pils

A espera pela chegada foi longa e teve direito, nesse meio tempo, a tentativa um tanto excêntrica de envio tempo, por malote aéreo em caixa refrigerada e com entrega no mesmo dia, para manter a temperatura baixa – o que levava um vasilhame de um litro a custar desafiadores R$ 140. Mas, finalmente, o degustador paulistano que ainda não se aventurou num tour cervejeiro pelo Rio Grande do Sul pode ter acesso às receitas de um dos mais conhecidos produtores locais, a Abadessa.

Localizada em Pareci Novo, a mais de 100km de Porto Alegre, a cervejaria leva no nome uma homenagem à abadessa alemã Hildegard Von Bingen que, reza a lenda, foi a primeira mulher a utilizar lúpulo na produção de cerveja, lá pelos idos do Século 11. O responsável pela produção é Herbert Schumacher, que tem no currículo passagem pela cervejaria alemã Spaten. São três marcas fixas – a Slava, uma pilsen; a Helles e a Export. Todas são lagers, ou de baixa fermentação. Há, ainda, produções sazonais, como a Emigrator Doppelbock, no inverno, a Abadessa Hildegard Von Bingen Weizenbier (quero ver alguém repetir esse nome claramente depois de uns copos de cerveja…), com periodicidade indefinida, e, mais recentemente, uma Altbier.

As cervejas da Abadessa são bem cotadas em Porto Alegre e região por dois motivos. Um é o vasilhame: em sifões de um ou dois litros importados da Alemanha, realmente chamam a atenção na mesa. O outro é a qualidade: realmente são boas receitas, bem executadas – lembro-me de apenas uma ocasião em que a cerveja degustada tinha falhas, entre pouco mais de meia dúzia de provas. Cabe, aqui, uma informação importante: as cervejas da Abadessa não são pasteurizadas, permanecendo “vivas”, como gostam de dizer os gaúchos. Por isso, devem permanecer refrigeradas o tempo todo, para evitar deterioração acelerada, assim como o chope. Recordo-me que, em visita às cervejarias gaúchas, ouvi um comentário que voltaria à baila no futuro. Era mais ou menos assim (em livre interpretação minha): “Os antigos cervejeiros alemães diziam que a cerveja podia ser consumida em boas condições em locais de onde se pudesse ver a chaminé da fábrica. Mais longe que isso, é problema.” Tradução: se levar a cerveja para muito longe, ela começa a se deteriorar com as condições de transporte, por isso é melhor tomar a cerveja o mais próximo possível da cervejaria, como garantia de que sempre seja a mais ‘fresca’ possível.  (EM TEMPO: como o Schumacher disse que a frase não é dele, alterei parte do parágrafo; mas que ouvi esse ditado lá, ouvi).

Pois bem: há alguns dias, passaram a ser trazidas a São Paulo duas das receitas, em garrafas de 750ml com tampa de porcelana: a Slava e a Export. O cuidado com o transporte é evidenciado pelas informações do distribuidor: além do transporte em caminhão refrigerado pelos mais de mil quilômetros que separam Pareci Novo da capital paulista, a entrega porta a porta do primeiro lote foi feita com as garrafas em manta refrigerada. A degustação das duas no sábado passado, porém, faz lembrar que a questão da chaminé se faz presente até hoje.

A Slava que saiu da garrafa por mim degustada manteve quase todas as características da cerveja que conheci na fábrica: bom aroma e sabor de malte e bela lupulagem cítrica, que a credenciam como uma das melhores pilsens nacionais (creio que ficaria apenas atrás da Tcheca, produzida pela Bamberg, de Votorantim, com os cervejeiros caseiros da Biertruppe). Mas atente para o “quase”: faltou a espuma, que não se formava no copo. A princípio, achei que fosse a baixa temperatura da garrafa, a fechei de volta e esperei alguns minutos para nova tentativa. A espuma melhorou (como se vê na foto), mas não muito. Há boa chance, porém, de ter sido problema de uma garrafa, já que, em nova visita ao local de degustação, o bar Aníbal, a mesa vizinha pediu a Slava e ela formou boa espuma no copo. O mesmo problema de espuma eu tive com a Export – que parece ter perdido um pouco de suas outras características na viagem. Entre as duas, recomendo preferencialmente a degustação da Slava, até como contraponto ao que se produz em termos de “Pilsen” por aí.

É de fato uma boa notícia a chegada das Abadessas, mas torço para que elas consigam fazer suas próximas viagens sem sobressaltos. Senão, terei eu de me deslocar até um local onde possa degustá-las contemplando o telhado da fábrica, que, salvo engano, não tem chaminé.

A Abadessa tem seu depósito em São Paulo na Rua Pedroso de Camargo, 254, na Chácara Santo Antônio. O telefone para informações é o (0xx11)  8494-0490. No local, cada garrafa custa R$ 18 mais R$ 6 de caução pelo vasilhame. O atentimento ao público ali é feito aos sábados, das 9h ao meio-dia. Há mais oito locais que as comercializam na capital paulista: AníbalEmpório Alto dos Pinheiros, Laus Special Beers, Leôncio, Melograno, Pier 1327, Quick Pizza e Tedesco Pizza Bar. Há, ainda, o Bar do Freguês em São Bernardo. O preço estimado das garrafas é de R$ 20 a R$ 25 para consumo no local.

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