Paladar

Primator: a melhor do mundo de cada um

04 março 2009 | 21:44 por Roberto Fonseca

Atenção: se você é altamente influenciável por opiniões alheias, evite ler este blog antes de consumir cervejas. Mas, pensando bem, a leitura das críticas aqui publicadas antes das degustações pode prevenir efeitos colaterais (e financeiros) provocados por exemplares da nobre bebida que, digamos, não são tão nobres assim. A piada é inevitável, mas o tema também merece debate: algumas cervejas têm o poder de, literalmente, “rachar” opiniões dos especialistas.

Um dos casos mais interessantes que conheço é o da francesa Adelscott, que possui malte defumado em sua composição. O finado jornalista Michael Jackson, especialista na nobre bebida, por exemplo, gostava dela. Mas a opinião não é unânime no Ratebeer, site que permite aos degustadores postarem suas avaliações sobre cada marca disponível no mercado. Entre os provadores mais tarimbados (em número de avaliações), há quem defenda a cerveja e quem não a suporte. Da minha parte, provei a cerveja e… bem, a latinha ficou bonita na minha estante (rs).

Lembrei dessa história justamente quando degustava as cervejas tchecas da Primator, que são importadas para o Brasil, desde o fim do ano passado, pela Import Beer . Duas delas foram eleitas pela revista especializada Beers of the World como “Melhor Lager do Ano” (a Exklusiv) e “Melhor Lager Escura do Ano” (a Premium Dark) em 2008. “Nossa, uma lager melhor do que a Pilsner Urquell? E uma lager escura superior à Paulaner Salvator ou à mítica dark lager do U Fleku, também tcheco? Deve ser um orgasmo gustativo”, pensei de cara. Para não sofrer de “avaliação precoce”, resolvi esperar uns dias antes de provar as cervejas. Cogitei tomar um banho gelado ou visualizar mentalmente a cara – e os discursos – dos pré-candidatos à Presidência em 2010 para esfriar os ânimos, mas desisti, avaliando que a última hipótese poderia causar danos irreversíveis às áreas do cérebro envolvidas na degustação.

Aproveitei o domingão de calor para degustar as duas, no almoço e no jantar. A primeira foi a Exklusiv. O visual realmente é impressionante: uma bela cor dourada e espuma abundante. Já o aroma deixou um pouco a desejar, pela falta de duração – e, até, de um pouquinho de lúpulo a mais. O sabor é equilibrado, mas também podia ter menos doçura – para atingir seu teor alcoólico, a cerveja recebe certa quantidade de açúcar.

Enfim, considerei-a agradável, mas não espetacular – nem merecedora do título de “melhor do mundo”. Fui pesquisar as opiniões alheias no Ratebeer, e duas coisas me chamaram atenção: a primeira é a descrição do “estilo” (na verdade uma categoria informal), de que, pelo teor alcoólico e concentração de malte, as strong lagers têm mesmo menos características de lúpulo no aroma/sabor. A segunda constatação, e mais interessante: as 87 pessoas que provaram a cerveja e colocaram lá suas impressões a consideraram de mediana para baixo.

A Primator Premium Dark teve a mesma sorte no site. Mas não no meu copo: achei-a um pouco superior (dentro de seu estilo, claro) do que a Exklusiv, embora com algumas ressalvas descritas na ficha. Enfim, uma boa cerveja.

No fim, minha avaliação ficou na posição típica de um certo partido do abecedário político brasileiro: em cima do muro. De um lado, uma revista especializada que avaliou as cervejas como melhores de seus estilos. Do outro, um conjunto de degustadores, com maior e menor experiência, que não as consideraram lá muito atraentes. O que me levou à conclusão (um tanto esdrúxula) de que a degustação de cerveja pode ser como uma mesa redonda de futebol ou debate político, onde cada um tem sua opinião. Mas a melhor comparação é com o sexo: é bom ter algumas instruções de terceiros para não entrar numa fria quando ainda se está aprendendo sobre o funcionamento da “coisa”, e melhor ainda falar sobre o assunto. Mas nada se compara a ter suas próprias experiências com cada “parceiro”, solitárias, a dois ou em grupo. É impressão minha ou está um calor danado aqui? Hehehehehe

Em tempo: quase esqueci de falar mais sobre a história das cervejas. As Primators são produzidas na cidade tcheca de Nachod. A cervejaria começou a ser construída em 1872 e produziu sua primeira leva de cervejas no ano seguinte. Hoje, a Primator produz 12 receitas, incluindo estilos que fogem um pouco do padrão “pilsen/strong lager/dark lager (todas de baixa fermentação)” do país, com receitas como weizenbier e stout, de alta fermentação. Para saber mais, basta acessar o site da Primator, que tem a opção do inglês para quem não entende patavinas de tcheco, como eu.
Em tempo 2: As Primators também estão sendo vendidas pelos sites Cervejasnet e Nonobier.

Ficou com água na boca?