Paladar

Tripel week, dia 1: a história dos três grãos

28 novembro 2011 | 14:55 por Roberto Fonseca

Tripel Karmeliet (Bélgica, 330ml)


Produtor: Cervejaria Bosteels

Preço: R$ 17,89 no Mambo

Estilo: Ale / Belgian Tripel

Teor alc.: 8,4%

Cor: Dourado médio, translucidez variando de média a média a baixa se levedura no fundo da garrafa é adicionada

Espuma: Branca, média a alta formação e duração

Aroma: Cítrico potente, condimentado mais moderado, adocicado/frutado, algo de malte

Sabor: Malte, cítrico, condimentado; final de boca adocicado, cítrico e com secura moderada, além de leve picante. Teor alcoólico bem coberto pelo malte e outros elementos; corpo médio, amargor médio a baixo, carbonatação média a alta.

Nota 4,5 em 5Bela cerveja, com aroma potente e notas cítricas e condimentadas que se refletem no sabor. Consegue unir um belo corpo, macio, com a sensação de resfrescamento gerada pela carbonatação.

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Bem, nobres leitores do blog, como havia anunciado no Twitter, comecei ontem uma maratona de degustações de tripels. Não se trata de nenhum fanatismo recém-adquirido nem de um documentário ao estilo “Super Size Me”, com previsões de sobrevivência apenas à base da receita de DNA belga. Minha ideia é criar “memória” cervejeira para o concurso que a Acerva Paulista e a Cervejaria Bamberg realizam no sábado – apenas entre receitas do estilo -, e do qual serei um dos jurados. Usando como base a lista de avaliações do site Ratebeer, selecionei as representantes do estilo mais bem colocadas à venda no Brasil. Pela ordem: Tripel Karmeliet, Westmalle Tripel, Chimay Blanche, St. Bernardus Tripel, Gouden Carolus Tripel e St. Feuillien Triple. Logo abaixo da Karmeliet no ranking do Ratebeer está a Chouffe Houblon Dobbelen IPA Tripel, mas não a incluí por ser um “crossover” entre tripel e IPA.

A primeira da lista foi a Tripel Karmeliet, criada na metade dos anos 90 na Bélgica. Sua produtora, a Bosteels, afirma ter se baseado em receita desenvolvida em 1679 por uma ordem de carmelitas em Dendermonde. Segundo o finado pesquisador cervejeiro Michael Jackson, ela utiliza cevada, trigo e aveia, malteados e não-malteados, em sua composição.

Creio que esse detalhe na receita pode ter levado a uma das interpretações sobre o porquê do estilo se chamar tripel – a ligação com o número de grãos. Também há uma corrente que defende a explicação pelo número de fermentações – três, no caso. É a linha seguida pela Baden Baden Tripel, com 14%. Pessoalmente, me parece mais factível o cenário em que dubbel e tripel estariam relacionadas ao extrato original, ou então a uma medida de potência usada por seus produtores, a partir de indicações (x ou cruzes) nos barris. Mas o tema divide opiniões de cervejeiros há um bom tempo. Um dos principais produtores caseiros do País, o carioca Leonardo Botto, escreveu um artigo interessante tratando da polêmica em 2008, onde defende a tese do extrato original (leia aqui).

A tripel tem, ainda segundo Michael Jackson, pouco mais de um século de história. O pesquisador anotou, em seu livro Great Beers of Belgium, que o estilo surgiu nos primeiros anos do Século 20. A Westmalle, dos anos 30, é a representante mais antiga da lista que apresentei acima.

Aponto, desde já, duas “falhas” na imagem acima. A primeira é a ausência do copo da Karmeliet, um dos mais bonitos entre as cervejas belgas, com imagem de uma flor de lis em seu corpo – não o tenho em minha coleção. A segunda: a foto foi feita após a adição do líquido do fundo da garrafa, com levedura. O produtor recomenda que, a princípio, seja deixada a parte final da cerveja no vasilhame, para não turvar todo conteúdo do copo. A primeira imagem, sem levedura, “tremeu”. Apesar das minhas duas trapalhadas, a Karmeliet é realmente excepcional, com um dos melhores aromas que já senti em uma cerveja e um bom balanço entre corpo e sensação de refrescamento.

Em duas ocasiões este ano – uma matéria de capa do Paladar e um evento também do jornal -, arrisquei com a Karmeliet uma das melhores combinações que já provei, com bolinhos de bacalhau. É impressionante como as notas cítricas “abraçam” o peixe e o álcool atenua a fritura. Não tenho especialização em harmonizações, mas sei do que gosto. E nesse caso gostei bastante.

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